subscribe: Posts | Comments | Email

Carlos Costa, Governador

1 comment

Mário Draghi indicou, Passos Coelho seguiu e Paulo Portas amochou. Eis a simples história da renovação do mandato de Costa como Governador.

De pouco valeram as críticas do CDS na Comissão Parlamentar de Inquérito e o claro desconforto do PS. Manda quem pode, obedece quem deve. Poucos analistas perceberam a dinâmica do que estava em jogo.

Passos Coelho sai claramente vitorioso de um duelo chave. Mostra que tem poder para definir questões decisivas até ao fim da legislatura e cimenta a aliança política com constituintes de decisiva influência.

O primeiro e decisivo constituinte a quem o Primeiro-Ministro agrada é o Banco Central Europeu. O BCE vê em Carlos Costa um “safe pair of hands”, ou seja uma pessoa confiável e portanto não hesitou em fazer saber a Passos Coelho o que devia ser feito. Acresce que o Governador do BdP passou a ser uma espécie de Governador PME pois a supervisão dos maiores bancos é feita diretamente pelo BCE.

Carlos Costa teve um papel central na chegada da TROIKA e no Programa de Assistência Financeira e, veja-se como Carlos Costa foi um obediente servidor do BCE na Resolução do BES. Aceitou tudo sem “tugir nem mugir”, incluindo o massacre dos clientes do papel comercial do GES. Um homem assim teria que ser recompensado.

E foi por isso que Pedro Passos Coelho entendeu – e bem, a meu ver – que sendo uma aliança com Merkel e o BCE o melhor caminho para Portugal se deveria cimentar esta estratégia com pessoas bem aceites em Frankfurt.

O segundo constituinte a quem Passos Coelho agradou foi a corporação dos banqueiros. Ou, querendo, da “brigada de reumático” dos banqueiros dado que o único banqueiro que resta no país se chama – com muito mérito – Carlos Rodrigues. Tudo o resto são empregados bancários – uns com mais mérito que outros – que lá vão andando enquanto não forem despedidos.

Mas seja como seja estas pessoas gerem as mais importantes empresas do país e Carlos Costa evitou que fossem nacionalizadas. Sem dúvida que Costa teve mérito ao resistir ao desejo da TROIKA em nacionalizar o sistema financeiro português e isso deu-lhe um importante crédito junto dos bancos. Os bancos sabem que Carlos Costa é um aliado e como poderiam trocar o certo pelo incerto?

E depois – last but not least – Carlos Costa foi sempre um fiel escudeiro do Governo e teria que ser recompensado. Veja-se como no caso do BES, Carlos Costa aceitou assumir sozinho o odioso da situação, quando é evidente para meridiano observador que o Governo teve uma parte muito mais relevante do que quis admitir.

Mas se os poderes fáticos estão com Carlos Costa formando irresistível coligação, a generalidade da opinião pública – e até da publicada – não está. Entende-se, compreensivelmente, que o BdP deixou que se desenvolvessem demasiadas trapalhadas sem atuação em tempo útil. Como o último e porventura mais chocante caso do chamado papel comercial do GES, atesta.

E mais, que as óbvias falhas de regulação não foram acompanhadas de um salutar exercício de autocrítica e regeneração. É certo que o principal responsável pelos desastres da regulação foi afastado para a prateleira dos Estudos Económicos mas isso foi muito insuficiente.

Sejamos claros, o Banco de Portugal é uma instituição profundamente doente com profissionais que não hesitam em faltar à verdade pensando que, assim, defendem a instituição. Uma tal entidade precisaria de profunda cirurgia. E não será obviamente Carlos Costa a fazê-lo.

O BdP será inevitavelmente uma instituição diminuída na sua credibilidade e vulnerável ao primeiro tropeção nas muitas “minas e armadilhas” que, infelizmente, se afiguram. A autoridade do BdP está claramente afetada – como o caso Montepio atesta – e isso não é nada positivo para o país.

Carlos Costa será o que sempre foi – um funcionário. Servirá humildemente os vários patrões que lhe forem aparecendo – incluindo António Costa, se eleito Primeiro-Ministro.

Com todos será diligente. Mas não se lhe faça a pergunta “para quê”?

  1. antonio almeida says:

    Caro Dr João Rendeiro

    Que acha destas questoes:

    Se os banqueiros que erraram e enganaram, tivessem sido sérios nas situações de crise e stress que houve,dando informações verdadeiras ao BdP e procurassem ajuda consentânea com as necessidades evidentes, o Dr Carlos Costa não tinha tido um desempenho altamente positivo?

    A actual e nova intervenção do BCE na regulação e como tal secundarização do BdP, não sera um braço mais forte e melhor preparado para detectar essas situações?
    Não sera a mesma diferença entre uma investigação do FBI ou Scotland Yard e PJ?

    Cpts

    AA

Leave a Reply