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Passos Coelho e a desvalorização interna

1 comment

O Primeiro-ministro anunciou as medidas de contenção Orçamental para 2012 e pela primeira vez na História recente de Portugal decidiu apresentar a primeira das reformas estruturais: o corte em dez por cento de todos os salários nominais significando isso uma mudança dos preços relativos em favor da competitividade e do crescimento económico pelas exportações.

Muitos não entendem que o problema português tem uma crueza extraordinária: temos que passar de uma economia que exporta uns 35% do PIB para uma economia que exporta uns 60 a 70% do PIB. E isto em tempo útil. É uma gigantesca transformação que exige uma profunda mudança dos preços relativos na economia.

No meu entendimento não é ocasional Passos Coelho ter feito este anúncio no dia seguinte ao de Mário Draghi para as aquisições ilimitadas de dívida pública até maturidades de 3 anos. Penso que a conjugação dos dois anúncios configura pela primeira vez com um elevado grau de probabilidade um êxito para o programa português de ajustamento. Passos Coelho e Gaspar (e Portas já agora) têm em definitivo a confiança dos nossos credores.

Continuo, não obstante, a pensar que a dívida portuguesa e irlandesa continuarão no final a necessitar de um “hair-cut” mas isso não será problema para os credores se o problema estrutural estiver solucionado.

Os argumentos para a desvalorização interna são conhecidos e por mim sumário no seguinte: transferência significativa de recursos do consumo para o investimento. Os ganhos imediatos das empresas sempre se traduzirão numa melhoria da sua situação financeira o que significa manutenção imediata do emprego ou a sua criação a prazo.

É evidente que numa pura perspectiva política é uma medida altamente favorável ao Capital e um atentado aos direitos adquiridos dos trabalhadores.

Ao fazer este brutal e histórico anúncio Passos Coelho ganhou o raro estatuto de Estadista mas provavelmente perderá as próximas eleições.

Evidentemente uma coisa é atacar os níveis salariais dos assalariados públicos ainda por cima votantes sobretudo de outros partidos. Outra coisa é afectar o bolso de toda a gente, incluindo os jornalistas e comentadores televisivos.

É curioso como na opinião publicada e comentada ninguém se atreve a defender uma medida que ficará na História como uma das mais importantes da Democracia portuguesa.

 

  1. E’ verdade o que diz do ponto de vista teorico, so peca por algum desconhecimento da realidade portuguesa. E’ agora sabido que a primeira medida que os empresarios iriam fazer com o efeito da descida da TSU era repagar divida, o que desta forma nao iria contribuir para o aumento da competitividade das empresas, mas sim para uma transferencia de riqueza dos assalariados para os bancos. Estranho e’ que ainda niguem tenha feito esta leitura.
    O que lhe parece?

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