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O MONTEPIO E EU

11 comments

No passado dia 4 de Maio um artigo com um impacto inesperado. Mais de 200 000 pessoas leram o texto ou seja mais do que as audiências do CORREIO DA MANHÃ e do EXPRESSO juntos. Não está mal para um simples espaço de opinião.

Li no EXPRESSO – onde poderia ser? – que Tomás Correia e Cunha Vaz me vão pôr um processo. Mas sobre quê? Mas então o Banco de Portugal não obrigou o Montepio a aumentar capital por ter os rácios de solvência abaixo dos mínimos? Isto não é estar insolvente?

Lá vai ter o Montepio que explicar com todos os detalhes em Tribunal os imbróglios em que a sua gestão andou a flutuar nos últimos anos, incluindo se contratou ou não Cunha Vaz e porquê.

A massiva leitura do artigo gerou naturalmente reações de leitores que, extraordinariamente, se prolongaram por duas semanas. Ontem, dia 16 de Maio, Daniel Braga comentou:

“Por acaso as conclusões gerais deste artigo são fáceis de tirar… Basta ler os jornais e pesquisar um pouco no Google. Reduzi praticamente a zero aplicações na Associação Mutualista.”

Este comentário de um leitor de bom senso resume o essencial da questão.

Muitos comentários enfatizaram eventuais ligações maçónicas de Tomás Correia e outros, como fatores explicativos de algumas opções de gestão. O comentário mais divertido nesta linha foi de uma tertúlia antimaçónica no Rio de Janeiro, apelando a que me junte a eles numa cruzada anti-Correia. Que disparate.

Devo clarificar que, a mim, não me interessam absolutamente nada alegações relacionadas com Maçonaria, OPUS DEI ou qualquer outro tipo de afiliações. Já tenho vivência suficiente para entender que o que conta são pequenos grupos de pessoas que usam e abusam dessas afiliações, delas se aproveitam para fins meramente pessoais e, afinal, lhes mancham a reputação. Não contem portanto comigo para guerras deste tipo.

Uma outra teoria da conspiração seria a de que o meu artigo se inseriria nos desígnios eleitorais da tendência comunista da Associação Mutualista liderada por Eugénio Rosa. Creio mesmo que Eugénio Rosa se viu na necessidade de escrever um comentário ao artigo distanciando-se do seu conteúdo.

Não seria necessário. ARMA/CRITICA nasceu em 1975 em Económicas para combater o que na altura eram os riscos de uma ditadura comunista em Portugal. Verdade se diga que nunca fui importunado pelos Comunistas do ISE, talvez por sempre ter respeitado os seus ideais. Ou talvez, mesmo por eu ser irrelevante na macrogeografia da coisa política. Mas alguém pensar que eu possa ser um inconsciente “compagnon de route” de uma tendência protocomunista raia o absurdo.

Quem me conheça, aliás, sabe que sou um incorrigível solitário que corre em pista própria e com grande orgulho. Sempre na minha vida levei pancada de todos os que incomodei, algumas vezes por uma razão e o seu contrário.

O exemplo mais extraordinário está na minha condição de Banqueiro – agora ex-Banqueiro. Quando fundei o Banco Privado fui alvo de uma gigantesca operação de bloqueio, iniciada por certas atuações de Alípio Dias, seguidas pela traição de um colaborador em que confiava e que era “toupeira” do semanário INDEPENDENTE. Vale a pena reler o que de mim dizia o INDEPENDENTE – dirigido por Paulo Portas – nessa altura.

Depois, já Presidente do Banco Privado Português sempre fui menosprezado pelos outros banqueiros a começar por Ricardo Salgado. Salgado quis comprar a DECA/GESTIFUNDO e colocou-me na “lista negra” quando optei – afinal equivocadamente – por vender ao seu inimigo fidalgal José Roquete.

Em Novembro de 2008 perante a crise de liquidez bancária que afetou todos os bancos foi útil a José Sócrates, Teixeira dos Santos e a Ricardo Salgado assassinar João Rendeiro.

Três coelhos com uma cajadada: deitar abaixo o “banco dos ricos” dava dividendos políticos e eliminava um importante rival de outros bancos; fragilizava as finanças pessoais de Francisco Balsemão e ameaçava a independência editorial da Impresa; daria um tiro na recandidatura Presidencial de Cavaco Silva.

Tudo isto aconteceu com exceção do terceiro ponto: as explicações trapalhonas de Manuel Alegre sobre a sua relação – afinal tão simples – com a publicidade do BPP revelaram-se mortais para a sua candidatura. O tiro em Cavaco, afinal, acertou em Alegre. É a vida.

Caído da Presidência do BPP eis senão que sou eleito como símbolo dos Banqueiros. Cai sobre mim todo o odioso das más práticas bancárias em Portugal e no Mundo – largamente justificado diga-se. O aspirante a banqueiro odiado pelos banqueiros passa a símbolo dos banqueiros perante a sociedade. Incrível ironia.

Como se vê, correr em pista própria tem os seus riscos.

Mas porquê um artigo sobre o Montepio? É simples: há uma relevante história para contar e as reações suscitadas mostram isso mesmo.

Umas muito poucas dezenas de comentários tiveram um conteúdo menos educado: uma percentagem ínfima dos cerca de 200 000 leitores. Quem frequenta a blogosfera conhece as regras: um número de personagens arranja uma identidade anónima e escreve as barbaridades que lhes apetece sabendo que nunca será responsabilizado.

Imagino que este exercício de Regressão espiritual pela escrita substitua uma consulta psiquiátrica e daí o seu valor social que, aliás, deveria ser pago: menos custos no Serviço Nacional de Saúde.

Mas outros comentários negativos são feitos em nome próprio e estes devem ser valorizados. No essencial tratam todos o mesmo tema: a minha ilegitimidade para opinar. Mas porque é que eu ou, já agora, qualquer outra pessoa, não pode opinar?

Poderá dizer-se que as minhas opiniões são mal informadas, pouco inteligentes, facciosas até, resultando em conclusões deficientes ou mesmo erradas. Agora, que não posso ter opinião?

Como exemplo paradigmático estão dois (ou seja, o mesmo repetido) comentários de António Cunha Vaz (creio que o proprietário da agência de comunicação com o mesmo nome) que basicamente mata o mensageiro sem discutir a mensagem. É uma velha estratégia que às vezes resulta: a mensagem morreria com o mensageiro. Mas não parece que – mesmo que me matem – os problemas do Montepio desapareçam como que, por milagre.

Honraria Cunha Vaz que esclarecesse se comenta numa qualidade individual ou se o Montepio é seu cliente. Porque se é cliente como penso que é, torna-se um comentário patético por manifesto conflito de interesses. Conflito de interesses que conviria esclarecer para ter claro se Cunha Vaz está a tentar impor – ou não – o inapresentável José Félix Morgado como alternativa a Teixeira dos Santos para a Presidência do Montepio.

Há uma guerra subterrânea pela sucessão de Tomas Correia e Cunha Vaz quer ter um papel. A titulo de quê? Em nome de que ética?

Um terceiro grupo de reações ao artigo é também altamente revelador. Referi-me a jornalistas e pessoalizo em João Vieira Pereira por ter escrito especificamente sobre o tema.

No meu estilo provocatório eu tinha desafiado os jornalistas com a última frase do artigo:

“Perante este quadro os Media especializados dizem, nada.”

E daí, João Vieira Pereira e outros escandalizaram-se com o gigantesco índice de leitura do ARMA/CRITICA – ademais num quadro de ilegitimidade autoral. Sim, também para João Vieira Pereira eu não deveria ter a possibilidade de opinar.

Mas que vontade rir.

Mas então não foi João Vieira Pereira e essa genialidade do jornalismo português que dá pelo nome de Nicolau Santos que entrevistaram e deram extensa cobertura às opiniões de Artur – aliás o Doutorado pela Universidade Inexistente, Artur Baptista da Silva, Ph. D.?

Assistimos a alguma demissão na Direção do EXPRESSO perante tão grosseira prova de ilegitimidade autoral? Qual é a autoridade moral de um Subdiretor do EXPRESSO para falar de legitimidade autoral perante tal prova falhada?

É verdade que no Montepio – contrariamente à “garganta funda” da PT/BES que um dia será revelada – não existem fontes que facilitem as “estórias” de jornalismo fácil. As agências de comunicação são, na verdade, via excelente para quem está habituado a trabalhar pouco. Mas João Vieira Pereira pode pegar na sua cabeça e trabalhar – como eu faço – para escrever o que houver a escrever. A informação está claramente disponível a todos para quem tiver unhas para a agarrar.

Estavam todos entretidos nestas múltiplas teorias da conspiração e da ilegitimidade autoral quando no dia 13 de Maio a LUSA fez um despacho. Dizia, que o Deputado do PS Pedro Nuno Santos fez um conjunto importante de perguntas à Ministra das Finanças sobre o Montepio. Mais ainda, solicitou um conjunto de documentação aos Supervisores, nomeadamente a carta que os três supervisores escreveram ao Governo em Outubro do ano passado. E as cópias das auditorias efetuadas pela Deloitte no Montepio. Coisa séria.

Toda a gente conhece o peso específico do Deputado Pedro Nuno Santos e ninguém imagina que esta iniciativa não esteja validada pelo líder do PS, António Costa. Isto significa muito simplesmente que o PS está, ao mais alto nível, seriamente preocupado com o Montepio.

Significa isto também que um eventual Governo António Costa (e um Ministro das Finanças Pedro Nuno Santos) não quer que lhe caia em cima uma “batata quente”, sem nada terem feito em tempo útil. Em linguagem financeira fizeram um “hedge” – uma operação de cobertura – política, neste caso. Penso que foram inteligentes.

Em resumo, o poder político ao mais alto nível já percebeu a seriedade do problema Montepio e não quer ser apanhado em falso.

Muitos leitores me perguntaram, em texto ou pessoalmente, se estão em risco nos seus investimentos no Montepio.

Direi que depende dos produtos em que cada um esteja.

Os depositantes, no meu entender, não estão em risco. O Montepio é uma instituição sistemicamente importante e portanto – mesmo num cenário extremo – não é plausível que os depósitos – seja qual o montante – estejam em risco.

O mesmo raciocínio se aplica à divida sénior emitida pelo Montepio.

As preocupações começam a partir daqui.

Desde logo, os € 200 milhões de dívida subordinada RENDIMENTO TOP, com horizonte 2018. Como foi noticiado esta dívida subordinada teve as condições de emissão alteradas para integrar os fundos próprios em 110 pontos base.

O risco que existe nestas obrigações é o de virem a ser convertidas em unidades de participação do Fundo de Capital em 2018. Por isso, os minoritários fizeram queixa na CMVM pois estão a ver-se convertidos em acionistas do Montepio quando tinham comprado um produto de rendimento fixo. O risco de perda importante de capital neste caso não deve ser menosprezado.

A própria integração em capital – um conceito de longo prazo – de umas obrigações com maturidade em 2018 (ou seja, a três anos) jamais seria normalmente aceite por um supervisor. O Banco de Portugal ao aceitar esta conversão revela duas coisas: no imediato, a completa dificuldade do Montepio em se capitalizar adequadamente; no mediato, a má-fé perante estes detentores de rendimento fixo que em 2018 serão “convidados” a ficar acionistas. Mais uma encrenca para a CMVM.

Para não falar da “pescadinha de rabo na boca” que isto é. Então obrigações detidas pelo Grupo Montepio contam para capital do Montepio? Contam se o BdP quiser que conte. Mas ninguém pense que isto é próprio de uma instituição adequadamente capitalizada.

O segundo grande grupo de investidores em risco são os 24 000 detentores de unidades de participação do fundo de Capital. Como se sabe as perdas de capital neste momento são de uns 20 a 30% e só a intervenção do Montepio – lui même – na compra destas unidades evita um maior descalabro. Mas a compra destas unidades abate diretamente aos Fundos próprios do Montepio. Estas unidades terão que ser revendidas.

Mas quem vai comprar?

Só há um comprador possível. A Associação Mutualista. A mesma Associação Mutualista que vai tomar firme os € 200 milhões de aumento de capital.

O terceiro grupo – e de longe o mais relevante – em risco são os 650 000 associados da Associação Mutualista. Trata-se de muitas famílias e, ainda por cima dos mais indefesos, dados os seus parcos recursos. Ninguém se poderá perdoar se cada um não fizer o melhor esforço para que estas pessoas sejam adequadamente protegidas.

No meu conceito de melhor esforço não está, bem entendido, incluída a política da avestruz fazendo de conta que está tudo bem. Não há melhor forma de ajudar a Associação Mutualista do que falar abertamente nos problemas e equacionar as melhores soluções.

Neste momento cerca de 90% do capital da Associação Mutualista está aplicado no Montepio. A próxima aplicação de € 200 milhões no aumento de unidades de participação do Fundo de Capital é mais do mesmo. Tirar do bolso esquerdo para o direito. A dotação em capital da Associação Mutualista representa uns 40% dos € 4,7 mil milhões do seu património mas outros 50% estão direta ou indiretamente aplicados no Banco. O património da Associação Mutualista não se distingue do Banco.

Fusionar a Associação Mutualista com o Montepio e transformar os associados em acionistas é uma via estratégica, sem dúvida. Mas isto é contrário ao projeto fundacional da Associação e à própria natureza dos associados que sempre viram as suas poupanças como um fundo de rendimento de longo prazo.

Vejo sinceramente muito complicado – uma verdadeira traição mesmo – transformar os associados mutualistas em acionistas de um projeto de risco. Embora, em larga medida – e daí o embaraço da situação – os associados estão já assumir todos os inerentes riscos de capital.

A segunda alternativa estratégica seria imunizar os interesses da Associação Mutualista da evolução de um projeto de risco. Isto passaria por desmutualizar o Montepio. Isto é, transformar o Montepio numa sociedade aberta, disponível para abrir o capital e participar em processos correntes de fusão e aquisição. Evidentemente esta via “parte o coração” aos mutualistas mas, a meu ver, é a única que protege o património dos seus associados.

Para além dos escolhos político-ideológicos que esta segunda via comporta existe ainda a delicada questão da perda de capital que esta via implicará. O Montepio não vale hoje os € 1,7 mil milhões com que a Associação Mutualista o capitalizou. A perda de capital será muito apreciável.

Tudo visto e somado, Tomás Correia – agora Cunha Vaz também – até podem querer que eu morra. Mas isso de pouco valerá.

Em vez de matar o mensageiro será melhor enfrentar com verdade os sérios problemas que a sua gestão criou.

  1. antonio almeida says:

    Comentarios esclarecedores e unicos, doa a quem doer.

    Quem nao quiser entender e tiver interesses na instituiçao certamente que se ira lembrar do ditado QUEM ME AVISA MEU AMIGO E.

    Voz do POVO e voz de DEUS.

    CPTS

  2. Um VERDADEIRO entendido na matéria, um bom gestor, um bom financeiro, com credebilidade, pessoa idonea, com boa reputação bancária, sem incidentes a mancharem o curriculum, ficaría em silêncio para não arriscar estar a falar daquilo que não sabe, que não conhece. Evitaria causar um pânico desmedido na população, mas quem não tem este carater escreve post’s para ter “audiências”.

  3. nuno afonso says:

    Mais um artigo com factos apontados. Só não vê quem é associado do Montepio. Boa Sorte maltinha do Montepio, mais um falir e mais uma prenda para resolver no proximo Governo.
    Mais um ano em que o Banif passa ao lado, o ano passado foi o GES, este ano o Montepio. O Banif continua a tentar arranjar soluçoes sem ruído.

  4. Pedro Lisboa says:

    Já vi este filme por diversas vezes : BPN, BPP, BES.
    O Montepio será o próximo banco a ir ao charco,pois tem crédito malparado bem acima da concorrência.
    Um aumento de capital de 200 milhões de € terá de ser feito pela Associação Mutualista e a pergunta que se coloca : haverá dinheiro para o aumento de capital ???

  5. Montepio vai poder ter mais accionistas

    As caixas económicas de maior dimensão vão ser equiparadas a bancos e passam a poder abrir o capital a outros investidores. Também vão ter de ter gestão distinta do seu accionista, prevê o novo regime a aprovar na próxima semana.

    http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca___financas/detalhe/montepio_vai_poder_ter_mais_accionistas.html

  6. Li com muita. muita atenção.

  7. Reli outra vez e reflecti sobre o que escreve. Tinha uma horrorosa impressão da sua pessoa (porque só o conheço do que os jornais falam de si – erro meu, vejo agora). Confesso que mudei.

  8. Luis Teles says:

    É de louvar a frontalidade e a clareza do artigo. E é também um dever perante milhares de portugueses que podem perder as suas poupanças. Um bem haja para o autor pela coragem.

    Da minha parte, desfiz-me em Outubro passado dos títulos mutualistas que detinha há mais de 10 anos. Pareceu-me óbvio às primeiras notícias que o risco era sério. Fi-lo com muita pena e mais uma vez desiludido com o fraco nível de gestão e de responsabilidade das administrações em Portugal.

  9. Em tempos fiz parte da equipa do João Rendeiro, tempos da Gestifundo,
    e sempre tive uma elevada consideração pelo João Rendeiro.
    É um excelente líder, cordial, frontal e honesto com TODOS os que o rodeavam.
    Ele é aquilo que se designa em linguagem informática, WYSIWYG (What You See Is What You Get) .
    Por isso, aproveitem a massa crítica e salvem a vossa massa enquanto é tempo…
    Saudações cordiais,

  10. Joaquim Cunha says:

    Seriam problemas do risco do capital ou do Capital de Risco?
    http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca—financas/detalhe/montepio_elimina_participada_com_menos_de_dois_anos_de_vida

    As garantias publicas para cobrir ativos podres da banca comercial, via linhas PME INVESTE, Crescimento, e afiliadas, e descontadas no BCE teriam sido insuficientes?

    250.000.000.000,00 and keep growing…
    O Estado a caminho do Comunismo convertido em washing machine.

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