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CIAO BPI

2 comments

Foi anunciada a OPA do LaCaixa ao BPI o que significa a sentença de morte para o belo sonho de Artur Santos Silva e do seu continuador Fernando Ulrich.

Apesar das diferenças pessoais que tenho, sobretudo com Ulrich, reconheço-lhes enorme mérito profissional – sobretudo a Artur. Mas as coisas são o que são como aprendi a custas próprias: não há hoje espaço na banca europeia para projetos fundacionais.

Por detrás dos beijinhos a abraços públicos estamos, afinal, em presença de uma OPA hostil.

É certo que LaCaixa confirmou que quer manter a marca BPI no mercado português, a presidência executiva por mais um ano e mesmo a cotação na Bolsa portuguesa. Mas o que LaCaixa pretende com a sua OPA é tudo o que Artur e Fernando negaram na sua vida empresarial e, mal ou bem, lutaram para poder erguer no BPI.

Restará agora a pergunta se valeu a pena a Artur e Fernando lutarem ardorosamente contra a OPA do BCP originando uma menos – valia para os acionistas do BPI superior a € 7 mil milhões, para agora terem isto. Eles, e pior ainda, os acionistas do BPI.

A OPA da LaCaixa é hostil ao projeto histórico de Artur Santos Silva por três razões: a) implica a completa integração operacional com Espanha e brutal redução de custos; b) implica a venda do BFA e c) complica a compra do NOVOBANCO.

LaCaixa vê a OPA ao BPI de uma forma completamente diferente da leitura da maioria dos analistas portugueses. Entende a operação como de reduzido risco e que oferece um preço baixo na forma de um desconto de uns 30% sobre o valor contabilístico. Em cima disso pode recuperar a contrapartida do preço em sinergias de uns € 650 milhões nos próximos 5 anos. A estratégia de aquisição nada tem de crescimento agressivo no mercado português. Tem tudo de concentração orgânica .

O cenário central de LaCaixa é ficar com uns 75% do BPI, a que se adicionaria a manutenção da parceria estratégica com a Allianz com os seus 8,4% e uns 15% de pequenos acionistas. Como veremos abaixo é ponto assente que os 18,6% da Santoro serão vendidos com mais-valia de € 130 milhões.

Neste cenário central o impacto da OPA nos rácios de capital da LaCaixa é limitado mas ainda assim de 110 pontos base, baixando o seu rácio de capital para 10,4% – contra os 11%, seu objetivo de médio prazo. LaCaixa, fruto da crise financeira em Espanha, foi levada a absorver 5 bancos nos últimos 4 anos – um importante esforço para o seu rácio de capital evidentemente. Não está folgada de capital a LaCaixa e isso se verá na corrida ao NOVOBANCO.

No plano operacional pós-OPA a redução de custos no BPI vai ser mesmo a doer – uns € 130 milhões por ano nos próximos 5 anos, algo que Artur e Fernando sempre tiveram relutância a fazer de forma tão dura.

A OPA, por sua vez, implica a venda do BFA. A alternativa à venda do BFA seria um importante aumento de capital do BPI, algo que nem LaCaixa nem Santoro veem com méritos. Como vimos LaCaixa não está assim tão folgada de capital e Santoro prefere claramente investir no BFA a acompanhar um importante aumento de capital do BPI.

A OPA implicou, assim, um pré-acordo de venda dos 50,1% do BPI no BFA a Santoro como condição do seu apoio na OPA. De fato, Santoro teria um poder de veto na OPA pois sendo necessários 75% de maioria na Assembleia Geral para se aprovar a desblindagem dos Estatutos do BPI (retirando a limitação dos direitos de voto a 20%), a posição de Santoro é de charneira. A posição de 18,6% de Santoro é, na verdade, uma fundamental minoria de bloqueio que lhe deu todas as munições para negociar o BFA.

A venda dos 50,1% do BFA será um dos dias mais tristes da vida empresarial de Artur e Fernando. A venda de uma posição de controlo do maior banco comercial de Angola, a joia da coroa do BPI, reduz a relevância estratégica do BPI a uma filial regional do gigante catalão e Ulrich a um Diretor-geral – como aliás é tratado na imprensa espanhola.

Ainda por cima o preço de venda será pouco favorável. Os 50,1% do BFA serão vendidos por uns € 350 milhões, ou seja menos de três anos dos seus resultados líquidos. Uma pechincha para a venda de uma posição de controlo de num banco com 35 % de ROE.

Adicionando insulto à injúria, Isidro Fainé tem grande relutância em relação à compra do NOVOBANCO pelo BPI. LaCaixa, como vimos, quer uma operação portuguesa de baixo risco, que consuma pouco capital e que acrescente ao “earnings per share” já em 2016 através de um drástico corte de custos.

A operação NOVOBANCO para o BPI seria exatamente o contrário e a Alta Direção da LaCaixa já filtrou isso mesmo para a imprensa espanhola que, cito EL PAÍS, diz claramente:

“ … o NOVOBANCO é mais um desejo do Diretor-geral (SIC) do BPI Fernando Ulrich do que do Presidente de LaCaixa Isidro Fainé, que tem sérias reticências”

Em resumo, a OPA da LaCaixa ao BPI, se bem que feita com luvas de pelica, reverte em absoluto o projeto fundacional do BPI construído por Artur e Fernando.

O BPI, embora cotado na Bolsa portuguesa, será uma Direção regional da LaCaixa. Não tenho dúvidas que muito mais rentável do que é hoje. E não me surpreenderia que o preço das ações do BPI possa mesmo ter um excelente desempenho futuro.

Santoro/ UNITEL serão grandes ganhadores deste processo pois comprarão o controlo do BFA a um preço muito favorável. Poderão, então, evoluir para a fusão do BFA com o BIC Angola criando um polo bancário dominante no país.

Mas o grande vencedor será, sem dúvida, LaCaixa. Comprará o 4º maior banco português a preço de saldo. Sempre controlou a situação sem fazer OPA. Anulou OPA altamente favoráveis aos acionistas sem gastar um centavo. Assumiu uma posição de 44% no capital do BPI sem lançar OPA graças à conivência da CMVM. Em resumo, fez o que quis, quando quis e ao preço que quis. Fazem agora cheque mate a Artur e Fernando e ainda vão ser elogiados. Que, ao menos, a Catalunha os condecore.

Bem Hajam.

  1. Gustavo Junqueiro says:

    O epitáfio a Artur Santos Silva e Fernando Ulrich é precisamente igual àqueles que defendiam a manutenção dos centro de decisão das empresas portuguesas, em Portugal [caso Somague, entre outros]. É claramente a lei do mais forte a falar.
    Quanto ao BFA, fica-se a saber que Angola não tem relevância estratégica, de primeira linha, para o Banco espanhol. Provavelmente, o caso BESA ter-lhe-á servido de aviso à navegação porque os terrenos angolanos são muito pantanosos.
    Sem querer fazer futurologia, o fim do “reinado” de José Eduardo dos Santos pode complicar a qualidade dos ativos detidos pela sua filha Isabel [efeito de dominó]. Acresce que esta tem participação em vários bancos angolanos; logo, tarde ou cedo, começarão as OPA’s a bancos angolanos, por angolanos, uma vez que o mercado angolano não é assim tão amplo.

  2. Sandra Ferreira says:

    Caro João Rendeiro, aprecio a sua análise. Mas como chega ao valor de 350M€ para a venda do BFA ao Grupo Santoro? Mais uma questão. Porque vê a OPA como hostil (e julgo ter percebido perfeitamente o seu raciocínio) quando na imprensa o LaCaixa diz que o BPI continuará a reportar ao BCE e com cotação em bolsa? Será que irão “permitir” um período transitório de 2 anos até acabar o mandato de Ferndo Ulrich à frente da Comissão Executiva do BPI para se “assenhorarem” por completo do Banco português?
    Grata pela resposta.

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