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PERDEU-SE O FAROL DO PS

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Realizam-se de hoje a oito dias, a 4 de Outubro, as eleições legislativas de 2015.

As sondagens apontam para um claro ascendente da Coligação liderada por Pedro Passos Coelho que poderá chegar mesmo à maioria absoluta. Mas os indecisos são ainda em número muito grande e o resultado estará em aberto até ao final.

Por mim a Coligação obterá uma maioria absoluta para governar os próximos quatro anos e eu terei que mudar de canal sempre que aparecer o detestável Paulo Portas – de novo, Vice-Primeiro Ministro. A Coligação ganhará pelo benefício da estabilidade e pelo medo que o eleitorado tem de colocar em risco o estreito caminho de recuperação económica e social em curso.

O eleitorado percebeu – com a Grécia – que há coisas muito piores do que a austeridade e foi esse grande Farol, central na candidatura de António Costa, que desnorteou – penso que de forma irreparável – a candidatura do PS.

Receio bem que, nessas circunstâncias, António Costa não tenha alternativa a demitir-se da liderança do PS e assim se perderá o melhor político da sua geração.

Como é que um político do alto calibre de António Costa perde uma eleição que tinha tudo para ganhar?

No meu entender António Costa perderá rotundamente as eleições por – inter-alia- quatro razões fundamentais:

-pela implosão do argumento dívida/austeridade;

-pela incompreensão do ciclo económico;

-por falhar na rutura com a “era Sócrates”;

-pela incompreensão das dinâmicas sociais.

As duas primeiras razões fundamentais são da área económica e se António Costa perder as eleições bem pode o PS despedir toda a sua equipa económica por pura incompetência.

O PS centrou toda a sua campanha em temas económicos. Esqueceu praticamente até à última semana os temas sociais como a Saúde e a Educação. Dir-se-ia que tinha uma história arrasadora para a Coligação em matéria económica. Mas não é verdade.

Durante anos o PS não teve outro argumento contra o Governo que se não centrasse na necessidade de renegociar a dívida. Isso abriria espaço orçamental para o crescimento da despesa do Estado e daí um maior crescimento económico. O PS atrelou-se a todas – mas todas – as iniciativas associadas à reestruturação da dívida externa portuguesa sendo, por exemplo, um ponto focal o livro sobre a matéria de Pedro Adão e Silva – que agora se pretende que nunca foi editado. A reestruturação da dívida (podendo nalgumas variantes incluir perdão) era questão de vida ou morte no combate contra os exploradores imperialistas credores que, afinal, só tinham confiado que Portugal lhes pagaria o que lhes pediu no prazo e juro contratado.

Não obstante, a experiência grega mostrou que os credores internacionais não estão mais disponíveis para cheques em branco para dívida adicional. Apoiarão, sim, mas com condicionalidade. E condicionalidade cada vez mais pesada e portanto a alternativa à austeridade é “maior austeridade”. E a alternativa a “maior austeridade” é mesmo a saída do EURO.

E pelos vistos ninguém quer mesmo sair do EURO – e eu percebo perfeitamente porquê.

A experiência Grega fez ruir pela base a bandeira de renegociação da dívida. António Costa – imprudentemente – numa primeira fase pensou que a vitória do SYRIZA lhe dava força e argumentos. A derrota de Alexis Tzipras no seu embate com a União Europeia levou o PS a sair rapidamente de cena nesta matéria e nunca mais ninguém do PS falou da re-estruturação da dívida. E fugiu mesmo deste tema como o Diabo da Cruz.

A implosão do argumento dívida/austeridade retirou ao PS um dos seus principais argumentos de campanha. Foi um abalo importante mas não houve jogo de cintura para uma reação estratégica em tempo útil.

Em segundo lugar, os economistas do PS revelaram uma fraca compreensão do ciclo económico português e europeu. Pareceram tão ilusionados com a teoria da espiral recessiva – ligando a dívida à austeridade à recessão – que subestimaram a importância da decisão do BCE em enveredar pelo Quantitative Easing, com todas as suas implicações para as taxas de juros e o estímulo monetário ao crescimento.

Os economistas do PS subestimaram claramente o impacto do crescimento das exportações, da recuperação dos mercados imobiliários – sobretudo de Lisboa e Porto –, do fortíssimo crescimento do Turismo e seu impacto, por exemplo, na restauração, enfim de uma forte subida da confiança dos consumidores. Que tudo isto tenha desembocado em melhorias nos índices do desemprego pareceu surpreender o PS.

A incompreensão do ciclo económico pelos economistas do PS parece uma evidência. E o PS montou um programa económico para uma conjuntura com um ano de atraso.

Se é certo que os mais afectados pela austeridade – funcionários, pensionistas – o continuam a ser, há todo um outro país para o qual o discurso da austeridade não faz hoje qualquer sentido. É mesmo contraproducente pois quem, pelo seu labor diário, venceu a austeridade não pretende receber lições ou lhe relembrem o mais difícil.

Os economistas do PS montaram a ratoeira em que, estrategicamente, se prenderam. O Governo tinha feito tudo mal na sua ânsia da espiral recessiva. Nada de positivo tinha acontecido no país. Ficou, assim, António Costa desarmado perante as evidências indesmentíveis.

Há um país a progredir num caminho estreito e difícil. Os portugueses têm a noção de que não há grande espaço para aventureirismo e risco. A Coligação ganhará por dar garantias de não colidir com a trajetória em curso. O PS ao prometer mais, tornou-se menos credível.

António Costa ao brandir na Televisão uma resma de papel com o programa económico do PS pensou que estava a exibir um trunfo definitivo. A verdade é que uma resma de papel não passa disso mesmo – uma resma de papel. O programa económico do PS revelou-se um forte handicap para o seu líder.

Mas se os erros na frente económica não bastassem. O PS fez erros, a meu ver, crassos na frente política. E na frente política não há como escapar, esses erros são da responsabilidade pessoal de António Costa.

Refiro-me em primeiro – e mais importante – lugar ao rompimento político de António Costa com a “era Sócrates”. É certo que António Costa colocou distâncias com Sócrates e lhe terá mesmo dado uma grande “pantufada” no debate com Passos Coelho. Mas são distanciamentos cifrados e o pessoal político de Sócrates está todo perto do atual líder.

Eu reconheço – e até aprecio – as razões de solidariedade pessoal e continuidade histórica que são muito próprias à identidade do PS. Mas uma renovação pelos serviços mínimos dá a noção de um partido conservador nas ideias e mera máquina de poder.

A ruptura com a “era Sócrates”, no meu entender, seria fundamental para uma afirmação plena da liderança de António Costa. Porque esta “era Sócrates” não foi um período qualquer. Foi um dos períodos mais negros da História Contemporânea de Portugal, onde um Primeiro-ministro usou o poder político para em concubinato com interesses económicos dominantes criar em Portugal um capitalismo de Estado sul-americanizado.

Um capitalismo de Estado onde o poder político controlasse o sistema financeiro (através da CGD, a aliança com o BES e o assalto ao BCP), controlasse as principais empresas do país através do GES e tivesse influência decisiva nos Media – daí a tentativa de controlo da TVI e a tentativa de cerco económico a Francisco Balsemão.

Todos sabemos como acabou a “era Sócrates”. Portugal acabou resgatado pelo crescimento exponencial da dívida pública sob o ar angélico de Teixeira dos Santos. O GES/BES – estreito aliado de Sócrates – ruiu fragorosamente nas barbas de um Banco de Portugal inoperante.

José Sócrates e Ricardo Salgado estão, agora, em prisão domiciliária.

E o que falta ainda por aparecer!

António Costa ao não se demarcar suficientemente desta deriva antidemocrática em que consistiu a “era Sócrates”,cometeu um pesado erro político. O país sabe que António Costa jamais poderia estar de acordo com esta deriva antidemocrática mas não assumir a ruptura dá lugar à noção de que todas as caldeiradas políticas são possíveis nesta liderança. A fatura eleitoral deste grave erro político será necessariamente muito grande.

Finalmente, António Costa errou politicamente por não integrar adequadamente as dinâmicas sociais em curso no Portugal de hoje.

As economias do novo milénio têm uma componente crescente do digital, das indústrias criativas e da inovação social. A relação laboral no novo milénio alterou-se radicalmente e a precariedade deixou de ser um risco e passou a modo essencial e orgulhoso de vida. Milhões de jovens de 20 e 30 anos vivem voluntariamente na precariedade por conta própria e não procuram – pelo contrário abominam – relações laborais estáveis ou permanentes.

Repetem no fundo modos de vida que sempre foram típicos das profissões Liberais: Advogados, Médicos, Arquitetos e tantos outros. Estes profissionais têm que fazer pela vida todos os dias e têm como regra comum o rendimento incerto. Mas têm também um controlo particular sobre a sua agenda diária e a gestão do seu tempo.

Estas áreas da chamada “nova economia” são difíceis de medir mas aparecem já entre nós exemplos de referência mundial. A FARFETCH tem hoje uma posição de mercado mundial sem paralelo na economia portuguesa. A eleição de Lisboa como sede da WORLD WEB SUMMIT nos próximos três anos como mínimo não pode deixar de ser assinalado.

Não encontro nas políticas do PS e muito menos na retórica linha de trabalho político que apelem às gerações digitais e à nova economia. Diria mesmo mais, estas gerações sentem muito mais apelo por um discurso anarquizante do Bloco de Esquerda bem mais próximo do culto da individualidade do que o discurso estatizante do PS. As gerações digitais não gostam do Estado Providência.

O discurso político do PS está, assim, muito mais centrado em elementos mais estáticos da sociedade portuguesa, como os funcionários e pensionistas. E muito menos nos elementos dinâmicos, como os jovens empreendedores da economia digital.

Na combinação dos quatro grandes fatores que enunciei encontrará António Costa as razões para uma derrota eleitoral cuja vitória estaria ao seu alcance e a sua qualidade pessoal mereceria. Faltou a António Costa um adequado staff que o ajudasse em tão grande tarefa. O seu staff, particularmente o económico, falhou rotundamente.

Nas circunstâncias, só um milagre impedirá Pedro Passos Coelho de obter uma histórica maioria absoluta em 4 de Outubro de 2015.

  1. Rui Alves says:

    Um texto racional, uma visão simplista e assertiva, parabéns.

  2. Vasco Alves says:

    com o desconto de estar a muito fora de Portugal ( vou la estar proximamente ) a via do endividamento seguida por paises como a economia Portuguesa e bastante discutivel; O facto de os sectores rentistas estado e banca incluido terem os seus euros garantidos vindos de fora ajudam a moldar a ” opiniao publicada ”
    maioria absoluta a existir e motivada sobretudo por desconhecimento de causa; ( As pessoas nao conhecem o mundo em que vivem, foram a badajoz comprar caramelos e disseram-lhes que os salarios sao maiores mas o desemprego e 20 % e estao encantadas com Portugal as condicoes sao baixinhas mas as oportunidades vao existindo …
    grandes discrepancias existem entre empreendedores e pessoas que trabalham para terceiros o que se justifica temporariamente mas que nao pode durar para sempre ( em 2014 sairam 100 000 pessoas
    ) e a continuar o ritmo daqui a uns anos nao existem clientes …

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