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Grupo Espírito Santo: Credores Dizimados

3 comments

As notícias vão de mal a péssimo. Os credores recuperarão 25% dos seus créditos na melhor das hipóteses.

Tal como se antecipava, a ESI, a RIOFORTE e a ESFG apresentaram-se à insolvência e coloca-se agora a questão do percentual de recuperação dos credores (“recovery rate”).

Numa primeira estimativa de “recovery rate” em post anterior, apontei generosamente para 50% como o percentual de recuperação para os credores do GES. Esta estimativa foi curiosamente seguida, não sei se por acaso, pelo Bdp como recomendação geral para o sistema bancário.

Infelizmente, os últimos desenvolvimentos, nomeadamente na Suíça – onde o Regulador forçou uma venda imediata da carteira de clientes – e a execução da conta margem sobre 5% do BES pelo NOMURA, apontam para uma clara desvalorização dos ativos totais.

A avaliação que faço dos ativos totais do GES aponta para € 800 milhões na RIOFORTE (considerando a ESViagens a zero) e € 1 mil milhões para o ESFG (considerando o BPES a zero), resultando num valor total de ativos do GES de € 1.8 mil milhões. Considerando por outro lado (segundo valores publicados) um passivo total de € 7.5 mil milhões, resulta um “recovery rate” de cerca de 25%.

Evidentemente que este “recovery rate” variará de sociedade para sociedade. Por exemplo, na ESI o “recovery rate” será zero em princípio pois o seu único ativo – a RIOFORTE – ficou insolvente. Se assim for, o “recovery rate” das outras sociedades insolventes aumentarão muito. Mas, não sendo jurista, admito que haverá uma complexa argumentação sobre a “solidariedade de ativos e passivos” num GES que era gerido pelas mesmas pessoas nas várias sociedades.

Pessoas, essas que, incidentalmente, ao dar como garantias numas sociedades ativos que lhe não pertenciam (por exemplo garantir papel comercial ESI com um ativo do ESFG – como no penhor da venda da TRANQUILIDADE), incorreram numa gravíssima descriminação de credores.

A estimativa do “recovery rate” depende, ainda, de questões jurídicas complexas – potencialmente só dirimíveis em Tribunal, e que têm que ver com a eficácia de garantias dadas em penhor – nomeadamente pelo ESFG – sobre certos ativos. Por exemplo, o ESFG deu ao BES a garantia sobre o produto da venda da TRANQUILIDADE bem como uma garantia bancária “first demand” para cobrir as perdas dos clientes de retalho em papel comercial GES.

Estas garantias não têm, a meu ver, qualquer eficácia, daí que o BES tenha que provisionar a totalidade da sua exposição ao GES nas contas do primeiro semestre.

Se estas garantias fossem juridicamente eficazes – o que, não sendo jurista, duvido fortemente – então a situação seria ainda mais desastrosa para os restantes credores. Fruto de um claro privilégio do credor BES em relação aos restantes, o “recovery rate” dos credores “não-BES” seria de apenas 10%.

Por outro lado, se em cima da eficácia das garantias prestadas ao BES for aceite a eficácia da garantia prestada para a emissão do papel comercial EMTN do ESFG – a qual tem como colateral os 20% que o ESFG tem no BES – então o “recovery rate” dos restantes credores baixa para 6.5%.

Perante estes valores causa-me total perplexidade a gestão do ESFG.

O ESFG era um grupo financeiro com um bom portfólio de negócios. Como este bom portfólio de negócios foi completamente “intoxicado” pela dívida do GES eis uma fascinante matéria para historiadores e jornalistas.

  1. Tambem nao compreendo porque a garantia dos 700 milhoes recai somente sobre a ESFG uma vez que que o CASA tambem participou Na gestao e deveria ser co-responsabilizado.

    O banco de Portugal sabia que o ges estava falido e no entanto impos essa garantia a esfg – isto em vez de ferir os acionistas que estavam na Gestão tira a uns credores para dar a outros e depois deresponsabiliza generosamente o cAsa.

    Acha mesmo que o governador do banco de Portugal sabe o que esta a fazer ? Ele tera mesmo competencia para o cargo ?

  2. O senhor governador do BdP anda a toque do poder. Não vimos ainda nenhuma explicação firme e cabal de todas estas dúvidas. Ninguém entende quem é afinal o regulador…
    Se calhar continua a ser o senhor Salgado que nestes anos todos sempre teve o caminho aberto quer por parte do próprio BP quer por parte dos seus grandes amigos socialistas.

  3. Arnaldo Jose says:

    Caro João,
    Boas observações as deixadas no texto, tal como nos demais publicados recentemente sobre o assunto.
    Ascendendo o buraco a pelo menos € 3,6B e ascendendo actualmente a capitalização bolsista do BES a escassos € 600M, não vejo que seja possível alcançar-se a solução privada que o BdP e o Governo da República tão desesperadamente ambicionam.
    Seja como for, os actuais accionistas do BES vão necessariamente sofrer perda duríssima, que pode ser total na hipótese de a recapitalização se dar exclusivamente por recurso a ajuda de Estado, tal os termos em que esta hoje se mostra regulamentada e que deixa também desprotegidos os titulares de dívida subordinada.
    Em qualquer dos cenários muito em breve os accionistas que acorreram ao recentíssimo aumento de capital do BES – deliberado, subscrito e realizado há pouco mais de um mês!!! – vão concluir que os cerca de € 800.000.000,00 que em conjunto aportaram foram simplesmente deitados ao lixo – good money throuwn after bad money, para fazer uso de um jargão bem popular no mundo financeiro.
    Aumento de capital esse promovido com o apoio expresso do Banco de Portugal, que fica novamente muito mal na fotografia e ao ponto de, tudo o indica, haver fundamento legal para o co-responsabilizar pelas perdas.
    Com um capital social de um milhão de euros vai decerto ser difícil provisionar as perdas…
    Do mesmo modo que o seria se o aumento de capital tivesse sido de apenas uns míseros cem milhões de euros.
    Tempos fantásticos os vindouros!
    Um abraço do
    Arnaldo José

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