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As Lições de Chipre

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A erupção pública da crise cipriota parece ter surpreendido muita gente mas quem tem acompanhado a crise europeia em desenvolvimento desde 2008 tinha claro que esta era mais uma das cartas do baralho em desmoronamento.

De facto, desde que Merkel e Sarkozy acordaram o princípio PSI – Private Sector Involvement na “solução” da crise Grega, infligindo pesadas perdas nos detentores da sua dívida, que os principais bancos cipriotas (com fortíssimas ligações à Grécia) ficaram condenados.

Desde então, tem sido o clássico jogo do empurra para ver o “last fool” como no jogo da roda. Entretanto, o “smart money” foi batendo asas e verdadeiramente quem ficou exposto foram os investidores locais ou os estrangeiros de “má qualidade” por falta de alternativas.

Para se ter uma ideia, os depósitos de residentes da união europeia em Chipre em final de fevereiro de 2013 tinham-se reduzido para menos de metade – em relação a um ano antes – para cerca de € 4BN. Além disso, estes depósitos estão concentrados noutros bancos que não os dois eventualmente afetados.

Embora não existam dados tão precisos o mesmo se terá passado com os depósitos de residentes noutros países – leia-se Rússia, aí se explicando a reação tão tranquila com que o Krelimn avistou esta crise. Contrariamente à desinformação populista os depósitos russos em Chipre não foram afetados de forma significativa.

A primeira versão do plano de resgate – altamente criticada e eventualmente recusada pelo Parlamento cipriota – envolvia um imposto de cerca de 6,6% sobre os depósitos inferiores a € 100 000 e 9,9% nos depósitos superiores a esse montante. Esta medida afetaria todos os depósitos de todos os bancos.

Caiu o Carmo e a Trindade. No plano internacional criticou-se não só a extensão da PSI aos depositantes em geral mas em especial aos depósitos da garantia europeia – até € 100 000. A partir daqui a confiança dos depositantes europeus ficaria – como ficou – necessariamente abalada. No plano local, o Parlamento quis dar uma lição ao Presidente recém-eleito – aliás por outro partido que não da maioria relativa parlamentar – e exercer uma populista ação de resistência contra o diktat estrangeiro.

Surgiu assim o Plano B. O Parlamento cipriota aprovou num fim de semana – sem perceber as consequências – o quadro legal de resolução bancária, dando todos os poderes ao Banco Central e ao Governo para fazerem praticamente tudo o que quisessem com os bancos privados.

Em consequência, o Banco Popular – LAIKI foi considerado insolvente tendo os seus depósitos no excesso de € 100 000 sido integrados na massa falida – com poucas probabilidades de recuperação de valor.

O Banco de Chipre, por sua vez, recebeu os depósitos até € 100 000 provenientes do LAIKI bem como – ponto crucial – os € 9 BN da ELA (Emergency Liquidity Assistance) proporcionada pelo BCE ao LAIKI via Banco Central. Por outras palavras, os depositantes do Banco de Chipre, para que o BCE não assumisse qualquer perda neste processo, tiveram que assumir como passivo a liquidez de emergência dada ao LAIKI. Evidentemente estes € 9 BN de liquidez de emergência serviram para pagar a massiva fuga de depósitos no LAIKI nos meses precedentes ao resgate.

Tudo visto e somado os depositantes do Banco de Chipre com mais de € 100 000 terão um importante “hair-cut” de valor, no inicio estimado em 40% mas agora mais provavelmente de 60%.

Em resumo, no plano B os cortes de valor concentram-se nos dois maiores bancos do sistema financeiro cipriota, ficando todos os restantes depositantes nos outros bancos intocados. Os depositantes acima de € 100 000 do LAIKI terão provavelmente perda total e o mesmo tipo de depositantes do Banco de Chipre terá uma perda provável de uns 60% dos seus depósitos.

O impacto deste plano B na atividade económica de Chipre será devastador. O grosso dos depósitos perdidos será de empresas, negócios e famílias de classe media e alta que terão que fechar, reduzir atividade ou consumo. Dado o grande peso destes dois bancos o impacto no desemprego será muito forte.

Conjugando este poderoso efeito recessivo, pela dramática punção de liquidez na economia, com o programa macroeconómico de ajustamento será muito difícil que Chipre não tenha uma dramática contração económica que alguns estimam possa chegar aos 25% do PIB.

Por outro lado, como é evidente, a confiança dos depositantes no mercado de Chipre em geral ficou fortemente abalada e mesmo o “dumb Money”, mal possa, vai buscar outras paragens.

Contrariamente à esmagadora maioria dos comentadores não tenho a menor dúvida que o plano A teria sido muito melhor para Chipre. Basicamente os pequenos depositantes trocaram não pagar uns 6% sobre o seu depósito por um mais que provável desemprego ditado pela perca da liquidez das empresas na insolvência dos dois maiores bancos. Parece-me uma péssima troca, dois meses de salário pelo desemprego de longa duração.

Mas neste mundo da ditadura do populismo e da venda dos caminhos mais fáceis que políticos cipriotas o consideraram? Honra lhes seja, o Presidente do EuroGrupo – que tão maltratado tem sido nos media – bem como o Presidente de Chipre Anestesiadas (os contratantes do plano A), tiveram muito mais sentido do interesse Cipriota do que os seus parlamentares – completamente impotentes e ultrapassados pela decisão final.

Mas, a meu ver, a principal lição a tirar do episódio cipriota é a de que a Alemanha já não se contenta com uma PSI que afete os investidores financeiros. Se necessário os depositantes acima de € 100 000 terão que responder pelas percas dos seus bancos – ou mesmo as do banco ao lado, uma conclusão cheia de consequências para quem as quiser perceber.

 

 

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  1. A Europa Chipruda | ao Leme - [...] depósitos, já tolerável  pela maioria dos europeus. Quem percebe do sistema bancário retirará as suas conclusões  e será forçado…

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