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Salazar e a morte da TSU

3 comments

Tive a oportunidade de ouvir António Borges na sua conferência desta semana no American Club em Lisboa. Foi um ato muito instrutivo pelas ausências dos notáveis – com honrosas exceções – e umas presenças significativas geralmente compreensivas com as teses do orador.

António pediu Chatam House rules e não as quebrarei mas, não obstante, alguns comentários são possíveis.

Desde logo cumpre dizer que António – concorde-se ou não com as ideias – foi brilhante no exercício mental. É sem dúvida uma das pessoas mais bem preparadas da sua geração. Geração que tem outras mentes igualmente brilhantes como Jorge Braga de Macedo, Diogo Lucena, Miguel Beleza e tantos outros. Geração, no entanto, que não colocou de facto os seus melhores nas posições cimeiras de mando em Portugal, ou se colocou rapidamente se viu livre deles por os não controlar.

Lembro-me a este propósito de um artigo, que já tem anos, de Maria João Avilez no Expresso sobre o insucesso dos brilhantes jovens da NOVA ESPERANÇA em conquistar o poder em Portugal. Penso que a questão é similar.

Porque é que os melhores de cada geração em Portugal não atingem os lugares mais cimeiros? Ou se os atingem é enquanto lídimos representantes de interesses económicos solidamente instalados?

Quem pensar que estou a derivar e isto nada tem a ver com a TSU está completamente enganado. Vejamos .

O paradigma sociopolítico vigente no Salazarismo foi a imbricação dos interesses privados com o Estado. O Estado protegia os lucros privados, arbitrava os seus conflitos e assegurava a paz social com um misto de Estado Social e repressão. A revolução do 25 de Abril acentuou estas tendências com as nacionalizações deslocando o papel do Estado de árbitro dos interesses privados para tutelador desses interesses.

A evolução do novo regime sobretudo a partir dos anos 90 com as privatizações levou a uma importante alteração qualitativa pois o Estado passou de tutelador dos interesses privados para um Estado “capturado” por um núcleo restrito de interesses privados.

Diria mesmo mais nunca na História de Portugal houve uma concentração de poder económico tão importante como a que existe hoje. Com a ajuda de um Estado capturado um núcleo cada vez mais reduzido de interesses económicos manda de facto no país a seu bel prazer.

Estes interesses económicos que dominam a política e os aparelhos de Estado estão essencialmente entrincheirados em negócios domésticos beneficiando de rendas monopolísticas. São interesses que dependem vitalmente da evolução do mercado interno (leia-se o consumo) e dos preços arbitrados em mercados monopolísticos na Banca, na Saúde, na grande Distribuição e nos Transportes, por exemplo.

O ataque da Troika ao consumo atinge estes interesses no coração e é por isso que uma boa parte das Associações empresariais desconfiaram da TSU pois isso representa uma descida direta do consumo.

Mas alguém tem alguma duvida que o consumo vai baixar drasticamente com TSU ou sem? Pela simples razão que sem TSU se introduzirão outras medidas que terão nas famílias efeito orçamental similar.

É por isto que toda a discussão da TSU esteve inquinada. Nunca se tratou de saber se a TSU era em termos absolutos boa para o emprego mas sim se era melhor para o emprego face a pacotes orçamentais alternativos.

A TSU versão Passos Coelho era muito negativa para os interesses económicos dominantes pois atacava diretamente o consumo e transferia recursos para as empresas. Os ganhadores líquidos eram os exportadores e as empresas que conseguissem melhorar a sua competitividade.

O novo pacote orçamental sob a capa da coesão e concertação social será uma violenta machada na classe média e não fará o tão necessário e abrupto desvio de recursos para o sectores exportadores de bens transacionáveis – os únicos que poderão junto com a emigração criar emprego nos próximos anos.

A morte da TSU e da desvalorização interna foi a morte da única via que nos poderia levar – a prazo – a algum crescimento e criação de emprego. Neste quadro só nos resta a via do ajustamento deflacionista e pelo que se vê os limites da sua absorção social estão francamente a ser atingidos. Aproximamo-nos perigosamente do cenário Grego.

Em resumo, os interesses dominantes desta vez enroupados pelo Conselho Económico e Social e quejandos representantes na opinião publicada e com expoente máximo em Paulo Portas derrotaram a medida mais revolucionária e defensora dos trabalhadores desde Abril de 75.

Salazar se pudesse revirava-se na sua campa e morria outra vez, desta feita de riso.

 

  1. Mais um !!
    A TSU é um embuste.
    Aqui está mais uma prova nesse escrito. Por que desvia a atenção de outras medidas possíveis sem tanto sofrimento dos portugueses.
    Porque não substituir a mexida na TSU por:
    -redução de deputados para 80 e suas mordomias e assessorias, reestruturar os contratos das PPP, reduzir Institutos e observatórios, limitar ao mínimo as consultorias externas, reduzir a frota automóvel dos ministérios, reestruturar a Administração Pública e as Autarquias que pretendem gerir situações tal qual se fazia há quando foram estbelecidas, eliminar as mordomias dos ex. Presidentes da República e AR, limitar os vencimentos dos gestores públicos, dar maior poder e meios ao Tribunal de Contas e à Polícia Judiciária, implementar a responsabilização das funções do Estado devendo os prevaricadores responder perante a Justiça que se quer séria e célere, etc.
    Arranjou-se a TSU para desviar as atenções, continuando-se a abestializar os portugueses que devem então revoltar-se contra este estado de coisas.

  2. E’ verdade o que diz do ponto de vista teorico, so peca por algum desconhecimento da realidade portuguesa. E’ agora sabido que a primeira medida que os empresarios iriam tomar com o efeito da descida da TSU era repagar divida, o que desta forma nao iria contribuir para o aumento da competitividade das empresas, mas sim para uma transferencia de riqueza dos assalariados para os bancos. Estranho e’ que ainda niguem tenha feito esta leitura.
    O que lhe parece?

  3. E’ verdade o que diz do ponto de vista teorico, so peca por algum desconhecimento da realidade portuguesa. E’ agora sabido que a primeira medida que os empresarios iriam tomar com o efeito da descida da TSU era repagar divida, o que desta forma nao iria contribuir para o aumento da competitividade das empresas, mas sim para uma transferencia de riqueza dos assalariados para os bancos. Estranho e’ que ainda niguem tenha feito esta leitura.
    O que lhe parece?

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