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ANTÓNIO COSTA E A MAIORIA DE ESQUERDA

8 comments

Está traçado o horizonte político próximo. Teremos um Governo PS liderado por António Costa incluindo Ministros indicados pelo BE e pelo PCP. Será assinado um acordo de incidência parlamentar entre o PS, o BE e o PCP centrado no mínimo dos mínimos. Por um lado, cumprir as linhas vermelhas de Cavaco Silva e por outro, as reivindicações sociais do BE e do PCP. O programa do PS será o que restar e António Costa aposta tudo na investidura. Depois, logo se verá. E os portugueses que aguentem.

Tem assim lugar uma extraordinária transformação política de derrota em vitória. O claro derrotado da noite eleitoral vira Primeiro-Ministro e Passos Coelho e Portas ainda parecem espantados como isso aconteceu. É claro que a maioria de esquerda tem legitimidade constitucional mas não é menos claro que lhe falta legitimidade política.

O eleitorado não foi colocado perante uma opção de escolha direita/esquerda nas eleições e ninguém sabe verdadeiramente como seriam os resultados eleitorais se o fosse. Mas não tendo sido, não foi dado ao eleitorado o que o Código do Mercado de Valores Mobiliários chamaria de “informação completa e verdadeira” para uma tal opção política. António Costa e o PS seriam multados com uma coima gigantesca se fossem operadores financeiros.

É certo que António Costa na sua moção ao Congresso de investidura no PS deixou todos os elementos chave da sua presente estratégia bem escarrapachados. Mas também não é menos certo que essa era uma audiência partidária e em sede de eleições nacionais uma aposta de maioria de esquerda deveria ter sido explicitada.

E, manifestamente, não foi.

Tudo visto e somado António Costa vai a Primeiro-Ministro pela “porta do cavalo” e com a sua autoridade política diminuída. Mas bastará ter lido “Os Predadores” de Vítor Matos (Clube do Autor, 2015) para entender que muitos líderes políticos em Portugal – a começar por Marco António Costa – chegaram ao poder com metodologias bem mais questionáveis. E várias séries televisivas na Dinamarca, França ou EUA vão todas na mesma linha. Os políticos são capazes de tudo – mas mesmo tudo – para chegar ao poder. Quanto a moral e ética estaremos conversados.

O fascinante no golpe político de António Costa é ter sido tudo, afinal, tão à frente dos nossos olhos. Enquanto os golpes palacianos de “Os Predadores” foram autênticos golpes de predigistação onde urnas com votos poderiam aparecer ou desaparecer, jantares obscuros e promessas incumpridas poderiam arregimentar vassalagens, a verdade é que António Costa alcança o poder de forma democrática e transparente.

Enganam-se os que subestimarem a capacidade política de António Costa, uma vez empossado Primeiro-Ministro, pensando que vai soçobrar na primeira esquina. António Costa é, de longe, o melhor político em exercício e vai dar cartas por muito tempo.

A legitimidade política diminuída do Governo PS vai levar a uma entrada muito forte contra a alegada herança pesada do Governo da Direita. Serão retirados todos – uns reais, outros (bem) imaginados – os “esqueletos do armário” e far-se-á um magnífico exercício de “Big Bath Accounting”. Isto é, um exercício – onde o Banco de Portugal é especialista e pode ser mesmo assessor – de “massagem” de Contas, piorando drasticamente a situação de partida para favorecer anos futuros – culpando naturalmente quem ficou para trás.

O déficit orçamental de 2015 será, afinal, muito pior do que se espera. Os “esqueletos do armário” na forma, por exemplo, do BANIF, das pensões e sobretudo da idiótica gestão do NOVOBANCO pelo BdP, gerarão impactos importantes. Em consequência o déficit de 2016 jamais poderá ser inferior a 3% e estará assim criado o espaço para as políticas sociais reclamadas pelo BE e pelo PCP.

Em particular, o dossier “NOVOBANCO” é um diamante político em bruto por lapidar permitindo a Costa e Centeno colocar em evidência a incompetência do Banco de Portugal e a gestão política de Passos e Maria Luís.

Num quadro destes Passos e Portas vão passar um péssimo bocado. E se Portas não me importa, lamento por Passos. O meu (péssimo) instinto político aconselharia Passos a apresentar a sua demissão de Presidente do PSD no dia da investidura de António Costa. Ficaria com o seu capital político intacto para um regresso futuro a la Sá Carneiro. Mas duvido que o faça.

A derrapagem orçamental de 2015 e 2016 colará, penso que em definitivo, a imagem internacional de Portugal à Grécia. A quimera da nossa aproximação aos “spread” da Espanha e da Irlanda já lá vai e em breve Portugal será apresentado em Espanha como um mau exemplo a não seguir. O dano real à imagem de Portugal no Mundo, esse, já faz parte da posição de partida de António Costa.

Neste momento os bancos de investimento internacionais já sinalizaram aos seus clientes para venderem os ativos portugueses. A subida das taxas de juro em Portugal agora depende – não dos tão propalados mercados – mas única e exclusivamente do BCE. O BCE já é, e será o único comprador internacional da divida portuguesa.

Qual vai ser a tolerância do BCE perante a derrapagem orçamental portuguesa?

Eu diria que vai ser pequena mas não será seguramente nula. Costa e Centeno terão que manobrar muito cuidadosamente o terreno em Frankfurt e não esticar demasiado a corda.

É certo que a situação europeia está também em fluxo e problemas bem mais sérios do que Portugal estarão na agenda. O referendo inglês para um possível BREXIT e a inesperada debilidade política de Ângela Merkel são porventura os dois exemplos mais marcantes.

Do lado dos parceiros do PS da maioria de esquerda estará a agenda – escondida mas sempre presente – da reestruturação da dívida e do espaço orçamental que tal possibilitaria para um keynesianismo de “meia-tigela”.

De Bruxelas mas sobretudo de Frankfurt serão dados todos os sinais para o rigor orçamental. E o fantasma de um novo resgate começará a aparecer. Enganam-se os que pensam que de Bruxelas ou Frankfurt virá uma maior compreensão para o quadro orçamental.

Déficit significa crescimento da dívida. Dívida que todos já perceberam que nunca será paga. Nenhum credor empresta mais sabendo que não vai ser pago. O espaço orçamental de Centeno será muito limitado.

Passado o primeiro ano, penso que o BE e o PCP iniciarão o seu plano de ataque ao PS, afinal o seu verdadeiro inimigo político. Os três partidos da maioria de esquerda comem no mesmo espaço vital. E pura e simplesmente não tem qualquer credibilidade a ideia que o BE e o PCP pudessem desejar que António Costa fosse um grande Primeiro- Ministro.

Porque obviamente se António Costa fosse – para bem de Portugal – um grande Primeiro-Ministro toda a esquerda nas próximas eleições concentraria os seus votos no PS, dispensando incómodas muletas. O BE e o PCP vão-se encarregar de estragar o consulado de António Costa muito mais do que o PSD.

António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa irão jogar um interessante jogo do gato e do rato. Costa pensa que é o gato mas as conclusões se verão ao final.

E, por ironia dos jogos palacianos, daqui a uns dois anos o CDS pode ainda vir a ser muito útil a António Costa.

O que ainda faltará ver… a quem não emigrar, bem entendido.

 

  1. Pelos vistos o melhor mesmo é emigrar.

  2. Antonio de costa says:

    Penso que essa será a nova filosofia portuguesa do seculo 21, ” Os derrotados serão os vencedores” – Somente em Portugal mesmo, depois ficamos nós amuados pelos comentários que nos dizem respeito, mas infelizmente cada povo tem aquilo que merece e nós teremos, mesmo imigrados.

  3. Falta uma variável muito importante: Inevitável crash das bolsas nos próximos 2 anos e recessão que se seguirá. O desastre será total. O preço a pagar para que uma 50% dos eleitores deixem de vez de acreditar em sebastianismnos

  4. Vamos fazer uma aposta: se houver qq ministro do PCP eu atiro-me duma ponte abaixo; se não houver atira-se o João!

  5. Infelizmente, este teto é dramaticamente real, absoluto e certeiro…
    O grande problema é…para aqueles que j´não estão em idade de emigrar…

  6. A análise está certa. Excepto no ponto em que o PCP e o BE vão queimar o PS. Seguindo esta lógica o PP deveria ter queimado o PSD. Não sucedeu. Não existem motivos para crer que aqui seja diferente.
    O golpe palaciano do Costa é um erro. Pau que nasce torto, nunca se endireita.

  7. João Jardine says:

    Bom dia João Rendeiro

    O seu cenário futuro é plausível e parece mais do que certo até ao parágrafo (inclusive) da derrapagem orçamental.
    Depois, bom depois, não leva em linha de conta, com efeitos já em meados de 2016, da situação política em França.
    Junto com os factores que enunciou, BREXIT, refugiados e fragilidade da Chanceler alemã, deverá proporcionar a António Costa a folga necessária para ganhar as eleições que, com quase toda a certeza serão antecipadas.
    Não se esqueça que, António Costa foi Vice Presidente do Parlamento Europeu e, se se verificar a “folga”, sempre poderá dar por bem empregue o tempo que esteve em Bruxelas.
    Analisar os comportamentos futuros da esquerda, entre si e para o “exterior” com base no passado é esquecer que a história não se repete mas pode rimar. Tem utilidade política mas pode originar enormes erros de paralaxe e, por isso, errar o tiro.
    Sobre o comportamento futuro do eleitorado, terá, o João Rendeiro equacionado os seguinte ângulo: qual será a vantagem do eleitor médio em oferecer a maioria ao PS (ou a qualquer outro partido) quando, distribuindo os votos consegue o mesmo ou, possivelmente, até um pouco mais?
    Cumprimentos
    João

  8. João Matos says:

    A análise parte de um pressuposto, Costa será primeiro ministro. Não estou certo disso ouvindo o Presidente da República.

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