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Carlos Costa enganou os portugueses

2 comments

A extraordinária e histórica divulgação da Ata da reunião do Conselho de Administração de 3 de agosto do Banco de Portugal demonstrou duas coisas.

Primeiro que o Banco de Portugal faz pública, seguramente involuntariamente, informação da maior sensibilidade. Num primeiro momento achei esta divulgação tão extraordinária que só poderia ser uma fuga de informação.

Mas não, estava errado. O BdP tornou mesmo pública informação sobre as fugas de depósito do BES em julho, o montante do Emergency Liquidity Assistance – ELA – do BES a 1 de agosto e mesmo o balanço pro-forma do NOVOBANCO a 30 de Junho. Como o BdP vai lamentar a divulgação deste balanço pro-forma quando se comparar com o real que vai resultar do trabalho dos Auditores.

Uma instituição sujeita a uma tal vulnerabilidade está em estado terminal e, a meu ver, esta gravíssima divulgação de informação foi a última pedra lançada para a defunta Administração de Carlos Costa, Duarte Neves e Silveira Godinho.

Mas esta fuga de informação cumpriu, em segundo lugar, um inestimável serviço público. Esclareceu por uma vez o que o Banco de Portugal sabia sobre o BES e ocultou dos portugueses, enganando.

O BES foi financiado até cerca de 30 de junho num montante de € 10 mil milhões pelo BCE, enquanto teve colaterais elegíveis. Foi cerca dessa data que o BCE deixou de financiar o BES colocando-o em iminente risco de insolvência.

Incidentalmente, a ata do BdP fala em € 10 mil milhões de financiamento do BCE mas no balanço do BES pro-forma que acompanha a Ata a 30 de junho, o montante em dívida a Bancos Centrais é de apenas € 8,339 mil milhões. Esperemos que além do mais, também se não conclua que o BdP não sabe fazer contas.

O Banco de Portugal decretou a insolvência do BES a 3 de agosto mas o BES estava insolvente desde, pelo menos, 30 de junho quando se iniciaram as operações ELA – Emergency Liquidity Assistance ao BES.

No quadro do EuroSistema as operações ELA apenas ocorrem quando uma instituição financeira não tem mais colaterais elegíveis para desconto de liquidez junto do BCE. Por outras palavras, quando uma instituição ficou sem condições de liquidez para honrar os seus compromissos, ficou insolvente.

Nestas condições pode ser acionado o ELA, responsabilidade dos Bancos Centrais dos países.

O fornecimento de liquidez do BdP ao BES foi, assim, efetuado sem colateral ou com colateral simbólico que nunca seria aceite pelo BCE. Digamos, em caricatura real, que o BdP cedeu liquidez ELA ao BES com obrigações da RIOFORTE como garantia.

Mas, por outro lado, a liquidez cedida pelo BdP no ELA, não é dinheiro caído do céu. São fundos públicos e o BdP dispor deles de forma discricionária e sem qualquer escrutínio permite as maiores arbitrariedades. Se o BES tivesse tido uma insolvência desordenada o dinheiro ELA seriam fundos públicos que acrescentariam a dívida pública.

Segundo a Ata do BdP, em 1de Agosto o BdP já tinha cedido ao BES em ELA € 3,5 mil milhões, isto é, nessa data, já existia esse montante de fundos públicos no BES.

A mesma Ata diz ainda que no mês de Julho saíram do BES fundos no montante de € 3,35 mil milhões, o que significa que durante todo o mês de julho o BES sobreviveu apenas graças aos dinheiros públicos ELA.

O BES efetuou um aumento de capital que teve lugar entre 27 de maio e 9 de junho, segundo Ricardo Salgado o de maior êxito na história do BES. Em 16 de junho soube-se que o GES, na impossibilidade de Ricardo Salgado continuar, apresentou Amilcar Morais Pires como o seu sucessor tendo começado aí o braço de ferro com o BdP que levou à nomeação de Vitor Bento.

Por outras palavras, enquanto os acionistas eram tranquilizados e encorajados pela gestão do BES e pelo BdP e CMVM a acorrerem ao aumento de capital, a liquidez do BES registava uma deterioração significativa de tal forma que passadas duas semanas estava insolvente.

Mais grave, durante todo o mês de julho a situação de insolvência foi-se agravando com os investidores a transacionar em Bolsa uma entidade insolvente. Compreendem-se agora os repetidos apelos cada vez mais patéticos de Carlos Costa aos investidores do BES para que não abandonassem o barco.

No dia 22 de julho os Auditores alertarem por email quer o BdP quer a CMVM para uma deterioração material das contas do BES, isto deveria imediatamente levar a CMVM a obrigar o BES a um comunicado ao mercado.

No dia 28 de julho o BdP contratou a sociedade de advogados VdA para o assessorar no mecanismo de Resolução.

No dia 30 de julho às 21h15, foram divulgados os resultados do BES.

No dia 30 de julho às 22h, Vitor Bento emitiu um comunicado a anunciar um reforço dos capitais próprios do BES.

No dia 30 de julho às 24h, o BdP emite um comunicado dizendo que estão reunidas as condições para o reforço dos fundos próprios do BES.

Como se viu a credibilidade do BdP estava arruinada e nos dois dias seguintes deu-se a hecatombe final.

O desespero do BdP entende-se agora. O BdP arriscava-se a ficar com o menino nos braços – como ficou – tendo cedido fundos públicos. O mecanismo de Resolução significa, afinal, a substituição dos fundos públicos do ELA, de que é responsável o BdP, por fundos que provêem da TROIKA, de que é responsável o Ministério das Finanças. Não é justo que Maria Luis salve Costa.

Mas nesta matéria tudo pode ainda acabar em bem. Depende agora do valor de venda do NOVOBANCO – outro imbróglio que discutirei mais tarde.

Em resumo, uma atuação do BdP que, perseguindo uma agenda horrorosamente arquitetada, não hesitou em tentar enganar tudo e todos querendo vender gato por lebre, deteriorando gravemente a credibilidade de Vitor Bento no processo.

Noutros casos, o BDP e a CMVM ganharam facilmente o jogo da desresponsabilização. Fizeram recair sobre terceiros, mais fracos, as suas responsabilidades.

Veremos como o país reage em situação tão escandalosa.

  1. Isabel Lago says:

    Por favor, mesmo por grande favor, apontem-me alguém do governo os das finanças deste país que fale verdade. Pode ser só uma pessoa, mas que tenha a coragem de o fazer. O povo deste país sente-se uma marionete movimentada por algu´m poder que desconhece. BASTA.

    • j. casais says:

      NO COMMENT’S .

      “QUE POVINHO” !!!

      DIZIA UMA DEP. ALEMA NUMA INTERVENÇÃO NESSE PARLAMENTO EUROPEU.

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