subscribe: Posts | Comments | Email

GES e a nova depressão em Portugal

1 comment

O impacto económico da crise GES/BES poderá levar a uma contração de 7,6% do PIB em Portugal. Não conheço paralelo na história económica.

A dimensão e rapidez dos acontecimentos no GES/BES é tal que nos deixa a todos num estado de letargia de tão surreal tudo parecer ser.

A análise da ação ou inação dos responsáveis nas cadeias de decisão deste imbróglio dará para encher centenas de quilómetros de jornal. Desde os responsáveis do GES, aos Conselhos de Administração do ESFG, Portugal Telecom e Tranquilidade, até aos Auditores, Banco de Portugal e CMVM, vemos uma debandada geral a procurar refúgio entre os pingos da chuva.

Desgraçadamente a questão é demasiado séria para brincadeiras e temo que o impacto económico da crise ultrapasse largamente o cálculo económico da Ministra das Finanças. Espero que os sociólogos, ao menos, um dia, expliquem esta “debacle”.

O Governo, até sexta- feira passada, pensou que o Banco de Portugal poderia lidar com o problema. Como já expliquei noutro post na Arma/Crítica isso iria dar asneira, como, desgraçadamente, deu. O Banco de Portugal viu-se ultrapassado e o Governo teve que intervir.

Mas o mal está feito e vêm agora as consequências económicas. Das quais, evidentemente, Costa e Neves nunca assumirão responsabilidade.

Como às vezes dá raiva ter razão.

O problema para a economia portuguesa da insolvência do GES/BES é muito sério. Em termos de cálculo económico deve ser analisado na perspetiva do “efeito riqueza” (wealth effect), isto é o impacto económico assimétrico do “desaparecimento” permanente de um certo montante na economia. Este efeito é exatamente igual – mas de sentido inverso – ao dos fundos estruturais europeus.

As perdas do papel comercial e obrigacionista do GES bem como o capital acionista “esfumado” no BES correspondem à riqueza que desapareceu de forma permanente e irrecuperável. Esta riqueza deixará de ser consumida ou investida na economia portuguesa e daí o seu importante impacto económico.

O impacto económico é gigantesco, de longe muito superior ao caso BPN.

Em termos diretos significa uns € 5 mil milhões no GES, calculando a dívida total menos o “recovery rate” (que agora estimo em 10 %), menos o montante a ser pago pelo BES.

Em termos indiretos deve somar-se, pelo menos, mais uns € 4 mil milhões de destruição de riqueza no BES, originados na desvalorização permanente de capital acionista.

No seu conjunto, estamos a falar num “efeito riqueza” de uns € 9 mil milhões, ou seja 5,4% do PIB de Portugal.

É certo que nem todo este “efeito riqueza” corresponde a Rendimento Nacional atribuível a portugueses mas, infelizmente, uma esmagadora maioria será.

Mas as más notícias não ficam por aqui.

O impacto de um “efeito riqueza” numa economia tem sido debatido por grandes economistas, não no seu efeito imediato acima calculado – que é unânime – mas no seu Keynesiano efeito multiplicador/acelerador.

O reputado economista de Harvard Robert Barro, considera este multiplicador como sendo zero, mas o senso comum, acompanhado de outros grandes economistas – Modiglianni, Case e Shiller, por exemplo – sugerem um multiplicador /acelerador de 0,4 para este efeito riqueza. Isto é, tal como num tremor de terra, haveria uma segunda vaga de efeitos económicos que ampliaria a primeira vaga em 40%.

Por mim, neste momento, e em linha com aquele efeito multiplicador/acelerador estimo o impacto do caso GES/BES na economia portuguesa em € 12,6 mil milhões, ou seja uns 7,6% do PIB.

E pode ainda ser muito pior, como temo. A carteira de crédito imobiliário do BES – mesmo após ter sido extensamente analisada pelo Banco de Portugal, pode revelar graves “esqueletos no armário”, originando uma terceira vaga de provisões e de destruição de capital. A concretizar-se – oxalá que não – teria implicações inimagináveis.

Mesmo no quadro já conhecido, estamos a falar de uma brutal contração para a economia portuguesa. Muito pior do que a originada na Grande recessão de 2008 e com inevitáveis e profundos efeitos político-eleitorais.

Danos económicos e políticos que poderiam perfeitamente ter sido muito contidos com uma atuação preventiva do Banco de Portugal em tempo útil.

 

Portugal, fado, nostalgia.

 

  1. Gushabilis says:

    Fitch diz que divisão do BES tem impacto orçamental limitado, JN – palavras para quê?

Leave a Reply