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Quem compra o NOVOBANCO?

2 comments

A FOSUN por €5,2 mil milhões.

Na fábula do “mais capaz”, o “mais desesperado” e o “mais rico”, a FOSUN sairá a ganhar.

O Banco de Portugal vai abrir em breve o “data room” sobre o NOVOBANCO imediatamente após a divulgação das suas contas de 2014. Mas o essencial do NOVOBANCO já é conhecido: a situação líquida é superior aos €4,9 mil milhões e o rácio de solvabilidade é superior aos 10% – um dos melhores da banca portuguesa.

Vimos como o Banco de Portugal decidiu correr todos os riscos de litigância – empurrando-os para o longo prazo – para proteger o Balanço de venda do NOVOBANCO. Mesmo o caso mais escandaloso dos clientes de papel comercial do GES foi empurrado para a litigância para que a “noiva” fosse mais bela para o altar.

Evidentemente, um ponto central na negociação do preço será a assunção, ou não, dos custos de litigância. Tal como no BESI, os compradores não estarão interessados em assumir uma responsabilidade futura que não sabem quantificar e portanto vão insistir numa compra “limpa” de responsabilidades de litigância.

O BdP dirá que estas responsabilidades de litigância ficarão no BES mas como este não tem como pagar e os litigantes acionaram também diretamente o BdP – isto é, o Estado Português – o peso da litigância vai acabar por cair nos contribuintes. Um pesado fardo como analisarei noutro artigo.

O caso seria distinto se o comprador assumisse a litigância. Mas isso implicaria um preço de venda muito inferior e, aí sim, um forte rombo no Fundo de Resolução. Os pesados custos de litigância serão atirados para os ritmos longínquos das decisões dos Tribunais portugueses e internacionais. Quem vier atrás que feche a porta pois quem cá está já terá zarpado.

Os louros da bela venda do NOVOBANCO serão assumidos agora. E o futuro logo se verá.

O BdP faz, assim, o que muito acusa os bancos de fazer. Falsificação de contas. Mas pelos vistos todos acham bem por ser o regulador a fazer.

Estando claro que o comprador não vai assumir nenhum risco de litigância porque penso que o preço será, nesse caso, de €5,2 mil milhões?

Os bancos espanhóis estão a cotar em Bolsa com um desconto de 5 a 10% sobre a sua situação líquida. Por sua vez o BPI e o BCP estão a cotar entre 30 e 40% de desconto sobre a sua situação líquida. Isto sugere uma banda que daria uns €3,5 a 4,5 mil milhões para o NOVOBANCO. Por que é acho que este desconto se não aplicará?

Por uma razão muito simples. O balanço do NOVOBANCO é o mais “limpo” de todos, todas as imparidades – nomeadamente as de crédito – estão nas contas. Além disso, o NOVOBANCO é o que tem menor peso no crédito à habitação da banca portuguesa – um pesado valor presente negativo como já expliquei noutros artigos e que pesa especialmente no BPI. É por isso que o desconto BCP/BPI se não deve aplicar ao NOVOBANCO.

Por outro lado, o NOVOBANCO é, a larga distância, a melhor máquina comercial da banca portuguesa e uma plataforma ideal para a entrada na banca europeia. Veja-se como, em muito pouco tempo, a equipa de Eduardo Stock da Cunha recuperou os depósitos para se concluir pela qualidade da rede comercial. Deste modo, o NOVOBANCO merece um prémio – não um desconto – sobre os outros bancos.

Por outro lado devem considerar-se o valor das sinergias. Isto é os benefícios de integração de redes, nomeadamente poupança de custos, capitalizados em 5 anos. Nos meus cálculos estas sinergias não são inferiores a €500 milhões.

Parece-me, assim, que o leilão competitivo da mais de dezena de interessados no NOVOBANCO tenderá a chegar a um preço que resulta num pequeno prémio sobre o valor da sua situação líquida.

Porque tendo para a FOSUN?

No quadro dos apregoados 15 candidatos distingo os que têm sinergias e os que não têm.

Candidatos que têm uma operação bancária já instalada em Portugal (BPI; SANTANDER; BANCOPOPULAR; BBVA) gozam de apreciável vantagem pelas sinergias que podem obter não só na rede de retalho em Portugal mas com a integração do seu back-office em Espanha. Mas se as redes de retalho podem ser otimizadas, no caso da FOSUN existe o Balanço da FIDELIDADE que nas suas mais de €12 mil milhões de reservas técnicas tem espaço de otimização.

Além disso, o custo de capital da FOSUN é bem distinto de um banco cotado europeu e a FOSUN ainda pode jogar uma decisiva cartada que seria a integração de um banco chinês no seu consórcio.

Estimo que as sinergias de uma rede bancária neste contexto ibérico possam valer, como disse, uns €500 milhões. E esta vantagem só, em meu entender, poderá ser contrabalançada pela utilização do Balanço da FIDELIDADE pela FOSUN. Todos os restantes candidatos partem com uma pesada desvantagem.

Todos os restantes candidatos, incluindo os dois Bancos chineses, teriam que estar bem acima das métricas dos “residentes” – digamos assim – para ficar no jogo até final. Isto afasta imediatamente dos lugares cimeiros tudo o que seja “private equity” por ter métricas mais exigentes mas também todos os bancos sem operação ibérica.

Nos bancos espanhóis descarto o SABADEL pela sua ligação ao BCP. Embora tendo todas as condições de êxito – incluindo estreitas relações históricas com o BES, não vejo o BBVA com a vontade suficiente para apostar neste leilão. Curiosamente, o Banco Popular, tendo menos recursos, está – por peculiares razões – extraordinariamente motivado e pode surpreender.

Mas tudo visto e somado penso que, a final, se jogará a parábola do “mais capaz”, do “mais desesperado” e do “mais rico”.

O “mais capaz” dos bancos com sinergias é o Banco Santander. É inquestionavelmente um dos bancos mais bem geridos do Mundo, com uma fortíssima experiência de gestão de aquisições – como de resto a absorção do TOTTA mostrou – e com um Balanço mais do que suficiente para absorver o NOVOBANCO sem pestanejar.

É certo que no recente aumento de capital Ana Patrícia declarou que o crescimento do Santander se daria por via orgânica. Mas a verdade é que o NOVOBANCO com um rácio de solvabilidade superior a 10, não deterioraria o do Santander e seria uma aquisição seguramente bem-vinda pelos seus acionistas.

A conjugação das máquinas comerciais NOVOBANCO/TOTTA com a capacidade de gestão do Santander geraria um banco extremamente competitivo que lideraria a banca em Portugal a larga distância. As sinergias de custos obteníveis pela gestão do Santander são, a meu ver, as mais elevadas de todos os concorrentes ibéricos e isso permitiria, em abstrato, a oferta de maior valor.

Mas, paroxal e simultaneamente, será o concorrente mais rigoroso na definição do seus limites de negociação. O “mais capaz” vai ser um concorrente temível mas previsível. Não vai fazer a oferta mais alta, o seu limite superior estará nos €4,9 mil milhões.

O segundo componente da parábola é o “mais desesperado”. Estou a falar evidentemente do BPI.

Quem tenha lido os meus artigos sobre o BPI entende imediatamente porque considero o BPI em estado desesperado. Na verdade o BPI ou compra o NOVOBANCO ou tem, ele próprio, que ser vendido.

O BPI tem, em abstrato, condições similares de obtenção de sinergias que o Santander mas falta-lhe o know-how histórico de integração de aquisições com êxito, ou seja uma adequada equipa de gestão. A dificílima situação estratégica em que o BPI se encontra vai – não obstante – impelir uma fuga para a frente.

O aumento de capital necessário para a compra do NOVOBANCO pelo BPI não é significativo e com esta aquisição poderiam resolver-se vários problemas de uma penada. Em termos operacionais e para grande felicidade de António Lavilla seria a “compra ao revés”, isto é, seria o NOVOBANCO a mandar no BPI. Por sua vez um Balanço duplicado teria maior flexibilidade para negociar uma solução para o BFA.

Por tudo isto é evidente que o BPI vai jogar tudo por tudo. Mas o seu limite estará pouco acima dos €4,9 mil milhões pois a partir daí o aumento de capital começa a pesar muito. Mas o BPI não desistirá sem luta e vai usar a comunicação social mas com tecnologia muito gasta e previsível.

Entra em cena o “mais rico”.

A FOSUN, originalmente XANGAIFOSUN, foi fundada em 1992 em Xangai, por quatro universitários da Universidade de FUDAN para, imagine-se, fazer estudos de mercado. Pequenos negócios levaram a grandes e os quatro jovens empreendedores levaram a FOSUN a um dos principais conglomerados privados da China.

Em 2007 a Holding do grupo FOSUN INTERNATIONAL foi cotada na Bolsa de Hong-Kong e tem continuado um desenvolvimento vertiginoso. O modelo de desenvolvimento da FOSUN inspira-se na Berkshire Hathaway do celebérrimo Warren Buffet, onde os Seguros e o Asset Management têm lugar central na constituição do portfólio de investimentos. Nesta estratégia teve lugar particular a aquisição da FIDELIDADE – o principal ativo segurador do Grupo.

O portfólio de interesses da FOSUN, com ativos líquidos de uns RMB 67,3 BN, é muito vasto fazendo lembrar os Coreanos CHAEBOL. Emprega mais de 90 000 pessoas, integrando um dos maiores promotores imobiliários chineses a FORTE, participações na indústria farmacêutica, numa aciaria e na extração de minério de ferro entre muitos outros interesses, como a recente aquisição do ClubMED.

Depois da aquisição da IDERA no Japão, a FOSUN disporá, neste momento, de uns €30 mil milhões de capacidade disponível de investimento. A FOSUN é, assim, o candidato “mais rico”.

A posição da FOSUN torna-se ainda mais forte se houver entendimento quanto a posterior parceria com um dos bancos chineses também candidatos e que fiquem para trás no leilão.

Em resumo, tenho poucas dúvidas que o leilão do NOVOBANCO será um êxito fruto da qualidade do ativo e da sua completa limpeza de contingências, nomeadamente de litigância. O BES “bom” vende-se a preço de custo e o país ficará como os “ossos”.

O BdP reservou para o BES as contingências de litigância – que são gigantescas, como analiso noutro artigo – mas infelizmente estas contingências irão recair sobre o Estado português solidariamente fruto da incapacidade daquele pagar.

Daqui há muitos anos os historiadores avaliarão todo este processo e não poderão deixar de considerar que a Resolução do BES foi altamente destruidora de valor para Portugal. Que o GES caísse entende-se bem mas que se tenha tratado o BES com a inteligência de um mentecapto é matéria de outras pastagens.

Que grandes estrategas habitam a Rua do Ouro.

 

 

 

  1. Tiago Lopes says:

    Caro João,

    Mais um artigo genial! Já li o seu artigo acerca do papel comercial do GES, mas o que tem a dizer da actual guerra entre o BP e a CMVM, e a respectiva desresponsabilizacão ( chocante na minha opinião) do BP relativamente a este assunto ? Como acha que vai acabar? Não poderia ser proposto aos clientes lesados, uma solução como foi adoptada no caso do BPP (FEI)?

    Cumprimentos,

    Tiago Lopes

  2. aferreira says:

    Após os mais recentes desenvolvimentos e candidatos, mantém esta visão sore o vencedor e preço do Novo banco???

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