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Vítor Bento e o medo cénico

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Vítor Bento e a sua equipa demitiram-se do NOVOBANCO como seria inevitável quando o fluxo de comunicação ficou completamente controlado pelos seus inimigos.

Em dois meses como Presidente do NOVOBANCO Vítor Bento deu apenas uma desastrosa e curta entrevista na SIC. Basicamente disse que o país tinha que estar grato por ele ter aceitado aquele papel – logo ele que estava feliz onde estava com tempo e dinheiro para pensar e escrever, e portanto que se aceitasse o que queria fazer.

Fora isto, Vítor Bento governou por comunicado, emitindo comunicado atrás de comunicado sempre que havia algo a dizer. A situação mais expressiva ocorreu na divulgação dos trágicos resultados do então BES no dia 30 de Julho, onde ninguém compreendeu que não desse a cara.

A dificuldade de Vítor Bento em mostrar a cara fez-me lembrar o medo cénico que muitos artistas, músicos e desportistas têm quando mostram os seus talentos. O fenómeno foi bem estudado por Renny Yagosesky no seu “O poder da oratória” definindo-o como um estado inibitório que reduz a efetividade da comunicação dos potenciais afectados.

A expressão medo cénico foi, na verdade, inventada por Gabriel Garcia Márquez que sentia um tremendo pânico sempre que tinha que falar em público. Márquez classificou esta fobia como “miedo escenico” mas os estados de angústia, medo e pânico são tão antigos como a humanidade.

O estado de angústia e pânico ficou para a eternidade no óleo de 1883 de Edvard Munch “O Grito”, que exemplifica o drama, angustia e isolamento da natureza humana. Munch explicou que foi isso mesmo o que ele próprio sentiu ao atravessar no fim de dia uma ponte isolada perto da sua casa. Talvez isto explique o valor de $ 119,9 milhões que esta obra icónica obteve num recente leilão da SOTHEBYS.

Se fosse assim, Vítor Bento – por quem tenho uma especial estima pessoal e profissional – estaria bem acompanhado. Mas sendo ou não sendo, o déficit comunicacional, esse, é inegável.

Este déficit comunicacional deixa-o, injustamente, a meu ver, mal na fotografia e com assassínio de carácter: não percebe nada de Banca, não atendeu ao interesse nacional mas apenas ao seu próprio, em resumo foi um erro de casting.

Como não falou na altura própria explicitando de forma clara ao que vinha e em que condições, foi sendo encurralado pelos seus inimigos até ser deixado cair por quem o convidou, o Governador do BdP, Carlos Costa.

Na verdade, Vítor Bento foi esmagado por uma coligação demasiado poderosa. O Governo interessado em afastar do espectro eleitoral um escolho complicadíssimo, os Bancos apostados em arrasar um concorrente importante sob o manto diáfano da limitação de perdas e Bruxelas cumprindo o mecanismo de resolução.

Perante esta coligação poderosíssima – veja-se o que comentador atrás de comentador disse na TV – Vítor Bento tinha apenas o seu trato com Carlos Costa na noite da Resolução. Não queria ser Presidente de uma comissão liquidatária e o Governador anuiu e até alterou a Lei nesse sentido.

Bento prosseguiu mas a “coligação para a venda célere” nunca deu tréguas e o Governador – único apoio real de Bento – acabou por ceder em nome do realismo político

Deveria Vítor Bento, mesmo assim, manter-se na Presidência?

Admito que sim, mas isso exigiria uma capacidade comunicacional muito forte e incisiva, nas antípodas do medo cénico. Teria Bento, além disso, de tomar medidas (por exemplo sobre o papel comercial GES) que, estou certo, violentariam a sua consciência e tal pareceu ser excessivo preço a pagar. Só o tempo dirá se fez bem. Mas a horda dos cobardes que gostam de bater em quem caiu fez-se ouvir imediatamente.

O debate estratégico de Bento e da Banca quanto à “venda célere” é pena não seja feita às claras porque o que está em jogo é muito importante para o futuro dos portugueses. Os que pagarão, afinal, a fatura de uma forma ou de outra – impostos ou comissões bancárias.

Para Bento o quadro concorrencial do mapa bancário deveria ficar como está sendo que, com tempo, a sua Administração devolveria ao mercado uma instituição pujante – entretanto desenvolvida por conta e risco dos seus concorrentes (os outros bancos).

A Banca, obviamente, não gostou da ideia de financiar o desenvolvimento a partir das cinzas de um novo concorrente pujante. Faz muito mais sentido para a Banca – havendo que pagar algo – apostar na consolidação e no corte de capacidade do sistema financeiro.

O sistema financeiro português tem um claro excesso de capacidade e se os bancos por artes mágicas conseguissem retirar 20% de capacidade ao sistema, a sua contribuição para o Fundo de Resolução até poderia ser um bom investimento.

Evidentemente não há Bela sem Senão. Um cenário de racionalização levará a uma forte redução do número de balcões bem como de trabalhadores. Facilmente poderíamos estar a falar de uns 400 balcões e uns 3000 trabalhadores bancários. Obviamente, o cenário pode ser mitigado com muito paliativo mas o “end game” parece-me claro.

Um problemão político-eleitoral.

Será que o Governo pensou nisto quando apostou todas as fichas na saída de Bento?

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