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A Recuperação dos Bancos e o Relatório do FMI

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As ações da banca em Bolsa, nomeadamente o BPI, têm subido fortemente. A correlação desta subida com o prémio de risco da República portuguesa é total. Isto é, na medida em que o risco Portugal tal como percebido nos mercados (por exemplo na taxa de juro da República a 10 anos) cai drasticamente, assim os balanços dos Bancos (sobretudo BPI) altamente alavancados em dívida pública portuguesa beneficiam fortemente dessa recuperação.

Na verdade, os bancos portugueses são autênticos hedge-funds da dívida pública portuguesa e se um cenário de reestruturação da dívida pública os colocava na insolvência, um cenário mais favorável é altamente positivo.

Acresce que as condições financeiras internacionais melhoram muito nos últimos três meses. Na zona euro, desde que Mário Draghi  fez a fundamental declaração sobre tudo fazer para defender a estabilidade monetária, nos EUA, desde que in-extremis se acordou o chamado “fiscal cliff” e na China, desde que ficou claro que o temido cenário do “hard landing” não se materializaria. Neste contexto, os mercados financeiros internacionais têm tido uma recuperação notável e o índice VIX de risco dos mercados baixou muito.

No seu conjunto, beneficiando da forte melhoria das condições domésticas e do ambiente internacional as ações dos bancos tiveram fortíssima recuperação.

A recuperação das condições domésticas e a forte baixa do prémio de risco Portugal dá nota evidente que a estratégia financeira do governo está a ter êxito. Isto é interessante notar porque se perguntássemos praticamente a qualquer pessoa dos media se a estratégia do governo estava a ter êxito seguramente a resposta seria não.

Penso que a questão está no que significa êxito. Na perspectiva do governo – e dos credores – êxito é estar mais próximo do equilíbrio financeiro e prescindir da TROIKA. Para muitos outros, êxito seria menos desemprego e crescimento no curto prazo. Na verdade, quem defende menos desemprego e mais crescimento no curto prazo não entende que, infelizmente, a reestruturação da economia em curso implica mesmo mais desemprego e recessão.

É neste sentido que quanto mais rápido for o ajustamento – implicando no curto prazo recessão e mais desemprego – mais rapidamente a economia crescerá absorvendo então o necessário emprego.

O relatório da missão do FMI que esteve em Portugal entre 25 de Outubro e 7 de Novembro foi tal como no “caso TSU” geralmente muito mal recebido. Infelizmente pelas piores razões.

Quem ler o relatório com um mínimo de seriedade reconhecerá que o relatório – não passando evidentemente de um relatório de uma missão de duas semanas a Portugal – contém um conjunto de diagnósticos e reflexões úteis para os portugueses. Os relatórios deste género são súmulas, geralmente bem feitas, do que já se sabia e está disperso nos vários departamentos do Estado. Contém a novidade de ter o selo de garantia de uma instituição internacional com a credibilidade do FMI e ao ser “adotado” pelo Governo é um caderno virado para a ação.

Do relatório do FMI retiro três ideias chave: a despesa é excessiva, altamente regressiva no plano social e nada amiga do crescimento económico. Um relatório com estas três ideias chave deveria ser aplaudido pelos chamados partidos da esquerda mas é exatamente o oposto. O PS chega mesmo a dizer que quer eleições imediatas caso o relatório seja aplicado.

As razões para estas reações estão explicadas no relatório. O Estado em Portugal está capturado por interesses que pretendem perpetuar os seus privilégios e usam os partidos para isso mesmo. Daí as reações, muitas delas a roçar o absurdo.

As poucas hipóteses de concertação social parecem assim de viabilidade remota e como o governo tem mesmo de cortar € 4 BN a tensão social vai aumentar e uma crise política não se pode afastar. Evidentemente, a decisão previsível do Tribunal Constitucional de uns € 1.5 BN  de medidas serem inconstitucionais acresce à complexidade da situação.

Tudo isto aponta para um próximo aumento do prémio de risco de Portugal, importante quebra dos preços da dívida e pressão em baixa das ações dos bancos.

 

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