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Anbang Insurance compra NOVOBANCO

7 comments

A Anbang Insurance comprará o NOVOBANCO por € 5,2 mil milhões.

Está lançada a última fase do processo de venda do NOVOBANCO com a short-list de cinco candidatos para o sprint final. FOSUN, ANBANG, Banco Santander, APOLO Asset Management e CERBERUS Asset Management.

Importa que se clarifiquem alguns pontos chaves de referência: os passivos de litigância, o valor dos livros (book value) e a posição de capital/ rácio de solvabilidade.

Em relação ao passivo de litigância (papel comercial, OAK FINANCE, etc. …) as indicações vão no sentido do comprador as não assumir. O BdP vai tentar passá-las para o BES mas sabemos que em última instância vão cair nos contribuintes portugueses.

De um puro ponto de vista de processo de venda faz sentido vender sem passivo de litigância pois o preço será muito superior. Um comprador que tivesse que assumir as litigâncias pagaria necessariamente um forte desconto para o book – o valor dos livros. O comprador descontaria à cabeça um processo incerto que vai demorar dez anos a clarificar- o desconto teria que ser brutal.

Além disso é completamente diferente litigar contra um privado ou contra o Estado. Por isso o passivo de litigância ocorre ser muito menor nas “mãos” do BdP e diluído no longo prazo. É certo que a Ministra das Finanças, num raro lapso, disse o contrário mostrando, afinal, que todos os mortais se podem enganar. Mas, para mim é claro, a venda far-se-á sem passivo de litigância.

Em relação às métricas do NOVOBANCO assumo ativos totais de uns $ 80 mil milhões, book value de uns $ 5 mil milhões e rácio de solvabilidade de 9%, excluindo uns $ 3 mil milhões de créditos fiscais. Isto significa que um operador isolado – como os chineses ou “private equity” terá que se preparar para um aumento de capital e uns $ 2 mil milhões para levar o rácio de solvabilidade para uns confortáveis 12%.

Neste quadro como se podem posicionar os candidatos?

Em primeiro lugar todos têm fundos mais do que suficientes para efetuar esta aquisição. A questão não é a da existência de fundos mas do seu custo de capital.

E aí o custo de capital dos private-equity APOLO e CERBERUS será o mais elevado de todos e por isso a sua oferta potencialmente a mais baixa. Apesar da sua abordagem altamente profissional considero baixa a sua probabilidade de sucesso a não ser que posteriormente estabelecessem consórcio com operador local – para além da relação APOLO/TRANQUILIDADE evidentemente. Uma possibilidade certamente mas que não vejo suficientemente ganhadora para estes dois importantes operadores.

Restam os dois operadores chineses e o Banco Santander.

Os dois operadores chineses não vão fazer guerra de preços entre si, apesar de serem dos mais agressivos operadores privados da China. Alguém relevante convidou Guo Guanchang e Wu Xiaohui para jantar em Xangai recentemente e ficou entendido quem estaria no pole position no NOVOBANCO.

Angban Insurance.

A Angban Insurance sendo mais recente pois foi criada, como uma seguradora automóvel, apenas em 2004 ($ 60 M de capital inicial) tem tido um crescimento ainda mais rápido do que a Fosun. A Angban tem, hoje, capitais de uns $ 10 mil milhões – contra uns $ 8 mil milhões da Fosun, e ativos totais de uns $ 130 mil milhões – contra uns $ 50 mil milhões da Fosun.

Wu Xiaohui (seu Presidente/Fundador) e a entourage da Anbang fazem parte da aristocracia chinesa fortemente interrelacionada com o poder político. Wu – recentemente divorciado – foi casado com uma neta de Deng Xioaoping mas outros Diretores e acionistas têm acesso especial em Beijing.

Guo Guanchang e seus parceiros da Fosun tiveram a sua fundação no início dos anos 90 em Xangai como uma empresa de marketing e publicidade. Basearam o seu extraordinário desenvolvimento no mercado imobiliário e só recentemente entraram nos Seguros – querendo converter esta área no “core business” do grupo. Apesar do seu extraordinário desenvolvimento tiveram que ceder passagem.

A Angban está a preparar um IPO na Bolsa de Hong-Kong onde pretende levantar uns $ 2 mil milhões de capitais e tem por isso um programa para “levar a noiva ao altar”. Simultaneamente, o regulador segurador chinês liberalizou recentemente as possibilidades de investimento internacional e isso tem levado a um importante afluxo de investimento chinês no estrangeiro. As maiores seguradoras chinesas China Life (25% de mercado) e Ping An (14% do mercado), por exemplo, fizeram recentemente importantes investimentos no imobiliário de Londres e Nova York.

A Angban Insurance tendo apenas 4% do mercado seguros na China tem capitais próprios superiores à China Life. Tem como ambição ser um dos DEZ maiores grupos financeiros do mundo e para além do imobiliário, onde a compra emblemática do Waldorf Astoria por $ 1,95 mil milhões foi um marco, tem feito importantes investimentos em bancos e seguradoras.

A Angban Insurance para além do seu importante investimento de 20% no Mishing Bank, o maior banco privado da China, e de 5% no China Merchants Bank – onde investiu uns $ 4,5 mil milhões, comprou a seguradora TONG YANG na Koreia por uns $ 1,5 mil milhões; a seguradora holandesa VIVAT por uns $ 1,59 mil milhões; e o banco DeltaLLoyd e a seguradora FIDEA na Bélgica.

A aquisição do NOVOBANCO com os seus $ 80 mil milhões de ativos significaria para a Angban um crescimento de uns 60% dos ativos totais e de uns 50% dos fundos próprios consolidados. Ainda por cima proporcionando uma plataforma europeia de futuro crescimento. Uma operação de largo alcance que não aparece muitas vezes. A Angban vai apostar todas as fichas e utilizar o baixo custo de capital das reservas técnicas das suas seguradoras para uma proposta imbatível.

Pela frente a Angban terá um adversário de respeito na figura de Ana Patrícia Botin. Depois do aumento de capital feito em janeiro de € 7.5 mil milhões – colocado a € 6,18 por ação em 4 horas em 235 investidores institucionais – não faltam fundos ao Banco Santander mas têm que sobrar cuidados.

Ana Patrícia declarou como objetivo do aumento de capital que o crescimento seria orgânico e portanto a última coisa que poderia acontecer seria o NOVOBANCO levar a um novo aumento de capital do Santander. Isto não vai obviamente acontecer porque o preço que oferecer nunca será superior ao Book e o Santander será muito rigoroso na sua proposta.

O Santander parte, de todos os modos, com importantes vantagens sobre um operador chinês.

Desde logo as famosas sinergias operacionais. Estimei de forma conservadora – perante as ridículas risadas de alguns – que as sinergias seriam de uns € 500 milhões. Passadas semanas LaCaixa veio dizer que esperava uns € 650 milhões de sinergias na sua OPA ao BPI. No caso do Santander posso admitir um valor de sinergias entre € 650/ 1 000 milhões.

Depois será importante considerar a importância da consolidação e otimização de Balanço. O Santander quer pelo seu banco em Espanha quer pelo Santander Totta tem vias de optimização de balanço e gestão de capital que um operador chinês não dispõe. O Santander dispõe de importantes argumentos e ficaria muito surpreendido que baixasse os braços sem luta.

Em resumo, estaremos em presença de uma luta de titãs onde o racional económico e lógica industrial se confrontará com uma estratégia muito agressiva de internacionalização com um baixo custo de capital. Felizmente para o Fundo de Resolução desta luta resultará um melhor preço.

O capital chinês ganhará a parada.

  1. Carlos Cardoso says:

    Já vejo as manchetes na imprensa….!

  2. nuno afonso says:

    A concretizar-se é bom para os funcionarios do NB e para a economia pois a presença mantém-se com alguns ajustes, nomeadamente balcões e hierarquias.

    • É bom para a economia manter estruturas que podem ser redundantes?

      • nuno afonso says:

        Redundancia nao, mas era pior se NB fosse comprado por um banco Espanhol ou Portugues. Quanto menor o valor da venda, maior será desembolsado pelos contribuintes.
        Penso que devemos ter alguma cautela com redundancias que sao aparentes mas depois sao investimentos a longo prazo, quer se goste ou nao Portugal esta como esta hoje porque escolheu o seu destino. Se agora sao Chineses? Era melhor termos feito o trabalho de casa, e tambem na banca. O BES nao foi o primeiro nem o segundo caso.

  3. A Fosun a perder (abdicar) a corrida ao NB entrega de barato a possibilidade de conjugar banca e seguros? A aliança BES Tranquilidade foi um sucesso com um aproveitamento por cada um de outro canal de venda. Neste sentido que levará a Fosun a sair da corrida, a confirmar-se? A presença física de balcões NB e Fidelidade em Portugal a que juntamos a rede de mediadores desta, seria um verdadeiro abraço potente de negócio em todo o país.

    Cumprimentos

  4. Bem visto, João.

  5. GGLucas says:

    Obrigado Dr. Joao pela sabedoria. Algun prognostico para esta tarde?

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