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BALSEMÃO EM RISCO

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Francisco Pinto Balsemão vai ter, em breve, uma das mais improváveis reuniões de negócios da sua vida empresarial. Uma reunião “normal” resultará numa queda das ações da IMPRESA de uns 40%.

Do outro lado da mesa estará o emigrante Armando Pereira, hoje um dos homens mais ricos da Europa. Também cofundador da ALTICE e, por via disso, Presidente da PT.

O presente contrato da SIC com a PT/MEO termina no corrente ano. Esta negociação tem contornos dramáticos para Balsemão, dada a dependência da SIC destes proveitos.

Fruto de uma extraordinária negociação com a anterior gestão da PT, Francisco conseguiu que a PT lhe pagasse uns € 30 milhões por ano para poder oferecer nos seus pacotes MEO os canais SIC.

Na casa ao lado, na TVI, a PT paga uns € 6 milhões. Será que se justifica que a PT pague mais € 24 milhões à SIC, apesar do maior número de canais disponibilizados?

É certo que o, largamente superior, “Power Ratio” da SIC merece uns 40% de prémio sobre a TVI, ou seja, um contrato de uns € 8 – 10 milhões por ano. Tudo o resto só poderá ser atribuído a um “prémio Balsemão”, ou seja, à sua capacidade de negociação pessoal.

Conseguirá  Francisco ?

Um corte de € 20 milhões nas receitas anuais da SIC a partir de 2016 – derivadas desta renegociação com a PT/MEO – teria um brutal impacto na valorização da IMPRESA. Na ausência de outras fontes compensatórias, quer nas receitas quer nas despesas, o EBITDA perderia metade do seu valor. O Price – Target da IMPRESA baixaria para uns € 0,52 por ação, ou seja, uma queda face ao preço de Bolsa de uns 40%.

Vejamos como esta história se pode desenrolar .

A IMPRESA tem um conceito estratégico relativamente simples mas uma operação muito complexa. Em estratégia trata-se de apostar tudo na Televisão e, depois, no Digital, para contrabalançar o forte declínio do Publishing – do EXPRESSO em particular.

Isto mesmo mostram as métricas centrais de negócio.

O negócio televisão SIC tem um valor de mercado de uns € 470 milhões; a VISÃO e as outras 12 revistas valerão uns € 30 milhões e o EXPRESSO valerá uns € 20 milhões. A estes valores de negócio devem ser subtraídos um valor negativo de uns € 45 milhões relacionados com os custos da holding Impresa e outros negócios marginais. E também, o valor da dívida total líquida do grupo – cerca de € 180 milhões.

Esta valorização, evidentemente, está apoiada na capacidade de geração de valor das distintas áreas de negócio. No total de receitas do grupo em 2014 de uns € 240 milhões, a SIC obteve € 180 milhões, as revistas cerca de € 36 milhões e o EXPRESSO cerca de € 24 milhões.

Em 2014, o total de receitas de publicidade da área de negócio Publishing foi de € 26 milhões, dos quais as revistas representaram € 14.5 milhões, o EXPRESSO € 9.5 milhões e o Digital € 2 milhões.

Mas o desnível de criação (ou destruição) de valor é ainda mais dramático em termos do resultado bruto antes de imposto e amortizações, o chamado EBITDA.

Para um total de EBITDA do grupo Impresa de uns € 30 milhões em 2014, a SIC contribui com uns € 31.1 milhões, as revistas com uns € 1.9 milhões e o EXPRESSO com uns € 1.4 milhões. A holding, bem entendido, teve um EBITDA fortemente negativo de uns € 4.2 milhões. Ou seja, se os custos da holding fossem atribuídos às unidades operacionais o segmento de Publishing teria resultados fortemente negativos. Mesmo assim, o EBITDA, por exemplo, do EXPRESSO não chega a 5% da SIC mostrando a real importância relativa destes meios no quadro da IMPRESA.

O excelente desempenho operacional da SIC acelerou-se a partir do segundo semestre de 2011. Foi nesta altura que o “Power Ratio” da SIC (variável crítica no mercado publicitário e indicador do poder de compra) iniciou uma trajetória muito positiva. Na realidade um verdadeiro esmagamento da TVI largamente resultante da aposta em novelas Portuguesas de produção própria.

De um valor inferior à TVI em 2011, neste momento o “Power Ratio” da SIC estará nos 1,5 e a TVI ameaça colapsar abaixo de 1.

Para uma similar quota de mercado com a TVI na zona dos 26%, a SIC tem cerca de 42% do mercado publicitário em televisão. Em resumo, sem que o pareça, de facto a SIC está a dar “um bigode” à TVI. Felizmente para a TVI há um limite físico de minutos que é racional a SIC utilizar. Não sei se Queluz tem noção da urgência da sua situação.

Defender o desempenho operacional da SIC e alargar a sua base de receitas nos mercados internacionais – nomeadamente Angola e Moçambique – com a produção de novelas próprias é a agenda do segmento televisão. Uma trajetória que se afigura sólida.

A agenda do segmento Publishing é bem mais defensiva para não dizer de sobrevivência. A VISÃO e as revistas têm tido, apesar do digital, uma queda relativamente contida do EBITDA. O seu ROIC (retorno nos capitais empregues) sendo positivo está, e estará, abaixo dos níveis necessários de viabilização de um negócio novo, mas aceitável para um negócio já existente.

Por sua vez, o EXPRESSO tem tido um desempenho operacional altamente negativo. A circulação do EXPRESSO caiu uns 30% nos últimos 6 anos, ou seja, uns 5% por ano e o mesmo aconteceu com as receitas publicitárias. O futuro desta área, bem ou mal, não será melhor. A gestão do Grupo espera uma degradação de receitas anuais do EXPRESSO de uns 5% nos próximos 5 anos também. O ROIC do EXPRESSO (que, felizmente, ninguém se atreve a calcular) seria fortemente negativo.

Para contrabalançar o forte declínio de receitas da área Publishing é feita uma forte aposta no crescimento da área digital. Os sites da Impresa têm já cerca de 3.5 milhões de visitas por mês e as receitas nesta área estão a crescer a 20% ao ano – naturalmente de uma base muito baixa, ou seja, € 2 milhões.

Transformar cliques em euros é já clássico como difícil desafio no mundo digital. Mas a IMPRESA está a fazer o seu caminho.

Não obstante, seria muito bom, no meu entender, se o Digital conseguisse suster a forte queda de receitas dos produtos impressos. Ou seja, se o segmento Publishing da Impresa pudesse manter, no futuro, o seu valor atual.

Tudo isto torna clara a importância nevrálgica das receitas da SIC na estabilização do grupo e como a negociação com a PT/MEO é importante. A bem sucedida recuperação da IMPRESA nas sequelas da crise de 2008 pode estar em risco com esta renegociação.

Francisco Balsemão ganha por ano (pensão incluída) uns € 315 000 – bem menos que Pedro Norton, por sinal. Da sua capacidade de negociação resultará um valor para o contrato da SIC com a PT.

Pedro Norton creio que conseguiria € 8 a 10 milhões já bem negociados.

Francisco conseguirá mais.

Qual o valor do “prémio Balsemão”?

  1. Já houve acordo, qual o valor? que acha do acordo?

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