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O vírus Chipre e o Banco de Portugal

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Desde que os depósitos acima de € 100 000 pagaram a resolução bancaria de dois bancos em Chipre ficou escrito nas estrelas que os mecanismos de resgate na Europa não mais seriam iguais.

A Europa, no essencial, iria utilizar o mecanismo de resolução bancaria há muito praticado nos EUA onde a FDIC (equivalente muito mais amplo do FGD) tem amplos poderes de resolução e uma muito eficaz capacidade de concretização.

Engana-se assim quem pensar que, se Portugal ou qualquer Banco precisar de resgate, tudo se resolverá como até aqui. Claramente, os depositantes com valores superiores a € 100 000 serão chamados com as suas poupanças a financiar o resgate.

Isto tornou-se liminarmente claro para o comum dos cidadãos com mais de € 100 000 em depósito, por titular, num único banco. E foi manifesto que se desenvolveram movimentações financeiras, quer para o estrangeiro, quer para bancos internacionais a operar em Portugal com licenças da casa mãe como o Barclays mas sobretudo o Deutche Bank.

Era uma questão de tempo até uma matéria do género ser sublinhada pelo FT quando na verdade já tinha sido abordada múltiplas vezes pela imprensa portuguesa. A novidade porém foram as declarações dos Presidentes de dois bancos que soaram a um sinal de alarme. E o alarme soou mesmo e gerou-se uma mini corrida aos depósitos de montante ainda difícil de medir.

A grande surpresa deste processo a meu ver, como aliás já foi sublinhado, esteve na passividade do Banco de Portugal que assiste a tudo isto sem um comentário, um desmentido ou uma clarificação. Tendo o Bdp informação diária sobre a evolução dos depósitos poderia facilmente ter comunicado que a variação do volume de depósitos entre meses/semanas/dias teria sido porventura até insignificante nos macro números. Mas não, o BdP nada disse e perante esse silencio toda a especulação é permitida.

A questão mais interessante será porque é que o BdP guardou de Conrado prudente silêncio? Porque, na verdade, por detrás de um bom número nos rácios de capital os bancos portugueses estão muito débeis.

Os rácios de cobertura do crédito em risco variam entre os 50 e os 70%, o que significa que em termos estáticos teriam ainda que provisionar cerca de € 11 BN. Em termos dinâmicos, como o crédito vencido anda atrás da crise económica será necessariamente muito mais.

Acresce esse problema bem mais grave que é o déficit económico das carteiras do crédito à habitação financiadas hoje a taxas muito baixas em consideração com o custo dos fundos. Este gap económico está estimado em cerca de € 20 BN.

 

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