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CHARLIE

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Marcharam domingo em Paris mais de um milhão e meio de pessoas a favor da liberdade de expressão e repudiando, em simultâneo, os atentados terroristas que militantes da AL-QAEDA/ISIS levaram a cabo em França particularmente sobre os jornalistas do CHARLIE HEBDO.

Estes atentados terroristas chocam a consciência de todos porque a Liberdade – de dizer e fazer asneiras incluídas -tem um lugar central na nossa cultura e civilização. O estado de choque é tão grande como a incompreensão do fenómeno e, infelizmente, poucos comentários têm ajudado a entender o que, a meu ver, está verdadeiramente em jogo.

Comentários como os de Filipe Alves no Económico colocando a tónica – na improvável sequência aliás de George W. Bush – no “islamo-fascismo” ou de Villaverde Cabral no Observador sobre a “guerra das civilizações” revelam-se profundamente redutoras. Felizmente, Paulo e Almeida Sande, também no Observador, tem uma perspectiva muito mais rigorosa.

Os comentadores falham, em geral, num aspecto básico, a saber o de não considerarem o fenómeno religioso no quadro da luta do poder político. Qualquer estudante do Marxismo explicaria que a Religião é um “aparelho ideológico do Estado”.

A utilização da Religião – de todas as Religiões – no quadro da luta política é algo inerente à História da Humanidade. Agora não é distinto como veremos e isto é cheio de consequências para a análise e as medidas a tomar. O Islão, e as suas várias leituras, como bem mostra Sande, enquadram-se numa luta política que largamente ultrapassa o quadro religioso.

O terrorismo Jihadista, com CHARLIE, pretendeu, a meu ver, duas coisas – retaliar a França pela sua presença na coligação contra o ISIS na Síria/Iraque e provocar os franceses e a Europa para que retaliassem indiscriminadamente contra os muçulmanos em geral.

É uma manobra inteligente do seu ponto de vista e que apela a respostas extremadas. O desenvolvimento de movimentos como PEGIDA que se manifesta em Dresden todas as segundas feiras cada vez com mais milhares são exemplos dos perigos de respostas descabeladas.

Porque o radicalismo muçulmano tem tido êxito ao colocar a opinião pública ocidental contra os muçulmanos em geral. No Ocidente predomina, hoje, a opinião de que o Islão não é compatível com os valores ocidentais. Isso mesmo, pensam por exemplo, 65% dos espanhóis, 60% dos suíços, 55% dos alemães e dos franceses, 45% dos ingleses e, mesmo, 40% dos americanos.

Mais, a sensibilidade negativa dos ocidentais perante os cidadãos muçulmanos faz com que o aparente “perigo” seja muito maior do que a realidade. Questionados sobre a dimensão da população islâmica nos vários países os europeus multiplicaram a realidade, no mínimo, por quatro vezes. Em Espanha a população islâmica representa 2% mas os espanhóis pensam que são 16%. Em França são menos de 8% mas os franceses pensam que são 31%. E na Inglaterra e Alemanha representam cerca de 5% mas pensa-se que são uns 20%, ou seja, quatro vezes mais.

Evidentemente o efeito mediático do radicalismo muçulmano faz aumentar drasticamente o “share of mind” e explica que as pessoas tomem mitos por realidades. Mas quem até hoje se deu ao trabalho de explicar coisas tão elementares?

Compreender a complexidade do que está em jogo passa por entender os jogos de força no Medio Oriente e, nomeadamente, o papel central da Arábia Saudita e das suas dinâmicas de poder.

Mas enquanto no Medio Oriente predominam os Xiitas do Irão e do Iraque, no mundo muçulmano os sunitas representarão uns 80 a 90% fruto da sua presença na Indonésia, no Paquistão e Afeganistão, na China, Ásia do Sul e África. A presença global dos Sunitas explica em larga medida os seus globais pontos e apoio.

O atual poder da monarquia Al Saud na Arábia Saudita estabeleceu-se com base numa aliança da Dinastia Saud com o poder religioso derivado do teólogo muçulmano Muhammad ibn Abd al-Wahhad (1703-1792). Os conceitos do Wahhbismo regem as vidas de 4 milhões de pessoas na Arábia Saudita (cerca de 22% da população) e são ainda mais importantes no Qatar e nos Emirados (cerca de 50%).O Wahhbismo é, assim, um fenómeno populacionalmente minoritário mesmo na Arábia Saudita e exprime-se de forma muitíssimo mais “soft” no Qatar e nos Emirados, já para não falar no Dubai.

Em termos populacionais no Medio Oriente a esmagadora maioria dos muçulmanos são Xiitas, eles mesmo, considerados “infiéis” pelos Sunitas Salafitas Wahhdistas. Por sua vez os próprios Xiitas – tal como os Sunitas de resto – estão profundamente divididos por fações tribais, o que leva a que o jogo político nestas regiões se faça através de um interminável jogo de recomposição de alianças e traições intra e inter pares.

Considerar, assim, que todo o Islão é Salafita Wahhdista ou mesmo que todos os Salafitas Wahhdistas são adeptos da Jihad é um um grande erro de análise que pode custar muito caro ao Ocidente. É preciso “fiar muito mais fino” e evitar os erros de análise das simplistas generalizações.

O Wahhdismo está centrado no Salafismo Sunita que considera todas as outras crenças – nomeadamente os muçulmanos Xiitas – TAKFIR, ou seja infiéis. Aos TAKFIR devem ser dadas duas opções: a conversão ou a morte. É um conceito particularmente totalitário do islão que não dá espaço à dúvidas e dissensões muito adequado a quem quer usar a religião como instrumento de poder coercivo. Tem um código de fácil leitura para humildes e ignorantes mas os seus líderes são tudo menos ignorantes. Não admira, por isso, que o Wahhdismo se tenha tornado dominante no mundo Sunita.

Na Arábia Saudita a Lei Sharia é fiscalizada nas ruas pela polícia religiosa e o código de conduta é particularmente estrito, sobretudo nos Direitos e Liberdades das mulheres, tal como entendidas no mundo ocidental. O poder religioso é exercido em completa ligação com o poder do Estado dominando completamente o aparelho educativo.

No quadro internacional, a enorme capacidade financeira da Arábia Saudita, do Qatar e dos Emirados proporcionam amplos recursos para a solidariedade internacional apoiando mesquitas Sunitas um pouco por todo o Mundo.

Mas no quadro da política internacional dos últimos 50 anos, a Monarquia Al Saud (tal como as casas reais do Qatar e dos Emirados) fizeram um acordo de protetorado com os EUA para proteger os seus campos de petróleo das ameaças Xiitas vizinhas do Irão e do Iraque. Os vastos petrodolares seriam reciclados pela compra de armamento americano e durante muitos anos a gigantesca riqueza destes países esteve à distância de um telefonema do Secretário de Tesouro americano.

Por coincidência presenciei as diligências que levaram ao apoio do ABU-DHABI ao CITYBANK em novembro de 2008 e como isso foi instrumental na estabilização do sistema financeiro americano nessa altura. Mas esse foi apenas um dos muitos episódios que se poderiam enunciar.

A aliança americana com a Monarquia Al Saud foi decisiva para a derrota da Rússia no Afeganistão, uma guerra de dez anos iniciada com a invasão soviética em 24 de dezembro de 1979. De fato, os Sunitas e, em particular os Wahhdistas da Arábia Saudita como Osama bin Laden, tiveram um papel central no apoio logístico, financeiro e pessoal guerreiro aos Mujahideen afegãos.

Não há qualquer dúvida que o Presidente Carter e o seu Secretário Brzezinski agiram conscientemente no sentido de armar e treinar nos anos 80 uma ameaça potencial – um Wahhdismo radical – porque isso era um preço pequeno a pagar (pensaram), perante o enorme ganho do colapso soviético e a libertação da europa do leste.

Foi com base no apoio americano que os Wahhdistas afegãos, apoiados pela Arábia Saudita e outros Sunitas, conquistaram o poder e estabeleceram o poder Talibã no Afeganistão. Poder esse que se sentiu suficientemente forte para ir atacar os EUA nas Torres Gémeas exigindo o fim da aliança dos americanos com a Monarquia Al-Saud.

Os EUA atacaram e derrotaram o Afeganistão mas os Wahhdistas refugiaram-se em outras bases Sunitas como o Paquistão e o Iémen transformando-os em centros de treino e apoio logístico.

O refluxo da derrota Talibã criou, assim, um poder Wahhdista potencial alternativo às Monarquias Sunitas no Medio Oriente, nomeadamente a Monarquia Al Saud, sendo hoje, um sério risco para a sua própria estabilidade e poder.

Mas todos estes terrenos são muito minados com profundas contradições avanços e recuos, alianças e traições. Veja-se a política sectária pró-iraniana de Nouri Al-Maliki que levou à alienação do apoio americano e das Monarquias Sunitas ao governo iraquiano e que esteve na base da queda de Mossul e ascenso do ISIS.

A substituição de Al-Maliki por Haidar Al-Abadi, evitando uma provável queda de Bagdad para o ISIS, representa uma alteração radical da estratégia Xiita para o Iraque tendo o Irão percebido que uma “entente cordialle” com as Monarquias Sunitas era de seu fundamental interesse.

Daí a improvável aliança que se desenvolveu recentemente para combater o ISIS na Síria e no Iraque. No terreno combatem os Xiitas do Iraque e do Irão e os Curdos bem como tribos Sunitas iraquianas que não apreciam o poder Wahhdista. Na Síria, o exército regular é armado e treinado pelos Russos. E todos, apoiados pelas forças aéreas dos EUA, Arábia Saudita, Emirados e Jordânia, atacam o ISIS na Síria e no Iraque.

Restam poucas dúvidas de que esta tão improvável coligação está a ganhar claramente terreno no Iraque e no Curdistão Sírio. Erbil está bem defendida e Kobane em vias de ser recuperada, estimo que nos próximos seis meses Mossul possa sair do controlo do ISIS.

Estou, portanto, longe de estar pessimista quanto à capacidade de derrotar o ISIS no seu terreno e a Al-Qaeda na frente internacional mas temos que, no quadro europeu, fazer muito mais para não sermos derrotados em casa.

Como parece evidente do quadro acima descrito, considerações do tipo “preto ou branco”, “muçulmano ou não – muçulmano”, “islamo-fascismo” e “guerra de civilizações “ não fazem qualquer sentido. Em vez de alienar uma população de 1,5 mil milhões de muçulmanos no seu conjunto dando-a de bandeja ao radicalismo, o que faz sentido é trabalhar para a paz com a esmagadora maioria dos muçulmanos que pretende apenas isso também. É esse o sentido da coligação em curso para combater o ISIS.

O Jidhadismo radical é claramente minoritário no mundo muçulmano. Mas existem muitos poderes ou ambições de poderes a quem estes grupelhos podem ser muito úteis – e por isso são financiados.

Cabe ao ocidente entender melhor estas dinâmicas para desenhar respostas que, afinal, não beneficiem os interesses estratégicos, políticos e económicos por detrás do terror.

Parece-me claro que as nossas sociedades ocidentais têm que fazer alguns sacrifícios para defender os valores centrais da nossa civilização, nomeadamente as Liberdades. Esses sacrifícios, nomeadamente um maior controlo das comunicações, são um baixo preço a pagar para o que está em jogo.

O Wahhdismo radical não passará.

  1. Caro dr João Rendeiro, creio que percebeu mal a minha crónica intitulada “islamo-fascismo”. Defendo precisamente o mesmo que escreve neste post: o islão radical (sunita ou xiita, tanto faz) é uma ideologia aparentada com o fascismo. É política, não teologia. No entanto, é também um problema religioso. E a única forma de o resolver em tempo útil (já que não podemos esperar 300 anos, até que os países árabes se secularizem) é fazer com que os líderes religiosos muçulmanos separem o trigo do jóio, isto é, digam claramente que os que matam em nome do Califado são hereges. Não são muçulmanos. Isto retiraria legitimidade moral e religiosa aos radicais, dificultando o seu financiamento por mecenas muçulmanos “piedosos” e minaria a sua capacidade de recrutamento. Neste momento, há vários líderes sunitas que defendem esta solução, mas outros opõem-se. Cumprimentos

  2. P.S.: Quando acima falo em “islão radical” refiro-me, no contexto do sunismo, aos wahabitas que defendem a instauração do califado e a aplicação da chamada lei islâmica. Salvo erro, os wahabitas são apenas alguns milhões. E os radicais são alguns milhares.

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