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NOVOBANCO e a teoria do ‘Last Fool’

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Assisto entre o espantado e o divertido à sucessão de apelos a uma rápida venda do NOVOBANCO. Assim se pronunciou Artur Santos Silva, mais recentemente Carlos Rodrigues (aliás, uma pessoa que admiro) e diz a imprensa, um rol imenso de entidades a começar pelo BdP.

Vítor Bento – et pour cause – ainda não se pronunciou porque na verdade, como muito bem sentenciou Pedro Santos Guerreiro, está tramado. Se pedir tempo para poder organizar e valorizar cai-lhe tudo em cima por querer estar a criar o seu “império” pessoal; se vender rápido e por menos de € 4,9 mil milhões, fracassou.

Vítor Bento está a jogar um jogo com “pay-off” negativo e daí o medo cénico que envolve a sua governação.

Para os defensores da venda rápida, tratar-se-ia de uma limitação de danos, limitar a presente responsabilidade ilimitada: quanto mais rápido o NOVOBANCO fosse vendido mais rapidamente o comprador assumiria a responsabilidade (ilimitada) pelos seus problemas.

Por outras palavras, haveria por aí investidores disponíveis para entregar cheques de milhões de euros sabendo – porque os vendedores o dizem todos os dias nos jornais – que a entidade que vão comprar tem problemas de balanço que se poderão multiplicar no futuro. Putativos investidores prontos a assumir uma responsabilidade ilimitada sobre o balanço (qual balanço?) do NOVOBANCO.

Isto faz-me lembrar, ainda no espírito da “silly season” que teima em permanecer, a teoria de investimento do “last fool”. Segundo esta teoria os investidores são todos uns tontos (fools) mas sendo que alguns se julgam mais espertos do que outros. Os mais espertos vão vendendo e arrecadando mais-valias, sendo que há um último – “last fool” – que fica com a “batata quente” nas mãos.

A teoria do “last fool” aplica-se bastante bem a situações de assimetria de informação sobretudo quando há “insiders” que transacionam com pessoas com menos informação. O último tonto pode, assim, ser apenas uma vítima de um crime de mercado. Um paraíso para a CMVM mesmo que se trate de ANGELS.

Uma coisa é certa – porque já aconteceu comigo – o último tonto que fica com o limão nas mãos sente-se mesmo um tonto. Infelizmente, é assim que se sentirão os mais de 35.000 acionistas do insolvente BES.

Embora a CMVM – a nossa peregrina CMVM de Tavares & Ferreira – pense que a teoria do “last fool” apenas se aplica a pequenos investidores, isso não é verdade. Ainda agora vimos a Goldman Sachs, o “smart investor” por excelência, ser colocado na posição de “last fool” num investimento estruturado BES/Venezuela.

Pois, os nossos banqueiros, classe reduzida à ínfima expressão – donos de um Fundo de Resolução onde pagam toda a fatura mas não mandam nada – querem que apareça um “last fool” para lhes retirar o NOVOBANCO das mãos, assumindo os riscos que eles não pretendem.

Em síntese, um investidor ou investidores que além de um balanço (qual balanço?), assumam um autocarro (com vários atrelados) de advogados litigantes que vai andar atrás do NOVOBANCO nos próximos anos senão décadas.

Embora seja prematuro opinar definitivamente sem conhecer sequer o balanço de partida do NOVOBANCO com data de 3 de Agosto é possível colocar algumas interrogações que me parecem decisivas.

Não havendo sequer contas aprovadas à data de 30 de Junho de 2014 e começando o NOVOBANCO à data de 3 de Agosto, que transações estão registadas em Julho? Como foram contabilizadas estas transações e quem é responsável por elas? Quem garante que são apropriadas?

O NOVOBANCO pode evidentemente apresentar um balanço à data de 3 de Agosto.

O BdP pode mesmo dizer que este balanço é à prova de bala.

Mas o BdP tem poder legislativo? Não, é a assembleia da República que tem este poder?

E os Tribunais estarão de acordo?

O que sucede se um Tribunal decidir que a divisão de ativos e passivos entre o banco mau e o NOVOBANCO não teve equidade e decretar a sua correção?

O que sucede se um Tribunal decidir que o balanço de partida à data de 3 de Agosto do NOVOBANCO está incorreto?

O BdP, na sua santa ingenuidade, decretou que os litígios jurídicos ficariam no banco mau mas, obviamente, é aos Tribunais que compete decidir em última instância. Resulta de tudo isto uma enorme potencial imparidade para o NOVOBANCO que qualquer comprador no seu bom juízo vai querer que o Fundo de Resolução assuma.

Por outras palavras, a meu ver, uma venda rápida do NOVOBANCO vai exigir que o Fundo de Resolução assuma um conjunto de garantias e direitos de regresso ao comprador que o proteja de um conjunto de imponderáveis sobre o NOVOBANCO.

Imponderáveis esses, que ninguém vai conhecer, porventura, durante anos.

Poderá fazer-se, assim, como solicitado pelos banqueiros, uma venda rápida do NOVOBANCO. Mas o Fundo de Resolução ficará com uma responsabilidade ilimitada sobre os direitos de regresso, assumindo os riscos que os banqueiros tanto queriam evitar.

Nos livros de Finanças já conhecíamos um “last fool” vítima de engano (por insider trading) e já conhecíamos um “last fool” que é mesmo tonto.

No caso do NOVOBANCO temos um novo capítulo – o “ last fool” à força.

  1. Brilhante!

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