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Carlos Costa demitiu-se

2 comments

Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, fica hoje a saber que se demitiu numa carta datada a 30 de março de 2015.

Termina de fato em março do próximo ano o mandato de Carlos Costa mas o seu destino ficou traçado na trapalhona gestão do caso GES/BES. A sentença quanto a estas trapalhadas já a deu Carlos Costa – lui même – quando afastou sem dó nem piedade Pedro Duarte Neves da liderança da Supervisão Bancária do Banco de Portugal.

Ao afastar Duarte Neves admitiu a sua culposa responsabilidade mas é de meridiana clareza que a estratégia do suposto “ring fence” ao BES definida pelo BdP – e que acabou na tragédia conhecida – foi feita e executada a quatro mãos.

Enquanto Costa queria o “ring fence” do BES deu nove preciosos meses para Ricardo Salgado fazer o “ring fence” do GES. O resultado final é conhecido: perante as garantias do BdP e da CMVM investidores aplicaram os seus capitais, perdendo-os; o GES ficou insolvente e o BES em Resolução.

Tudo seria diferente se Carlos Costa se não tivesse acobardado e intervencionado o BES em setembro de 2013 quando tomou conhecimento da insolvência da ESI. Mas, reconheço, isso seria esperar demais.

De todas as formas, se existe responsabilidade não é obviamente só de Duarte Neves. Carlos Costa é ainda mais responsável pois foi o Governador quem liderou todas as diligências e articulações no caso GES/BES.

De fato de nada servirá o argumento de que o BdP não tinha meios legais para ser mais intrusivo por tal legislação só agora se ter publicado. O BdP não tinha meios legais e obrigou num fim de semana a substituição de Ricardo Salgado por Vítor Bento. O Conselho de Administração do BES assim que o BdP quis reuniu e aprovou, por unanimidade, o que lhe foi determinado.

Poderia citar inúmeros casos onde bastaria um telefonema do regulador para qualquer Presidente de banco cumprir. Que compre quem quiser a falácia da falta de poderes do BdP. Simplesmente não é verdade que tenham faltado poderes ao BdP.

A desastrada e desastrosa gestão estratégica de Carlos Costa no GES/BES ficará gritantemente patente na Comissão Parlamentar de Inquérito que se iniciará em Novembro. Em resumo, Ricardo Salgado e os seus pares criaram um problemão e Carlos Costa em vez de o conter, agravou-o.

Este é o fundo da questão. Os reguladores – se servem para alguma coisa – é para precaver ou, no mínimo, conter problemas limitando os danos. Nunca para os agravar. Será fácil provar que a estratégia seguida por Carlos Costa agravou seriamente os danos no BES e no ESFG, em particular, com pesadas perdas para todos os “stakeholders” envolvidos: clientes e acionistas do BES, obrigacionistas subordinados do BES; acionistas e obrigacionistas do ESFG.

O dano à imagem internacional de Portugal, enquanto país com regulação confiável, durará anos e anos. A súmula deste dano foi salientada num título do EL PAIS – “Carlos Costa se acobardou”. Quando Carlos Costa se reunir com um presidente de um banco espanhol para conversar sobre o NOVOBANCO a “caixa” do ELPAIS estará bem presente. É uma perda intangível impossível de quantificar.

Mas Carlos Costa demitiu-se por uma questão muito mais grave. A sua incompetência na reestruturação do sistema financeiro no quadro do resgate internacional de Portugal.

Enquanto na Irlanda e na própria Grécia se assistiu a uma profunda cirurgia da estrutura bancária que passou por fusões e aquisições em larga escala que sanearam, a sério, as contas das instituições financeiras. Em Portugal, por incapacidade do BdP e apesar de haver dinheiro da TROIKA disponível, tudo continuou num marasmo. O saneamento das contas dos bancos foi sendo atirado para debaixo do tapete e uns “bodes expiatórios” foram lançados para a fogueira como cortina de fumo para utilização do carneirismo mediático.

Como resultado, enquanto no final dos programas de ajuda internacional a Irlanda e a Grécia têm bancos saneados que possibilitam o financiamento das empresas, Portugal está no momento mais difícil da crise bancária.

Enquanto na Irlanda e na Grécia os bancos estão em condições de financiar as suas PME, em Portugal paralisamos e vamos destruir o que era unanimemente considerado o “rolls royce” do crédito às PME portuguesas – o Banco Espírito Santo.

Pelo contrário sai emergente como vencedor o BPI, o banco que tem 64% do seu crédito na forma de crédito à habitação e está economicamente insolvente. Mais ainda, a estrutura bancária portuguesa está recheada de problemas escondidos como, por exemplo, no Montepio.

Na sequência da crise financeira de 2008 o BdP de Carlos Costa foi conivente com os bancos portugueses em esconder problemas. Atirou-se “poeira para os olhos” para animação da plateia apontando o dedo e colocando no pelourinho alguém incómodo.

Mas esqueceu-se o essencial. Em Finanças o tempo é o pior aliado pois a lógica indomável do juro composto faz com que um problema hoje apareça amanhã multiplicado.

Foi este Adamastor que fez cair Carlos Costa deixando um rasto de destruição.

  1. Pedro Lisboa says:

    Excelente artigo.
    O Montepio com 2.000 milhões de € de crédito concedido sem qualquer tipo de garantias,será o próximo banco em dificuldades.

  2. Caro João Rendeiro,

    Quero aproveitar este post, para lhe dar os parabéns pelo seu magnífico blog. Admiro o seu conhecimento da área financeira e a inteligência e perspicácia das suas análises.

    Já li o seu post sobre o pagamento do papel comercial do GES, mas existe uma questão acerca desse tema que me deixa perplexo, pois não vejo ninguém comentar ou no caso específico investigar.

    Houve obrigações da Es Tourism vendidas este ano pelos gestores comerciais do BES ( actualmente gestores no novo banco), como empresa do grupo GES, mas afinal a empresa foi vendida conforme relatório do BES de 30 de Julho, no final de 2013. Ninguém sabia no banco e todos ficaram surpreendidos quando leram o relatório. Pelo que pude investigar é mais uma empresa do grupo que tem naturalmente sede no Luxemburgo e que no passado ( presente?) tinha uma participação qualificada no grupo brasileiro BHG.

    Quem será responsável pelo reembolso da ES TOURISM? Os novos donos? Se sim quem são? A informação da venda devia ser comunicada institucionalmente a quem? Neste caso o BDP e a CMVM tem responsabilidade? Estamos perante um caso de polícia?

    Com um abraço,

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