subscribe: Posts | Comments | Email

José da Silva Lopes

1 comment

Tiveram hoje lugar as cerimónias fúnebres de José da Silva Lopes na capela adjunta à Basílica da Estrela. Não há muito tempo esta mesma capela foi a base dos funerais da Joana, primeiro, e do João, depois.

A Basílica da Estrela é um dos mais bonitos monumentos de Lisboa – sobretudo de noite, e no conjunto daquelas circunstâncias me pareceu que não haveria lugar mais adequado para um último adeus a José da Silva Lopes.

Pouco poderei acrescentar ao que tantos – e bem – já disseram. Poderei dar testemunho da sua grandeza de carácter e a sua absoluta ausência de preconceito. A perspectiva de um académico perante a Vida: analisar os fatos sem saltar para conclusões.

Estivemos juntos em várias conferências e debates. No último, no outono de 2008 na RTP2, com Jorge Braga de Macedo atrevi-me a ser mais pessimista do que José sobre as tendências da crise financeira. Logo Jorge comentou que nunca tinha assistido a uma tal ultrapassagem.

Mas José não era pessimista por pretender o Mal. Simplesmente rezava – creio que rezava – para que os seus piores receios se não materializassem.

José Silva Lopes tinha um coração à esquerda mas a sua cabeça de economista estava estruturada na economia neoclássica. Ou seja, um ortodoxo. Formou-se no ISEG mas a sua alma-mater de verdade era o MIT dos seus Amigos Solow, Eckaus e Dornbush e dos seus ilustres alunos como Rogoff e Krugman.

A identidade conceptual com a economia neoclássica possibilitou sempre a José um diálogo natural com as instâncias internacionais como o FMI e o Banco Mundial. Daí derivaram serviços muito relevantes a Portugal muitos dos quais não estão registados de forma escrita na história financeira. Por sua vez, a aceitação que sempre teve nas esquerdas possibilitou a “venda” de algumas ideias – como a desvalorização do Escudo – verdadeiramente decisivas na nossa história recente.

Mas a memória mais impressiva será porventura a sua bonomia em todas as circunstâncias. No debate mais aceso e relevante poder-se-ia dele discordar mas era quase impossível uma zanga mesmo momentânea. A argumentação de José, poderia obviamente ser errónea – como a de qualquer ser humano, mas todos sabíamos que estava baseada numa honestidade intelectual inabalável.

José da Silva Lopes estará seguramente em Paz.

  1. JSL era um grande amigo.

Leave a Reply to Jose