subscribe: Posts | Comments | Email

O (não) reembolso dos clientes de retalho do BES/GES

1 comment

Como foi publicitado, o BdP e a Administração de Vítor Bento andaram no jogo do empurra a ver quem tomava a decisão final sobre o pagamento do papel comercial do GES – ESI, RIOFORTE, ESFG, que foi comercializado nos balcões do BES aos clientes de retalho (não -qualificados, na linguagem da DMIF).

O montante total desta comercialização foi de cerca de € 1,1 mil milhões, excluindo bem entendido o montante de clientes institucionais de cerca de € 2,4 mil milhões. Exclui-se ainda um montante não conhecido mas que poderá revelar-se ainda muito relevante, correspondente a comercialização na rede de Private Banking do BES de clientes juridicamente vinculados ao  Banque Privée Espírito Santo. Digo  muito relevante pela litigância para o NOVOBANCO que esta questão, na minha opinião, acarretará.

No final deste braço de ferro Bento ganhou, e obrigou o BdP a ficar com o ônus deste (mais um) imbróglio.

Porque é que Carlos Costa e Vítor Bento andaram no jogo do empurra?

Porque a manta ficou curta. Isto é, tendo dito desde o início que os clientes de retalho seriam ressarcidos, fizeram as contas e verificaram que para uma exposição de € 1,1 mil milhões o NOVOBANCO só fez uma provisão de € 850 milhões. Se pagassem a todos os clientes o  NOVOBANCO nasceria com um buraco de € 250 milhões.

Daí a lengalenga do BdP que só se poderia pagar se não afetasse a posição de fundos próprios e liquidez, o que incidentalmente não augura nada de bom para as propostas comerciais que os clientes afetados irão receber em breve em matéria de capital e maturidade.

Vai daí o BdP vem com a decisão de que apenas os clientes que renovaram as suas aplicações até 14 de fevereiro de 2014 é que são elegíveis para serem ressarcidos.

TODOS OS CLIENTES  BES/GES QUE RENOVARAM AS SUAS APLICAÇÕES ENTRE 14 DE FEVEREIRO E 1 DE AGOSTO  PERDERÃO PRATICAMENTE A TOTALIDADE DO SEU CAPITAL, AO TRANSITAREM PARA O BES/BANCO MAU.

A argumentação do BdP é digna de manual. Foi a 14 de fevereiro que o BdP instruiu a Administração de Ricardo Salgado para não aumentar a exposição do BES ao GES e vai daí os clientes deixam de ser elegíveis.

Mas os clientes tem alguma culpa nisto?

É bem verdade que a Administração de Ricardo Salgado será severamente penalizada por ter, conscientemente, incumprido determinações do BdP com óbvias implicações nos foros civil e criminal. Mas devem ser os clientes lesados por isto?

Acaso foram os clientes informados a 14 de fevereiro que naquela data o BdP tinha dado tais instruções?

Como pode a CMVM aceitar esta interrupção do Código do Mercado de Valores Mobiliários numa data, 14 de fevereiro, que não foi objeto de qualquer comunicado ao mercado?

Como poderá a CMVM  assistir  impávida e serena a mais esta brutal discriminação de clientes?

Parece-me óbvio, por outro lado, que esta decisão do BdP é de uma esperteza saloia pois coloca um óbvio risco jurídico no NOVOBANCO (na forma de uma provisão de € 250 milhões) – a somar a muitos outros problemas similares.

Estes riscos jurídicos não deixarão de pesar na avaliação que qualquer investidor interessado no NOVOBANCO irá fazer – colocando um óbvio desconto no preço para refletir as incertezas de provisionamento que a interminável  litigância  arrastará.

Más notícias para o valor de venda do NOVOBANCO e para a expectável celeridade do processo de venda.

  1. Arnaldo José says:

    Realmente!!!

    Diria até que, não tendo sido publicada a instrução ou não tendo sido assegurada a sua comunicação, os clientes que subscreveram / renovaram as aplicações em causa mais recentemente são os que potencialmente mais se podem sentir enganados, certo como é que o engano parece ter sido crescente, senão em período mais lato pelo menos no que mediou entre 14 de Fevereiro e a sujeição das emitentes a medidas falimentares – período este durante o qual o BES seguramente bem sabia que estava a vender “produtos” com grau de risco muitíssimo superior ao que quadrava o perfil de todos os investidores não qualificados.

    Estes clientes – os investidores não qualificados que mais recentemente subscreveram / renovaram as aplicações em causa – são por isso aqueles que em melhor posição prima facie estarão para com sucesso disputarem judicialmente a respectiva subscrição / renovação, com vista a tornarem-se credores do Novo Banco pelo capital investido, acrescido dos respectivo juros vencidos e vincendos, a calcular desde a mobilização dos respectivos fundos até integral e efectivo pagamento.

    Se os créditos destes clientes forem deixados sem protecção, como parece defender o BdP, vai decerto dar molho… e não só nos Tribunais.

    E se assim vier a ocorrer lá se vai cavar um buraco no Novo Banco; entre quantos mais só o tempo o dirá, certo como é que a procissão encarregue de levantar o tapete parece ainda nem sequer ter chegado ao adro!

    Abraço,

    AJ

Leave a Reply