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BPI e as ajudas de Estado

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O BPI posiciona-se na “pole position” para o que se afigura ser um plano de “asset stripping” do NOVOBANCO. Feito com punhos de renda e linguagem gongórica mas o equivalente à partilha dos bens pilhados numa qualquer guerra medieval.

Os bancos pagantes para o Fundo de Resolução quererão o seu lugar à mesa das partilhas. A sua posição de “break-even” estará nas sinergias que obtenham de uma qualquer fatia do NOVOBANCO que consigam negociar, assegurando-se que esse valor de sinergia seja pelo menos igual ao da sua contribuição para o Fundo de Resolução.

Umas contas globais “quick and dirty” mostram que o sistema financeiro português absorverá as percas com o NOVOBANCO com alguma facilidade. Supondo que o NOVOBANCO se vende por uns € 3 mil milhões, isto significará uma perda de € 2 mil milhões para o sistema, dos quais € 1 mil milhões já foram contribuídos e os restantes poderão ser amortizados em 10 anos. Em resumo, a CGD e o BCP, por exemplo, teriam um impacto médio anual na sua conta de exploração de uns € 25 a 30 milhões antes de impostos. Isto será largamente compensado pelo efeito de subida de margens originado no corte de capacidade do sistema ligado à fusão do BES. Como já expliquei a Resolução do BES foi uma bênção dos céus para o sistema financeiro português.

Diz o Povo que “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem Arte” e portanto caberá ao BPI dar as cartas na distribuição de ativos reservando para si, espero eu, a parte de leão.

O “inner circle” de José Maria Ricciardi quando se referia a Fernando Ulrich nas conversas da Alta Direção do GES expressava, com a sua mania de anglicismos e alguma maldade, as suas iniciais – FUL. Em Inglês FUL soa o mesmo que “fool” e era assim mesmo que Ulrich era apreciado nessas Altas esferas do GES – “o tonto do Ulrich”. Só que será Ulrich quem se rirá por último e Ricardo Espírito Santo Silva vai mesmo revirar – se no túmulo ao ver o seu BES dizimado.

A fusão do BPI com o NOVOBANCO coloca uma exigência de escrutínio à própria estratégia de crescimento do BPI que largamente tem escapado aos Media.

Será o BPI o melhor dono para os ativos do NOVOBANCO?

Ulrich que, creio justamente, não se considera um banqueiro, tem uma perfeita compreensão dos mecanismos dos Media e isso tem sido decisivo na preservação da “boa imprensa” sobre o BPI. Mas o teste de Litmus vai chegar em breve.

O BPI está cotado em Bolsa desde 1986, isto é há 28 anos.

A taxa anual de crescimento nominal das ações do BPI nestes 28 anos foi de 0,9% ao ano. A taxa média de inflação ao ano nestes 26 anos foi de cerca de 4,5% – o que significa que em termos reais um investidor do BPI pagou cerca de 3,5% ao ano pela enorme honra de ser seu investidor. Ou seja, um investidor inicial do BPI perdeu mais de 90% do seu capital em termos acumulados.

Num horizonte mais curto, desde o ano 2000 por exemplo, o desempenho em Bolsa do BPI é ainda mais desastroso.

Nos 14 anos desde 2000 as ações do BPI tiveram um desempenho médio anual nominal negativo de 4,5%, ou seja cerca de – 7% ao ano em termos reais. Um pensionista que investisse no BPI morreria de fome.

Evidentemente que o preço da ação não é o único indicador de desempenho de uma sociedade sobretudo no curto prazo. Mas estamos a falar de 15 ou 30 anos e neste horizonte temporal não há outra medida de valor.

É este extraordinário “track Record” de destruição de valor que permite a Artur Santos Silva e Fernando Ulrich falar alto com quem quer que seja?

Em quantos países do Mundo uma equipa de gestão com esta capacidade de criação de valor estaria ainda em funções?

O ponto é que a gestão do BPI não reponde aos acionistas mas a UM acionista – LaCaixa. De resto um excelente acionista mas que está no BPI numa situação de insuportável privilégio. E este privilégio, naturalmente, contra garante a gestão que o tornou possível.

LaCaixa comprou a posição do ITAU – ultrapassando o limiar dos 33% para o lançamento de uma OPA geral – sem que a CMVM tenha considerado necessário que o fizesse. Aliás, ainda hoje, LaCaixa tem uma posição de 46% numa empresa cotada em Bolsa sem nunca ter feito OPA. Uma posição de Carlos Tavares que qualquer observador independente internacional considerará inconcebível.

Privilégio este que, a meu ver, não vem daqui. Aquando do lançamento da OPA do BCP sobre o BPI houve uma clara concertação dos acionistas do BPI, nomeadamente LaCaixa e ITAU no sentido de frustrarem a oferta de € 7,2 por ação oferecidos pelo BCP. A CMVM – numa decisão desastrosa para os pequenos investidores – considerou que não havia concertação entre aqueles acionistas e, assim, não determinou que estes opositores tivessem que lançar uma OPA alternativa.

Como resultado do insucesso da OPA do BCP e da brutal queda das ações do BPI que se seguiu, registou-se uma destruição de valor acionista no BPI de cerca de € 6 mil milhões. Ironia das ironias um montante não muito diferente da destruição de valor da ESPIRITO SANTO INTERNACIONAL – por outras razões, bem entendido.

Mas a questão é ainda muito mais complexa porque não só a gestão do BPI não tem condições de excelência na gestão de uma rede de retalho como o próprio BPI está insolvente num rigoroso teste de stress.

O atual BPI nasceu de um excelente banco de investimento, iniciado em 1981 por Artur Santos Silva como SPI, que comprou, em 1991, o Banco Fonsecas & Burnay e depois, em 1996, numa privatização controversa, o Banco de Fomento e Exterior – o qual tinha integrado o Banco Borges & irmão. A fusão dos quatro (digo quatro porque a fusão do BFE com o BBI nunca aconteceu de fato) bancos ocorreu em Julho de 1998, dando origem à maior rede bancária do país com a marca BPI.

A compra do BFE foi contestada pelo Banco Finantia e a operação de privatização e consequente compra do BFE pelo BPI foi declarada nula pelo Supremo Tribunal Administrativo em 2001. Não obstante, nada aconteceu, e o BPI tem no seu Balanço ativos e passivos de uma operação tão importante que, afinal, não aconteceu.

Como não sou jurista não sei como explicar isto mas duvido que alguém no seu bom juízo entenda que o BPI fica bem na fotografia.

O BPI teve enorme dificuldade em fundir os quatro bancos.

Desde logo, o BPI foi cobaia no sistema informático que o seu sócio ITAU lhe impingiu, através da ITAUTEC. Custos gigantescos e problemas sérios de implementação com o sistema informático do BPI em permanente estado de CITIUS.

Depois a questão de fundo. A cultura bancária do BPI era a da banca de investimento (aliás excelente) mas faltava uma forte liderança que entendesse a banca de retalho. O ponto baixo dessa incompreensão foi a pintura em preto das agências do BPI parecendo agências funerárias. Quem se não lembra deste desastre?

As dificuldades de fusão dos quatro bancos traduziram-se numa paupérrima eficiência e, ainda hoje, passados 16 anos sobre essa fusão, o rácio de eficiência (cost/income) é muito mau por comparação nacional ou internacional.

Comparando, então, o rácio de eficiência consolidado do Banco Santander é de 46.1% e o do falecido BES era de 49.7% em 2013. O BPI, por sua vez, apresentou no dia 23 de Julho na Fundação de Serralves um rácio de eficiência de 68,3% para o primeiro semestre de 2014. Um banco de retalho não tem viabilidade com este rácio de eficiência.

Mas se os resultados em matéria de eficiência são péssimos em termos de estrutura de crédito são piores. No BPI, 64% do crédito é crédito à habitação comparado com 22% no BES e 44% no BCP. A extraordinária enfâse no crédito à habitação no BPI foi um clamoroso erro de gestão estratégica.

Para além da questão geral político-filosófica do fraco papel do BPI no financiamento da economia e das empresas em Portugal, existe o sério problema do crédito à habitação ter embutido um spread de longo prazo muito baixo (cerca de 1%) para a atual estrutura de taxas de juro. Isto é, o BPI financia-se a taxas de juro superiores a 1% de spread e portanto perde dinheiro em tudo que tenha 1% de spread.

Se a carteira de crédito à habitação do BPI fosse reavaliada no atual contexto de spread teria um Valor Económico presente fortemente negativo. Num adequado teste de stress o BPI teria que fazer uma provisão para este negativo NPV da carteira de crédito à habitação. Isto revelaria que o BPI está, neste momento, economicamente insolvente.

Vai acontecer alguma coisa ao BPI em termos de teste de stress? É óbvio que não.

No seu conjunto, custos altíssimos para fracos proveitos leva a que a atividade doméstica do BPI tenha rentabilidade negativa e só os resultados de Angola permitam salvar as aparências.

É bem verdade que em termos de liquidez a posição do BPI é muito forte com um rácio de transformação de depósitos em crédito de 94%. Isto permitiu ao BPI pagar os COCo com que o Estado o ajudou a cobrir o seu déficit de capital sem recorrer aos seus acionistas.

Fez-me sorrir a declaração de Fernando Ulrich ao Expresso de 6 de setembro passado “A única razão que levou (o BPI) a ter que recorrer a capital público foi a desvalorização da dívida soberana e em particular a portuguesa”.

De fato em 2010 – digo bem 2010 – o BPI, por decisão da sua gestão, aumentou a sua exposição à divida pública portuguesa em € 1,2 mil milhões para um total de mais de € 4 mil milhões.

Este abissal erro da gestão do BPI veio a ser salvo pela injeção de € 1,5 mil milhões de dinheiros do Estado na tal forma de CoCo. Espero que ao menos algo tenha batido na consciência de Ulrich depois dele ter clamado publicamente contra os erros de gestão de outros.

Consciência essa que deveria também esclarecer o que de facto aconteceu ao crédito de € 4,7 milhões que o BPI concedeu a Fernando Ulrich para comprar ações do BPI e que misteriosamente desapareceu das notas às contas anuais do BPI, sem qualquer explicação.

A fusão do BPI com o NOVOBANCO permitiria ao BPI resolver de uma vez os graves problemas que tem e que deixei enunciados: uma rentabilidade negativa da sua operação doméstica, fruto de custos muito altos e proveitos baixos. Por isso não estranha que o BPI tenha jogado tão forte quer no plano político quer mediático por uma venda rápida do NOVOBANCO.

Esta fusão, noutra frente e como já mencionei, serve os interesses estratégicos do sector financeiro porque atuará como redutor de capacidade e criará um oligopólio sectorial que melhorará as margens, criando “rendas excessivas” de fazer inveja a qualquer EDP. Os outros bancos ficarão particularmente agradados, ainda por cima, se puderem comprar a bom preço tranches do NOVOBANCO que lhes interessem no particular.

Um valor de venda do NOVOBANCO de € 3 mil milhões coloca, por sua vez, um prémio extraordinário em quem possa gerir o crédito de € 3.5 mil milhões do NOVOBANCO sobre o BESA. Este crédito está amortizado nas contas do NOVOBANCO e bastaria o BESA ou o BNA pagarem este crédito (o que Carlos Costa disse repetidamente que aconteceria) para uma tal compra se fazer por valor zero.

Quem em Portugal tem melhores condições para gerir este crédito com Angola? Parece-me óbvio que é o BPI e por isso será muito difícil outro candidato ultrapassar esta posição estratégica. Mas isso não se fará sem preço para a atual estrutura acionista do BPI bem entendido.

Num país normal este crédito seria esclarecido previamente e todos os candidatos fariam a sua melhor proposta para a aquisição do NOVOBANCO, maximizando o valor de venda para o Fundo de Resolução. No caso vertente, ficaria estupefacto se não houvesse uma ajuda de Estado.

Penso, sinceramente, que na sequela da crise financeira de 2008 nenhum banqueiro ou Banco está em condições de dar lições de moral à sociedade. O que deixo escrito torna claro que, a meu ver, Artur Santos Silva, Fernando Ulrich e o BPI não são exceção.

Que o BPI seja o distribuidor de jogo na imensa tragédia para Portugal deste mecanismo de Resolução mostra o quão baixo se desceu.

 

  1. A DAR LIÇÕES DE MORAL ECONÓMICA FINANCEIRA A QUEM NÃO GOSTA E NÃO QUERDE APRENDER !!

  2. Carlos Conde says:

    Caro João Rendeiro
    Está em curso uma fusão entre o Banco BPI e o Banco Português de Investimento.
    Qual a sua opinião sobre esta operação?
    Parece enquadrar-se perfeitamente com a análise que efectuou neste post.
    Cumprimentos
    CC

  3. Jose de mello says:

    E caso se dê a aquisição… os clientes particulares do BES/Novo Banco vão escolher outra instituição!
    Já as PME’s vão-se ver bastante afilitas pois o BES era na praça a unica instituição que apostava em empréstimos de risco!

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