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José Mourinho e os UltraSur

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Creio que meio Portugal tem acompanhado a saga de José Mourinho no Real Madrid, particularmente neste último penoso ano.

A pergunta chave é porque é que um dos melhores treinadores do mundo enfrenta tantos inimigos- internos e externos – em Espanha?

A primeira questão, a meu ver, é que o Real Madrid tem um modelo de gestão institucional que não protege o treinador. Isto é, não existe – contrariamente à prática dos melhores clubes – líderes intermédios que defendam o clube dos ataques que sempre acontecem num desporto de paixões.

Veja-se por exemplo que Leonardo, diretor desportivo do PSG, teve uma pesadíssima pena desportiva por intervir no que entendeu ser a defesa do seu clube. O mesmo se passaria sempre no FCP onde, para além de Pinto da Costa, haveria sempre outros responsáveis que atuariam ao menor sinal do seu Presidente.

O mesmo não sucede no Real Madrid. Os seus representantes institucionais – Valdano primeiro e Butragueno depois – querem sobretudo “jogar para fotografia”, nunca se disponibilizaram para se molharem, deixando assim o corpo técnico e os jogadores à mercê das feras.

José Mourinho procurou esta figura institucional que assumisse o papel de “mau da fita” protegendo o grupo de trabalho mas a tentativa com Zidane não resultou e nunca se encontrou o pára-raios necessário.

Caiu assim sobre José Mourinho e apenas ele todo o desgaste de todas as guerras. O Ser Português em Espanha, o Ser Madrileno na Catalunha, o Ser independente face aos meios de comunicação, o Ser justo na gestão do plantel. E sobretudo o Ser o representante do Madridismo.

No FCP seria impensável que um treinador assumisse estas responsabilidades. O Presidente Pinto da Costa é o corpo e alma dos dragões. No Real Madrid o Presidente Florentino Pérez é um líder distanciado – com o poder efetivo sem dúvida – mas pouco interessado em mostrar que o exerce no dia-a-dia.

No Real Madrid as questões vão fluindo, as tensões acumulando, muita gente a pensar que tem algo importante a dizer e influir, assim se multiplicando a cacofonia reinante. A implicação de tudo isto é a crescente dificuldade em liderar um projeto com a indispensável “mão de ferro”. No Real Madrid qualquer questão se transforma num debate infindável com imediatas pesquisas de opinião mais ou menos serias.

Para não falar nos importantes interesses económicos em jogo, ganhos por quem mais influencia possa ter. Comissões nas transferências de jogadores, pagamentos por comentários nos mediam ou por informações passadas, por exemplo.

Deixar toda a gestão deste imenso complexo em José Mourinho foi claramente excessivo e abriu flanco para o desbotar dos verdadeiros inimigos – como sempre os internos são os mais complicados.

Os inimigos internos de José Mourinho centraram-se primeiro na figura de Valdano, o filósofo hiperbólico que articula muito bem e dá densidade analítica ao que é basicamente um jogo de pontapés. Foi o eleito do chamado “Senhorio Madridista” que no fundo vem na sequência da Grande Espanha imperial. Neste palco, assiste-se a um jogo de futebol como a uma tourada – silencio absoluto e raros sinais de apoio ou reprovação.

Quem já assistiu a um jogo no Bernabéu não deixará de se impressionar com o silencio sepulcral reinante praticamente em todo o jogo. Enquanto em Itália ou em Camp Nou os adeptos fazem a festa no Estádio horas antes do jogo, no Bernabéu o estádio enche-se, como por encanto, um minuto antes do início da partida.

O “senhorio madridista” assistiu com horror à estratégia de combate, tudo ou nada, levada a cabo por Mourinho na sua luta insana para sacar ao Barcelona o seu domínio absoluto do futebol espanhol e europeu. Esta estratégia de combate típica por exemplo do FCP foi por sua vez entendida e adorada, desde logo, pelos “pés descalços” madridistas que assentam arraiais no topo sul do Bernabéu – os UltraSur.

Enquanto o “senhorio madridista” conspirava na sombra contra Mourinho, aproveitando o mais rafeiro sentimento antiportuguês ainda largamente reinante, a imprensa desportiva lançou um programa militantemente diário de desestabilização e desgaste da figura do treinador.

Acresce a tudo isto a dura luta no interior do balneário pelo maior protagonismo. Uma luta claramente ganha por Cristiano Ronaldo (como se verá pelos termos do seu contrato de renovação) mas que pelo meio levou Casillas a tentar arrebanhar para a sua esfera de influência colegas pontualmente descontentes com a exigência do treinador.

Quem melhor poderia representar o “senhorio madridista” nesta guerra com Mourinho do que Iker Casillas? E Iker assim quis.

Bem fiel ao seu nome Florentino Pérez, Pérez navegou nestes jogos florentinos. O Real Madrid teve uma época desastrosa em ano de eleições mas acabou re-eleito sem opositor.

A homenagem dos UltraSur na despedida de Mourinho é, a meu ver, muito clara. Jamais esquecerão José Mourinho e ao menor deslize de Casillas ou do próximo treinador começarão a cantar – tal como têm cantado nos últimos anos os adeptos do Chelsea – pelo nome de José Mourinho.

Ou a próxima época corre muito bem e tudo se pacifica ou José Mourinho adquirirá um estatuto messiânico que levara o madridismo a tentar um dia o seu regresso.

 

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