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GRÉCIA: ENTRE CHIPRE, ARGENTINA E VENEZUELA

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O Mundo segue com perplexidade os ziguezagues de Tzipras e Varoufakis.

Como se diria em inglês: “design ou default”? Ou seja, os avanços e recuos do Syriza fazem parte de um plano friamente concebido ou são o resultado de um conjunto de decisões imediatistas em permanente fuga para a frente?

Provavelmente nunca ninguém saberá porque a agenda do Syriza é eminentemente contraditória. O povo Grego em mais de 80% quer o EURO mas a atuação concreta de Tziras/Varoufakis vai no sentido oposto.

É certo que as “afirmações” da liderança do Syrisa vão no sentido da permanência do EURO. Mas as ações vão exatamente no sentido contrário. A verdade é que os Gregos já retiraram uns €100 mil milhões do sistema bancário, estimando-se que terão “em dinheiro” uns €40 mil milhões. E estes até ganhariam com uma desvalorização.

Estas contradições parecem inerentes à própria composição política do Syrisa que é bem mais uma “frente popular” de que um partido político hierarquizado. Os ziguezagues de Tzipras são uma forma de ir contentando tudo e todos na sua base de apoio.

Por enquanto já conseguiram algo de monta: alienar definitivamente o GOODWILL dos credores europeus, Alemanha em particular, e dos investidores internacionais, nomeadamente os hedge-fund americanos que investiram uns € 10 mil milhões nos bancos gregos. Reganhar a confiança destes credores e investidores não vai ser fácil.

O mais extraordinário – para mim – de tudo isto é que Tzipras/ Varoufakis têm um fundo de razão. E têm mesmo o apoio intelectual de especialistas americanos e europeus de qualidade inquestionável. Jeffrey Sachs é muito claro quanto ao beneficio para a Grécia de um default; Krugman e Stiglitz quanto ao beneficio de uma saída do EURO; o FMI é claro quando à necessidade de um novo “hair-cut” da dívida; enfim, o próprio FT está dividido entre o SIM e o NÃO de tal forma que o insuspeito Martin Wolf não saberia como votar.

Não faltam, portanto, baterias intelectuais insuspeitas que apoiariam uma posição no sentido de termos ainda mais favoráveis para a Grécia numa negociação europeia.

Porque não fizeram Tzipras e Varoufakis como Lenine em Brest-Litovsk ou Álvaro Cunhal em 25 de novembro de 1975? Dois passos atrás, um passo adiante: Lenine acabou por ganhar tudo e o PCP é uma instituição respeitada no quadro democrático de Portugal. Mas não. Tzipras/Varoufakis à beira do precipício deram um passo em frente.

Mas porque se chegou então a um tão catastrófico impasse? Como é que um especialista em “teoria de jogos” como Varoufakis chegou, aparentemente, ao pior resultado possível? Será que é possível postular que o pior resultado possível era o resultado desejado? Quanto pior melhor?

Convém talvez não esquecer que em 1980 Tzipras fundou um partido comunista pró-soviético. E que a ideologia do Syrisa é anticapitalista sendo que usam o debate anti-austeridade como arma de arremesso para a saída do EURO. O Syrisa sabe que mais de 80 % dos Gregos quer o EURO e não podendo combater diretamente o debate do EURO , inviabilizam a sua funcionalidade .

Escrevo este texto no sábado 4 de julho, isto é na véspera do referendo. Os últimos dados apontam para um empate técnico no referendo e portanto na segunda-feira tudo pode ter mudado. Mas numa situação tão fluida e num pais dividido ao meio quais são os cenários que se colocam mesmo para além de 2a feira?

Prevejo uma vitória do SIM amanhã – o que corresponde, de resto, com os meus desejos dos melhores votos para os Gregos.

Isto facilitaria o cenário Chipre.

No cenário Chipre, basicamente, haveria um terceiro resgate no montante de uns €60 mil milhões mas também um “Bail In” dos bancos Gregos. Haveria um perdão de dívida (digamos uns 30%) e melhores (ainda) condições de juros e maturidades para mostrar a solidariedade europeia. A condicionalidade seria muito dura, verdadeiramente numa perspectiva – “ou vai ou racha”.

O “ Bail In” dos bancos Gregos faria apelo, tal como em Chipre, aos detentores de divida subordinada e sénior bem como aos depositantes. O controlo de capitais continuaria seguramente por mais dois anos, pelo menos, mas o limite diário de levantamentos nas ATM poderia ser aumentado.

O PIB de Chipre nos dois anos seguintes ao “Bail In” caiu uns 10%. Na Grécia não seria diferente e portanto a austeridade continuará a ser a palavra dominante.

A União Europeia, neste cenário, vai seguramente montar um gigantesco programa de ajuda humanitária à Grécia deixando claro que existe solidariedade.

A questão que me coloco é se o sistema político aguentaria mais esta dose de austeridade . Restará saber se a demissão de Tzipras levará à sua substituição como Presidente do Governo deixando uma janela de oportunidade para o seu renascimento mais tarde . Evidentemente a solução ideal seria Tzipras ficar em gestão e ser forçado a negociar e implementar o 3º resgate. Seria um cadáver político no próximo ato eleitoral.

Um NÃO amanhã coloca em andamento o cenário Argentina.

O BCE encerrará, de imediato, a ELA e os bancos Gregos não terão um cêntimo para as ATM. Os fluxos financeiros em Euro cessam imediatamente e o Governo Grego não terá outra forma de efetuar pagamentos que não seja emitindo uma moeda paralela ao Euro. Haveria, por assim dizer, um duplo câmbio sendo que a “nova moeda” valeria – na melhor das hipóteses – uns 50% do Euro.

A efetiva desvalorização de 50% traria uma brutal espiral inflacionista com pouco impacto no crescimento pois a economia Grega exporta apenas uns 10% do PIB.

Num tal cenário a miséria social e a desigualdade serão galopantes. Devo confessar que me espanta que políticos e intelectuais de “esquerda” possam contemplar um tal cenário.

Mas isto mesmo, contemplam os Keynesianos americanos de esquerda. Veja-se o que escreveu Krugman no NYT em 29 de Junho “Greece over the Brink” e Stiglitz no Hufftington Post no passado dia 30 e Junho: “Argentina shows Greece there may be life after default”.

Se eu não tivesse lido não acreditaria. Colocar a Argentina como cenário aspiracional para quem quer que seja é teorização que eu jamais me atreveria a fazer. Mas o desespero de Krugman e Stiglitz leva aqui.

O problema é que tudo isto pode levar ainda a algo bem pior.

Ao cenário Venezuela.

As relações próximas do Chavismo com o PODEMOS e o SYRIZA, incluindo o seu financiamento, são conhecidos. E a participação direta de Nicolas Maduro a favor do NÃO na campanha do referendo não deixa muitas dúvidas.

A saída da Grécia do Euro levaria a um caos financeiro inimaginável e a uma recessão sem precedentes. Este quadro de caos é o fermento natural dos autoritarismos.

Não será por acaso que o partido neo-nazi Aurora Dourada está ao lado do Syrisa na campanha do NÃO. As franjas totalitárias sabem muito bem que o tumulto social é a única forma de chegarem ao poder esmagando a democracia. A história está cheia de golpadas totalitárias e a própria forma como Tzipras colocou a questão em referendo não me permite augurar nada de bom.

A vitória do SIM dá uma réstia de esperança.

A vitória do NÃO levará a uma inacreditável deriva totalitária.

 

 

 

 

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