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A Grécia e o erro de Krugman

3 comments

Entre outros infortúnios calhou à Grécia ser cobaia das lutas anti-austeridade.

Derrotados no seu país pela forte recuperação da economia e do emprego americano, Krugman, Stiglitz e os seus “compagnons de route” do Keynesianismo de esquerda transladam, agora, para a Grécia a sua fronteira anticapitalista.

Como parêntesis, acho curioso este epiteto de “Keynesiano de esquerda” pois em 1975 na iminência de uma ditadura comunista em Portugal eu era apelidado de “Keynesiano de esquerda” no ISE – um grave desvio de direita na época que provavelmente ditaria a minha prisão se o PC fosse vencedor em 25 de novembro de 1975. Quem viveu – como a minha geração universitária – os combates estudantis, simultaneamente contra a polícia política/PIDE e os novos totalitarismos Leninistas, Trotskistas e Maoístas, impressiona-se muito pouco com chavões populistas. E é isso justamente o que pareceu a Grécia dos últimos 6 meses: um laboratório das lutas estudantis com 30 anos de atraso.

Pobre país.

O argumento de Krugman e Stiglitz é inacreditavelmente simples. A Grécia está asfixiada em dívida e precisa de crescer, jamais o conseguirá com esta taxa de câmbio. Precisa muito simplesmente de não pagar as suas dívidas e desvalorizar fortemente com a introdução de uma nova moeda.

A Argentina – publicou Stiglitz para que não restem dúvidas – seria um excelente exemplo e passado pouco tempo da reintrodução do Dracma a Grécia voltaria a crescer. Como não pagaria a dívida tudo estaria no melhor dos mundos.

Hoje sabemos que Tzipras e Varoufakis conspiraram a partir de dezembro de 2014 preparando, em segredo, planos para a saída do Euro. Sabemos hoje, também, que Varoufakis deu instruções para, ilegalmente, fazer o Hacking do Ministério das Finanças Grego. Sabemos que o líder da ala esquerda do SYRIZA Panayotis Lafazanis apresentou em 14 de julho de 2015 – ainda Ministro da Energia – um plano de assalto à Casa da Moeda e prisão do Governador do Banco Central da Grécia, preparatório da introdução do Dracma.

É portanto completamente falso que, como argumentou maldosamente Krugman, o SYRIZA fosse tão incompetente que não tivesse um plano B, isto é um plano de introdução do Dracma. Tinha, mas Tzipras recuou no último minuto.

Porquê?

Porque não há um SYRIZA, mas dois. Um, de Lafazanis e Varoufakis – apoiados por Krugman e Stiglitz – sempre pretenderam a saída do EURO. Outro, o SYRIZA de Tzipras pretendeu utilizar a pretensa saída do EURO como arma de chantagem para receber mais dinheiro.

O problema da chantagem Grega foi esquecer que outros poderiam estar interessados na sua saída do EURO. Varoufakis nunca percebeu que não tinha nenhum trunfo e a sua teoria de jogos caiu estrondosamente. À Alemanha poderia, afinal, interessar a saída da Grécia do EURO por assim aterrorizar a França e conseguir vantagem no tabuleiro central europeu.

Um jogo Franco-Alemão muito complexo pois não há dúvidas que têm muito interesse para a Alemanha a permanência das periferias pouco competitivas no EURO. O EURO está subavaliado para a Alemanha e apresenta vantagem competitiva internacional como demonstrou recentemente Ben Bernanke.

Quando o “bluff” grego não surtiu efeito Tzipras capitulou. E Stiglitz – recém-chegado de Atenas – capitulou também e já não fala mais da saída da Grécia do EURO. Dedica, agora, a sua tónica aos aspectos técnicos do programa de ajustamento, nomeadamente à questão do “leite fresco”. Como se pagar leite muito mais caro em Atenas do que Paris ou Londres fosse uma grande conquista dos Gregos.

Sucede que mais de 70% dos Gregos não querem – seja qual seja a austeridade adicional – sair do EURO. Parece ser claro para os Gregos que existe algo bem pior do que a austeridade. A incompreensão disto parece-me constituir o “erro de Krugman”.

Krugman, Stiglitz, et al. erram desde logo ao colocar todo acento tónico na dívida e na necessidade da sua renegociação.

É um absurdo.

Toda a gente sabe que a Grécia não vai pagar a sua dívida e que um substancial perdão – nas múltiplas formas possíveis e imaginárias – vai acontecer à pala dos contribuintes Europeus – portugueses incluídos.

Mais.

O reescalonamento já feito, não coloca a dívida Grega como questão central do Orçamento de Estado Anual pois os encargos com a dívida na Grécia são menores do que em Portugal.

A questão Grega está muito para além da dívida. Alguém responsável – como Krugman deveria ser – que coloque um ecrã sobre os problemas reais está na verdade a prestar um péssimo serviço ao povo Grego.

Na Grécia, o problema da dívida já era.

Mas então quais são os problemas reais da Grécia?

São as questões que um partido revolucionário deveria abraçar, se o SYRIZA o fosse. O deputado Europeu Guy Verhofstadt definiu magistralmente em Plenário do Parlamento Europeu o que implicaria uma tal agenda.

Abro um parêntesis para lembrar um jantar de março corrente em Bogotá onde discuti detalhadamente a situação Grega com um dos seus mais importantes empresários.

Deu-me este meu amigo, sem eu acreditar na altura devo confessar, o caminho das pedras.

Disse-me, mais ou menos textualmente, “Tzipras tem uma magnífica oportunidade de ocupar o centro político, se não o fizer escolheremos outro”.

Neste período, confesso, tive as maiores dúvidas desta capacidade da oligarquia Grega controlar o futuro político de Tzipras.

Mas, “Si non e vero, benne trovato”. A verdade é que Tzipras está a ocupar o centro político, o que o pode catapultar para figura central da política Grega por muitos anos, tal como o meu amigo previu.

Mas a questão de fundo continua sem responder.

Porque preferem os Gregos mais austeridade ao quimero crescimento económico associado à saída do EURO tão apregoado por Varoufakis e Krugman?

Deve notar-se, em primeiro lugar, que os Gregos viveram com o Dracma até 2001 – data da sua adesão ao EURO.

Nos 20 anos até 2001 o Dracma desvalorizou 82%. Passados 15 anos de prosperidade económica sem precedentes, os Gregos não esqueceram o que significa viver na espiral inflação/desvalorização. E como essa receita não resolveu à época nenhum dos seus problemas económicos. Mas os Gregos lembram – se de mais.

Do seu posicionamento histórico no Império Otomano, da brutal guerra de independência com a Turquia e a não menos brutal luta nacionalista com o exército nazi.

E lembram-se ainda de mais.

Como têm sido enganados pelos seus corruptos líderes políticos e como o sistema político foi capturado por interesses particulares.

O EURO – por mais austeridade que tenha – parece um bom preço a pagar pelo bom Povo grego, como âncora externa chave perante os desmandos de quem se quer sentar à mesa do Orçamento. Ou das ameaças externas nos voláteis Balcãs.

Lamentavelmente, alguns economistas brilhantes não entendem verdades tão elementares que um naco de cultura histórica iluminariam.

É este o “erro de Krugman”.

 

  1. Paulo Duarte says:

    Depois de o Dr. João Rendeiro me responder a duas perguntas, estou disposto a ponderar os seus argumentos a respeito do euro e da dívida. As perguntas são estas:
    (i) concordaria com o regresso do padrão-ouro?
    (ii) como justifica o facto de os bancos comerciais poderem criar dinheiro “out of thin air” (para evitar suspeitas de radicalismo de esquerda, assumamos ambos, para este efeito, o que, sobre a matéria, defende a escola austríaca)?

    Paulo Duarte

  2. Ruy Arriaga says:

    Só posso concordar. Sempre me fez espécie Krugman e não só poderem defender a saída da Grécia do Euro.
    1º Os males da corrupção e da evasão fiscal nada têm a ver com o Euro ou com o Dracma. Nada mudaria fora do Euro. O mesmo se palica a Portugal.
    2. A desvalorização brutal do Dracma quando ele surgisse fruto da desconfiança nos mercados na economia Grego e nos governantes gregos atiraria as reformas dos pensionistas para 40% do que hoje recebem. Os gregos sofreriam de uma vez só uma desvalorização de 60%. Não ficariam bem piores do que hoje estão. Para Portugal seria o mesmo. A desvalorização/inflação é o fruto de uma má gestão interna, de falta de rigor, em suma, de falta de competitividade, disfarçando a baixa de salários e de pensões com inflação. TUdo isto nós passámos e deveríamos ser sensíveis.
    3. O que falta à Grécia é economia, é empreendedorismo, criatividade e inovação. Aquilo que nos falta a Portugal mas que nós vamos fazendo por isso, hoje bem mais que no passado, mas que está faltando na Grécia.
    4. Por fim aquilo que foi dito por JOR no artigo. A vontade dos gregos de ficarem no Euro como forma de controlar os desmandos dos governantes gregos. As regras da Zona Euro condicionarão as arbitrariedades dos governantes. Foi para isso que surgiu o SEMESTRE EUROPEU.

    Enfim é natural que venha a haver uma reestruturação da dívida com um perdão parcial. É do interesse da UE e até do Ocidente que tal aconteça. Mas tais ajudas dependerão da vontade do governo grego de reformar o país naquilo que obrigatoriamente tem que ser feito e que tem tardado muito.

  3. João Jardine says:

    Bom dia João Rendeiro

    Não sei se ainda vai a tempo mais um pequeno comentário sobre o seu post.
    Porque o tema é muito complexo, atrevia-me a só lhe apresentar alguns apontamentos:

    a)Krugmann é um economista com um prémio Nobel, não me parece que seja um político profissional nem, que eu saiba (as pessoas informadas) lhe pedem (ou querem) opiniões fora do campo da sua especialidade. Usar fora do âmbito é como usar, em emergência, um formão como chave de fendas. (Sabe que, se persistir nessa utilização nem o formão se torna uma melhor chave de fendas, e deixa de ser servir como um formão).
    b) Pego no comentário que ouviu de um empresário grego. É verdade que, a partir de certo nível, poder é dinheiro e dinheiro é poder. Mas existem limitações e existem exemplos com menos de cem anos que ilustram isso mesmo. Não creio que a oligarquia dominante grega e na presente situação tenha controle sobre a mesma (outra coisa diferente é influenciar) como pretende o seu interlocutor fazer crer.O esfarelamento da classe politica colocou a deriva social numa estrada sem retorno (isto é, destruiu irremediavelmente, o sistema político anterior) e, por isso, pode ser mais do que conveniente, acarinhar o presente que conhecem, do que saltar no escuro. Os extremos estão a crescer na Grécia e, existem exemplos de como pode correr (muito mal) apostas em soluções de rotura.
    c) O que pretendem os gregos é que pode ser onde reside o erro de paralaxe. Pode, a sociedade grega ser parecida com a portuguesa (e outras sociedades parceiras no euro) mas, isso é um mundo de diferença até passarmos a sermos iguais. Antes de mais, queria apenas recordar que só dois povos no mundo lêem (e compreendem) escritos na sua língua com mais de 1.000 anos: chineses e gregos. O resto do pessoal, textos com 250 anos ou mais, não entendem.É um fait divers que mostra que, talvez, possa existir (por parte da sociedade grega) menos “flexibilidade” para “moldar” a novas fórmulas. Também não é de bom tom o “racismo” dos colegas europeus (dos gregos) quando “com admiração” descobrem que podem existir sociedades, em pleno sec. XXI sem um estado “moderno”, (que basicamente se mede pelo grau da economia subterrânea que existe no espaço económico e pela capacidade de fornecer qualidade de vida aos seus reformados); ainda para mais sociedades com as quais partilham, há mais de 40 anos, uma aliança económica com algum grau de intimidade.
    Nesta perspectiva tenho dificuldade em vislumbrar onde é que o povo grego é bom e os dirigentes maus; são sempre necessários dois para dançar o tango.
    O que serve de introdução para a uma possível resposta à pergunta: claramente, os gregos não sabem, ainda, o que querem e, por isso, estaremos num compasso de espera até que decidam o que fazer. São mais de 1.500 anos de história e uma resiliência comprovada pelos factos que fundamentam, o ter usado a palavra “ainda” e suportam a asserção que o irão fazer, isto é, vão escolher. Tenho mais dúvidas que seja certo que a escolha seja, inexoravelmente como querem (no burgo local) fazer crer, ficar na zona euro. Porque, o que se pode concluir é que os gregos, querem poder conjugar o verbo escolher. Porque têm mais de 2.000 anos de existência, a probabilidade da decisão dos gregos se revelar a mais correcta, é, necessariamente superior aos dos seus colegas europeus.
    Do exposto, apenas para concluir que, a economia, é um capítulo da política. Os recentes acontecimentos em especial a sessão de psicoterapia do mês passado, apenas veio recordar isso mesmo e enquadrar o erro de Krugmann.
    Cumprimentos
    joão

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