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A FACE OCULTA DO INQUÉRITO BES

2 comments

A Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso BES terminou os seus trabalhos faltando agora o relatório final. Fez um bom inquérito na opinião geral e, sem dúvida, prestigiou o Parlamento e alguns parlamentares em especial. A bloquista Mariana Mortágua teve inclusive honras de citação na BLOOMBERG, algo muito mais prestigioso nestes dias do que o BLOG de Varoufakis.

Ficaram claras as responsabilidades principais da equipa de gestão do GES, evidentemente com Ricardo Salgado à cabeça. E ficaram também claras as responsabilidades acessórias dos reguladores BdP e CMVM, evidentemente com Carlos Costa à cabeça.

Ficaram também claras as responsabilidades principais de Ricardo Salgado, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava nos inacreditáveis investimentos da Telecom no papel comercial do GES. O assumido papel zombie de Bava na sua inquirição foi talvez o elemento mais exótico deste peculiar pacote arruinando-lhe o pouco que já restava de uma carreira empresarial.

Permanece, não obstante, uma pergunta simples mas, a meu ver, decisiva.

Como foi possível durante tanto tempo – desde 2008 a 2014 – manter um esquema de ocultação de Contas e nesse período se tenha reforçado o poder político e económico de um GES na verdade insolvente?

Que o GES ficou insolvente na crise financeira de 2008 tal como praticamente todos os Grupos financeiros da Europa e dos EUA é uma evidência. Isto mesmo torna claro Vítor Constâncio no ponto 11 da sua carta-resposta à Comissão de Inquérito.

O que não é uma evidência é por que é que tendo a esmagadora maioria destes Grupos financeiros procurado apoio dos seus Estados para se estabilizar, o GES não o fez. Pelo contrário acelerou a sua tónica dominante sobre a economia e sociedade portuguesas, afinal espelhada no acrónimo Ricardo Salgado DDT.

A explicação reinante, a saber que o GES recusou o Estado para o Estado não conhecer os problemas do GES, não me convence.

E não me convence por uma razão simples. Em 2008 nada havia a esconder e portanto se o GES quisesse jogar o jogo que foi permitido que todos jogassem (menos a uns pobretanas, BPP incluído), o Estado teria apoiado e não teria sequer feito muitas perguntas. Veja-se, por exemplo, como o TARP ajudou a Goldman Sachs e até o JPMorgan.

Não, a questão foi outra.

O GES viu na crise financeira de 2008 uma oportunidade. A oportunidade de aproveitar a fraqueza dos outros, para os eliminar (como no BPP), para os subjugar (como a CGD e o BCP), ou até para os neutralizar (como o BPI), em torno do seu polo dominante. Diria que nunca, pelo menos nos últimos 50 anos, uma entidade teve a dominância do poder económico e político como o GES teve no período 2007/2011. Quem se quiser divertir um pouco poderá consultar vídeo-notícias da época vendo como Fernando Ulrich ou Faria de Oliveira, por exemplo, disputavam as cadeiras à esquerda e direita de Ricardo Salgado em sessões públicas.

Como foi possível articular posições politicas e negócios com Luiz Inácio Lula da Silva utilizando a PTelecom (via Macau) e depois a OI? Como foi possível intermediar posições na Líbia e no Chavismo (via Panamá e Miami) nas barbas de Washington?

Como foi possível um grupo insolvente ter tanto à vontade e julgar-se acima de qualquer escrutínio?

A resposta está na face oculta do poder avassalador do GES neste período e, também, no muito que ainda falta conhecer sobre todas estas “estórias”.

José Sócrates.

  1. nuno afonso says:

    Boa tarde. Para quando uma análise ao Montepio Geral e à recente manobra do BdP (com a auditoria forense)? Obrigado

  2. nuno afonso says:

    Para quando análise à PTelecom e recente história com a OI e posterior recuperação do investimento em Rioforte?
    A sua analise é excelente e fiel à realidade?

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