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OS LESADOS DO BANCO PRIVADO PORTUGUÊS

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Disse publicamente e repito as vezes que forem necessárias que me sinto envergonhado por pertencer a um grupo profissional – os Financeiros – que geraram os “Lesados do BES”. Mas há “lesados” e “lesados” – convém separar as águas, usar de um mínimo de rigor e evitar generalizações.

Não tenho obviamente rigorosamente nada a ver com este caso BES. Mas ele representa um mal endémico na regulação do sistema financeiro: um olímpico desprezo pelos interesses dos clientes sempre que eles colidam com o interesse da instituição.

E o que ainda é mais lamentável é que quem devia estar na primeira linha da defesa do bem mais precioso do sistema financeiro – a FIDUCIA, a confiança no sistema – é quem mais a ameaça. Refiro-me, obviamente, ao Banco de Portugal.

O Banco de Portugal tem uma visão mesquinha e “strictu sensu” limitada da estabilidade financeira. Isto é, só interessam os impactos imediatos.

O Banco de Portugal não entende que quando os telejornais mostram manifestações de clientes lesados à porta do NOVOBANCO, o prémio de risco sobre toda a banca portuguesa que sobe imediatamente.

Não entende, que quando se destrói um aumento de capital, como o feito no BES, as dificuldades de captação de capital no futuro para os outros bancos portugueses ficam muito mais difíceis. Não entende, enfim, que quando, de forma absurda, coloca em causa as posições de investimento de grandes institucionais estrangeiros – como no caso da operação OAK FINANCE – aumenta em muito o prémio de risco dos ativos financeiros portugueses.

Uma visão alargada da estabilidade financeira e da proteção da FIDUCIA levaria o Banco de Portugal a evitar a todo o custo situações do género “Lesados do BES”. Porque, pura e simplesmente, no seu conjunto, os custos acabarão por ser sempre muito maiores do que os proveitos.

Mas assim não pensa o Banco de Portugal. Prefere uma absurda troca de galhardetes com uma completamente inoperante CMVM. A CMVM, uma suposta campeã da defesa dos clientes, na verdade, que defesa faz?

Nenhuma. No limite faz contraordenações que possam ser fontes de financiamento das suas despesas correntes.

Que belo edifício regulatório.

Os Tribunais darão razão aos “Lesados do BES” mas só depois de sujeitos a um calvário e pobreza forçada, como muito bem escreveu recentemente um Desembargador Jubilado. Serão ressarcidos financeiramente – embora daqui a muitos anos, pois verdadeiramente só o Estado lhes poderá pagar.

Mas nada compensará o desgaste emocional e o sentimento de perda de uma expropriação mesmo que limitada no tempo.

Penso em tudo isto e no paralelo que se pode estabelecer com os clientes do BPP como vi recentemente Nicolau Santos fazer no EXPRESSO.

Devo deixar claro mais uma vez que, no meu entendimento, qualquer situação de bloqueio temporário de património gera danos morais irreversíveis. Esse bloqueio, no caso do BPP, foi absolutamente desnecessário como demonstrarei abaixo e só ocorreu por incúria do Banco de Portugal e da CMVM.

Os clientes do BPP dividiam-se, na verdade, em dois grupos radicalmente distintos mas que, ainda hoje, são confundidos por algum comentador.

Um grupo de cerca de uns 300 clientes tipicamente de grande dimensão financeira, investia em média mais de € 1 milhão em estratégias de investimento de alto risco e alto retorno (ou alta perda evidentemente). Esta área de negócio não-bancária chamava-se “Private Equity” e era dirigida nas suas decisões de investimento por mim próprio apoiado por uma equipa que não dependia da hierarquia do Banco. Foi esta área de negócio que levou os Media a apelidar o BPP de “banco dos ricos”.

Foi nesta área de negócio que se fizeram as grandes operações que verdadeiramente tornaram o BPP publicamente conhecido. Os investimentos na SOPETE, na CIN, na SOMAGUE, na ESTORIL-SOL, na JERONIMO MARTINS, na BRISA, enfim no MILLENIUMBCP – através da PRIVADO FINANCEIRAS. Estes investimentos foram feitos numa perspetiva ativista, vocalizando ideias e opiniões que tivessem impacto estratégico na criação de valor. Daí a sua grande visibilidade e uma percepção pública porventura muito superior à sua dimensão real.

Realizaram-se mais-valias fenomenais nesta área de negócio de mais de € 650 milhões (só na JERONIMO MARTINS ultrapassaram os € 450 milhões ) . Mas, com a crise financeira, importantes menos-valias também.

Nas menos –valias pontuou o conhecido caso BCP/PRIVADO FINANCEIRAS onde os investidores ( incluindo eu próprio )perderam € 200 milhões . Sabe-se , hoje , que perdemos na secretaria num jogo viciado . Enquanto eu pensava estar a investir segundo as regras do mercado de capitais supervisionadas pela CMVM, estavam outros a conspirar em jogos político-financeiros com o Alto – Patrocínio do então Primeiro – Ministro José Sócrates .

Mas seja como seja , apesar deste investimento muito desapontador , a área de negocio do Private Equity do BPP gerou , a final , mais-valias liquidas das perdas referidas superiores a € 350 milhões . Seguramente , a distribuição deste montante pelos investidores foi muito assimétrica mas posso assegurar que o investidor que mais ganhou foi , também , o meu maior crítico depois .

Na gestão de investimento – como na vida em geral – não se pode esperar gratidão .

A segunda área de negocio do BPP era o chamado Retorno Absoluto ( RA) . Cerca de 3 500 clientes/ titulares investiram € 1 125 , 8 milhões (ou seja cerca de   €300 000 por cliente) , numa aplicação financeira de baixo risco), com retorno próximo do mercado obrigacionista e com o regime fiscal das mais-valias. Quando se fala em “lesados do BPP” são estes clientes a referência.

Na sequência da crise financeira de 2008 e do bloqueio dos mercados de liquidez no final desse ano, o BPP – tal como todos os outros bancos – viu-se na necessidade de – em contra garantia dos ativos de que dispunha – solicitar apoio de liquidez ao Banco de Portugal. O BPP recusou – e penso que muito bem – vender os ativos ao desbarato na pior altura dos mercados e assim proteger o património dos clientes. Só, assim, depois lhes pôde pagar, como veio a pagar.

O Banco de Portugal estruturou com o Estado um empréstimo de €450 milhões e exigiu a minha demissão. Neste contexto, o BdP bloqueou as aplicações de RA e durante mais de um ano os clientes RA do BPP viveram na incerteza do que poderia acontecer.

Os investimentos em títulos que lhes pertenciam estavam, afinal, intactos no BPP vindo a constituir um Fundo de Investimento (FEI). Existia, na realidade, liquidez para distribuir pelos clientes para necessidades urgentes de tesouraria mas houve pouca sensibilidade – para não dizer completa arrogância – para o fazer. A angústia dos clientes RA do BPP manifestou-se publicamente e ficou a imagem pública de que de alguma forma os seus patrimónios teriam desaparecido.

Não quero, de nenhuma forma, desmentir o dano moral que os clientes de RA do BPP sofreram, mas é meu dever contar a verdade. E a verdade é que os patrimónios dos clientes de RA do BPP foram completamente protegidos.

O FEI foi constituído em abril de 2010 e valorizou-se em 11,6% por ano. Fruto disso, mais de 90% dos clientes – e num horizonte curto 100% – já têm assegurado o seu património na sua totalidade.

Mais extraordinário, um número muito grande de clientes – que estimo em 20% – já recebeu muito mais do que tinha direito. Muito mais, significa 20 a 50% a mais do que tinham direito.

O FEI por mais estranho que pareça já pagou € 42,6 milhões de impostos de mais-valias ao Estado e permanecem importantes créditos dos clientes sobre a massa insolvente do BPP.

A massa insolvente do BPP amonta neste momento a cerca de € 900 milhões, mais do que suficiente para pagar o crédito de € 450 milhões do Estado e quaisquer outros créditos remanescentes. Isto demonstra que o BPP era perfeitamente viável – com um aumento de capital evidentemente, tal como todos os outros bancos.

Onde estão, então, os lesados do BPP?

Houve certamente lesão moral no RA do BPP mas lesão material – que fique claro – não haverá.

Mas há, sem dúvida, lesados materiais no BPP.

São os seus acionistas, comigo, Francisco Balsemão e Stefano Saviotti à cabeça de uns outros cerca de 300 investidores.

Os acionistas do BPP defenderam muito mal os seus interesses, é certo. Mas tinham pela frente uma imbatível coligação negativa apadrinhada por José Sócrates.

Que tenham optado por proteger a sua imagem pessoal e colocado todo o ónus em cima de mim, até eu compreendo.

Mas o seu património pagou por isso.

E não se queixem.

  1. Carlos Cardoso says:

    Devo,por consciência,expressar a minha concordância,na generalidade,com a análise e as críticas aqui expressas pelo Dr.João Rendeiro.
    Sou,por infelicidade,válida testemunha.
    Pertenço ao grupo dos clientes do apelidado “Retorno Absoluto” que,acredito,irei conseguir reaver até ao término previsto do Fundo FEI a 30 de Março do próximo ano,a totalidade dos depósitos que confiei ao BPP em Janeiro de 2008,apenas 10 meses antes do seu “colapso”.
    Fui dos mais acérrimos lutadores por esta causa.Só nunca jamais conseguirei reparação para os danos morais e psicológicos causados por tanta angústia e revolta que sofri.
    Lamentávelmente,num país mal frequentado,gerido por gente hipócrita e medíocre,a história repete-se vezes sem conta….

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