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Nicolau, Artur e a responsabilidade

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Consumou-se o que era inevitável.

A Organização das Nações Unidas confirmou nada ter a ver com Artur Baptista da Silva, que o logótipo do cartão-de-visita usado por ele já não é usado há muitos anos e que o PNUD não atua na Europa Ocidental mas sim em países em desenvolvimento.

Pelo caminho ficou o facto de Artur não poder ser agora Professor numa Universidade americana que já cessou atividade há mais de 30 anos, nem poder ser o autor de textos escritos por outros. Igualmente sem importância está o facto de Artur citar números completamente errados e dar como boas informações mirabolantes.

Sabe-se agora que Artur esteve na iminência de ser Conferencista na Associação Abril há dois ou três meses mas uma sua responsável fez uma breve pesquiza na Net e nada encontrando como referência mínima sobre tamanha sumidade mundial optou por cancelar o evento.

Nicolau Santos, ao invés, decidiu promover Artur a ministeriável titulando mesmo uma sua peça “O que Artur diz e o Governo não ouve” para além de o ter entrevistado duas vezes. Dir-se-ia que Nicolau ficou de tal modo encantado com o que dizia Artur que, finalmente, tinha encontrado um economista de renome mundial que expressava o seu próprio pensamento.

Nicolau diz agora que foi “embarretado” ao fim de 32 anos de carreira e que cometeu um erro inadmissível. Em consequência, o EXPRESSO despublicou a entrevista de Nicolau a Artur. Esta heróica atitude de Nicolau mereceu logo as mais elevadas loas de alguns dos seus camaradas como alto exemplo de assumpção de responsabilidades.

Toda esta história é tão surreal que só o adiantamento do calendário em cerca de dois meses, posicionando-nos no Carnaval, possibilita um modicum de compreensibilidade.

Um jornalista especializado em Economia que não sabe que o PNUD nunca poderia ter estudos ou atuar em Portugal, um jornalista que vai – não para uma – para duas entrevistas sem uma investigação mínima ao menos do background do entrevistado, um jornalista que não pede sequer à secretaria que procure no site da dita Universidade o seu corpo académico e outras publicações. Enfim, perguntamo-nos como é possível que alguém com estes “standards” (?) profissionais possa ter as responsabilidades que tem.

Mas a questão é mais vasta. O acidente que aconteceu a Nicolau foi o que os ingleses diriam “an accident waiting to happen”.

Quem acompanha o infeliz declínio do EXPRESSO particularmente na Economia sabe que o jornalismo que se pratica é o que designaria de “jornalismo mandrião”. Um jornalismo acomodado e expectante do que chega à secretaria e quanto menos trabalho der melhor.

É certo que Ricardo Costa é o oposto disto tudo. Mas, pergunto-me, terá espaço para alterar o estado de coisas?

Lutar por histórias, por investigação, pelo contraditório. Em suma, grande jornalismo é algo que está, hoje, para além de Nicolau, Lima ou Vicente. Tanto se dorme à sombra da bananeira, tanto se perdem hábitos de pesquisa e requisitos básicos do jornalismo que mais cedo ou mais tarde aconteceria uma “bronca”. Mas meu Deus que bronca!

Evidentemente, num grande título internacional como o El País, Le Monde ou New York Times, um jornalista que desse uma “bronca” destas apresentaria imediatamente a demissão. Para Nicolau – tão lesto a pedir responsabilidades a outros – basta um texto de desculpas encimado pelo cartão de visita de Artur.

 

  1. Paulo Neves says:

    Não poderia estar mais de acordo com o João.

    Foi uma gafe do Nicolau do tamanho do mundo, sempre “tão lesto a pedir responsabilidades a outros”. Foi a vitória da ânsia e da ganância em demonstrar que o seu pensamento está certo.

    O “Expresso” é (foi?) uma grande instituição, mas alguns dos que por lá estão, não me parecem da mesma dimensão.

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