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JOSÉ MOURINHO E O IMPÉRIO ROMANO

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O império romano dos nossos dias é o Roman Empire de Roman Abramovich, o czar do CHELSEA FOOTBALL CLUB, o dono do clube “on behalf of” Wladimir Putin – o beneficiário último dos oligarcas russos.

Abramovich decidiu, na 5a feira, 17 de dezembro de 2015 despedir José Mourinho da liderança desportiva do Chelsea. Pelas 14 horas, depois do almoço de Natal de toda a equipa no centro de trabalho em Cobham, o Presidente do Clube, o advogado Bruce Buck e o administrador Eugene Tenenbaum – um canadiano velho amigo e aliado de Abramovich desde os tempos da SIBNEFT – tiveram uma reunião de 10 minutos onde disseram a José que “acabou”.

Não temo pelas extraordinárias condições financeiras deste despedimento de José Mourinho que o farão um dos portugueses mais ricos do Mundo. Mas como amante do futebol e admirador de Mourinho fascina-me analisar como um clube que se sagra campeão passa de bestial a besta uns escassos 6 meses depois. Porque – convém relembrar os incrédulos – foi há pouco mais de 6 meses que o Chelsea se sagrou campeão da PREMIER LEAGUE – o título de futebol mais difícil do Mundo.

O que mudou em 6 meses no Chelsea? Porque passou José de bestial a besta?

O processo de “morte súbita” em gestão, quer empresarial quer desportiva, está longe de ser raro – eu que o diga. Mas no plano desportivo há um “musical chairs” bastante peculiar.

José Mourinho acaba de ser despedido do Chelsea mas 70% dos adeptos do Manchester United pretendem vê-lo a substituir Louis Van Gaal, logo este que juntamente com Bobby Robbson  foram“ pai futebolístico” de José.

Guus Hiddink o putativo salvador do Chelsea vem de desastrosa temporada com a seleção holandesa. O extraordinário Claudio Ranieri – líder atual da PREMIER LEAGUE – foi despedido há poucos meses na Grécia e todo o planeamento da época do Leicester  foi feito numa lógica de lutar contra a descida de divisão.

A mensagem central é que ninguém – só mesmo Arsene Wenger – está imune à pressão dos resultados de curto prazo.

Ganhar e ganhar sempre. E muitas vezes, ganhar tudo não chega, que o diga Juup Heynches no Bayern Munich.

Mas a posição de José Mourinho no Chelsea apontava-se numa perspetiva distinta. Pela primeira vez, Roman Abramovich teria um projeto de longo prazo e um treinador de longo prazo que não dependesse de resultados imediatos.

Obviamente, não foi assim. Porquê?

A maioria dos comentadores – como infelizmente se afigura normal – concentra-se na espuma das aparências.

Que o episódio Eva Carneiro seria decisivo, como comenta Rui Santos, por exemplo.

Que José teria perdido o charme nos Media pelo seu estilo confrontacional.

Que jogadores chave como Hazard, Cesc e Costa estariam contra a liderança de José.

Que as substituições de Terry contra o City e de Matic contra o Southampton seriam um exemplo do descontrolo do balneário.

Que uma semana de atraso no início da época colocaria os jogadores em handicap físico.

Que o local de estágio no Canada não tinha condições suficientes de dignidade.

Enfim, um conjunto de factores mais ou menos plausíveis ,  cada um certamente com um iota de contribuição mas que – a meu ver – estão muito longe de ir ao fundo da questão.

Mencionarei  tres questões centrais.

O MODELO DE NEGÓCIO DA PREMIER LEAGUE

O modelo de negócio da Premier League transformou o futebol inglês no paradigma mundial de sucesso. Ainda recentemente o BARCELONA – com o apoio de consultoria da MCKINSEY & CO – definiu os seus objectivos de médio prazo e disse, com clareza, que o seu rival não era o Real Madrid mas sim a Premier League.

A liderança do futebol inglês – FA, FOOTBALL ASSOCIATION – pretende um campeonato híper competitivo onde cada jogo seja uma incógnita. Isso suscita um extraordinário nível de audiências televisivas a nível mundial. E isto permite contratos de distribuição de valores gigantescos. Valores estes distribuídos praticamente de forma equitativa por todos os Clubes da Premier League possibilitando orçamentos generosos a todos. Os clubes ingleses podem, assim, recrutar o melhor talento para as suas equipas tendo como objetivo o tal campeonato híper competitivo e imprevisível cheio de dramas e surpresas.

Os direitos televisivos para o triénio 2016/19 foram vendidos à SKYe à BT SPORT por 5.136 mil milhões de LIBRAS ESTERLINAS, ou seja, 10.2 milhões de LIBRAS por cada um dos 168 jogos transmitidos em direto. Recorde-se que este contrato tinha sido vendido no triénio 2010/13 por 1.773 mil milhões de LIBRAS e no triénio 2013/16 por 3.01 mil de LIBRAS. O contrato de 2016 representa uma subida de 70% sobre o de 2013 e quase triplica o de 2010. A distribuição destas receitas de forma equitativa pelos clubes da Premier League possibilita a constituição de “plantéis” muito fortes em praticamente todos os clubes que se reforçam muito todos os anos.

Com base no valor competitivo da Premier League o valor de mercado dos clubes ingleses ( incluindo receitas de estádio/bilhetes e Televisão  , merchandising,  sponsoring e valor dos passes dos jogadores )  subiu exponencialmente e, neste momento, nos dez clubes europeus mais valiosos, cinco são ingleses e ultrapassarão em breve a tradicional liderança de Real Madrid e Barcelona. Existe uma super liga de quatro clubes mais valiosos (Real Madrid, Barcelona, Man United e Man City) com valor de mercado de uns 2 mil milhões de LIBRAS, seguidos do Bayern Munich com uns 1.5 mil milhões de LIBRAS, e, bem mais abaixo ,  vem o Chelsea e  o Arsenal com uns 850 milhões de LIBRAS.

Por comparação, o clube francês mais valioso é o Paris ST Germain com valor de mercado de uns 400 milhões de LIBRAS.

O exemplo do ManCity é paradigmático. O Sckeik Mansour comprou o clube em 2008 por uns 260 milhões de LIBRAS e acaba de vender 13% do mesmo clube a um consórcio chinês por 265 milhões de LIBRAS.

Este modelo híper competivo e pleno de imprevisibilidade não comporta a existência de um clube dominante que ganhe  sistematicamente a Premier League. E foi de forma cândida que o CEO da FA Martin Glenn admitiu que era muito bom para a Premier League que o Chelsea estivesse em dificuldades porque isso demonstrava como a PREMIER era um campo aberto e de resultado incerto.

Não foi por acaso que a FA teve, por assim dizer, uma política de tolerância zero – para não dizer um bias negativo – com o Chelsea e de que José Mourinho se queixou amargamente praticamente até à ruptura de relações. Foram as decisões dos árbitros que sistematicamente – na dúvida – desfavoreciam o Chelsea e tiveram influência chave nos resultados, por exemplo, com o Swansea e o Liverpool. Foram as declarações de Mourinho  ,sempre mais agravadas do que outros treinadores – como Arsene, por exemplo. Foram as declarações do Presidente e do CEO da FA de apoio a Eva Carneiro (e contra Mourinho) mas seguidas de uma absolvição de José pela própria FA.

O bias negativo da FA para o Chelsea e José Mourinho por um lado e os generalizados reforços de todas as equipas, por outro, colocariam sempre um desafio adicional para a equipa de Mourinho na época presente. Toda a equipa para ser competitiva teria que estar um degrau acima do ano passado. Ao invés esteve um degrau abaixo e a espiral negativa tornou-se avassaladora.

O Chelsea – contra a opinião de José – não se reforçou e os seus jogadores campeões baixaram em vez de subir – alguns como Eden Hazard vários níveis.

 

O MODELO DE NEGOCIO DO CHELSEA

 

Os clubes ingleses, não obstante as suas fabulosas receitas televisivas, têm uma segunda fundamental fonte de receitas que são os seus estádios. A venda de lugares e sobretudo o “Hospitality” – a venda de lugares/salas  especiais com direito a comidas e bebidas como parte do relacionamento das empresas com os seus clientes.

Neste sentido os clubes mais importantes têm investido fortemente nos seus estádios. O ManUnited continua com o maior estádio mas o Arsenal e o ManCity construíram recentemente estádios de lotação superior a 60 000 lugares.

O Chelsea vai construir um novo estádio nas próximas quatro épocas em Stamford Bridge, aliás um magnífico projeto arquitectónico dos reputados suíços HERZOG & DEMEURON, com um valor de investimento de uns 500 milhões de LIBRAS totalmente financiado por uma entidade de Abramovich. Entretanto chegou a acordo com a FA para jogar no mítico estádio de Wembley nas próximas quatro épocas.

A verdade é que nos últimos anos os três principais concorrentes do Chelsea (ManCity, ManUnited e Arsenal) operaram com estádios com capacidade 50% superior a Stamford Bridge, o que lhes deu uma vantagem inegável nos resultados de exploração. O Arsenal, em particular, deu prioridade a construir e pagar o EMIRATES e está a gerar brutais resultados positivos de exploração permitindo a Wenger reforçar a equipa, como e quando quiser.

A equação financeira destes gigantes investimentos imobiliários conjuntamente com a necessidade de reforçar as equipas com jogadores de topo enquadrada pelas regras do chamado “fair Play” financeiro é tudo menos fácil. Veja-se, por exemplo, que na temporada 2015, não obstante ganhar o campeonato, o Chelsea apresentou um prejuízo económico de uns 20 milhões de LIBRAS. O Chelsea deixou-se claramente ficar para trás nas receitas de bilheteira/estadio, o que lhe coloca uma restrição fundamental no equilíbrio financeiro e na sua capacidade de contratar jogadores.

Por outro lado, o Chelsea aposta fortemente numa carteira de jogadores em forma de fundo de investimento. O Chelsea tem uma carteira de uns 35 jogadores, adquiridos a custo muito baixo, distribuídos por clubes europeus na perspectiva de os valorizar e vender, retendo uns poucos que possam singrar na primeira equipa do Chelsea.

O valor económico desta carteira é potencialmente muito elevado pois bastará emergir um ou dois para um significativo impacto. Foi o que sucedeu com o brasileiro Kennedy que já espreita um lugar na primeira equipa.

Tudo visto e somado dá para entender que, ao chegar ao Chelsea há uns dois anos, José Mourinho tenha tido um discurso centrado no “fair play” financeiro e numa gestão de compras e vendas de jogadores com investimento líquido praticamente nulo. As fantásticas vendas de David Luiz, Lukaku e Mata,por exemplo, compensaram as compras de Costa e Cesc que tanto renderam no ano passado.

Mas o extraordinário rendimento da equipa em 2015 necessitaria de uns três ou quatro cirúrgicos reforços de alto valor acrescentado para compensar saídas ou faltas  no sentido de enfrentar 2016 com sucesso . A defesa estava claramente vulnerável com a idade de Terry e Inanovic e o fraco desempenho de Felipe Luís. O plano aqui seria contatar Stones e Baba. O meio campo precisava de substituir Mikel com a ideal contratação de Pogba. O ataque necessitava de substituir o lendário Didier Drogba mas acabou por chegar o diminuído e “baratinho” Falcão. Na baliza, a estúpida decisão pessoal de Abramovich de ceder Peter Chec ao Arsenal levou à contratação do competente Begovic.

Foi interessante verificar como neste verão o Chelsea vendia rápido e contratava lento. Felipe Luís foi vendido rápido e Baba foi uma enorme saga até se incorporar. Peter Chec saiu a correr e contratar Begovic demorou. Mas a negociação de John Stones – se isso se pode chamar – foi um “case study” de falta de vontade ou erro de avaliação. Para um dos jogadores ingleses mais promissores a contratar para preencher uma lacuna chave no plantel, o Chelsea faz uma oferta inicial ridiculamente baixa e “espanta a caça”. Ficou a dúvida se o Chelsea queria mesmo contratar Stones.

Mas o ridículo maior ainda estava para vir. No último dia da “transfer window” em setembro e para “calar a boca” a Mourinho foi contratado Pappy Djilobodji – que clubes menores na PREMIER rejeitaram. Os adeptos do Chelsea chamam-lhe Pappy Nobody e ninguém entende porque foi contratado a não ser talvez para irritar Mourinho ou mostrar quem decidia.

As negociações de jogadores estão a cargo de Marina Granovskaia, a “de facto” CEO do Chelsea com linha direta 24 horas a Abramovich, e Michael Emenalo, o Diretor Técnico que comanda todo o futebol do Chelsea e a quem José Mourinho reportava. As dificuldades nas compras não podiam vir de dificuldade de decisão mas de opções de gestão. Dir-se-ia que a gestão do Chelsea – como estratégia implícita mas não verbalizada – evitava investir e optava por pedir a Mourinho que “espremesse ” um pouco mais o sumo do ” plantel ” disponível .

A humilhação pública do Chelsea na fracassada contratação de Stones e na pseudointegração de Pappy foi o epílogo das disfunções e contradições em que o Chelsea estava mergulhado. Era, na verdade, extraordinário que o clube que tinha acabado de ganhar a PREMIER LEAGUE com 8 pontos de avanço estivesse mergulhado nos problemas que vieram a emergir.

As saídas de Drogba e Chec, não adequadamente compensadas, deixaram um vazio de liderança no balneário. O “plantel” do Chelsea 2016 era um grupo claramente inferior a 2015.

Quando todos os outros clubes se reforçaram o Chelsea ficou para trás.

 

 

A LUTA DE PODER NO CHELSEA

 

Na estrada que vai dar ao excelente campo de treinos do Chelsea em Cobham, onde a equipa trabalha diariamente, há um pequeno desvio que vai dar a uma gigantesca mansão.

É a casa de Roman Abramovich. Todos os dias, simbolicamente, todos são relembrados sobre quem manda – na verdade – no Chelsea.

Roman exerce o poder no Conselho de Administração do Chelsea FC através de amigos/associados de longa data, como Eugene Tenenbaum, ou empregados, como Marina Granovskaia. Marina foi a chefe das secretárias de Abramovich e foi sendo promovida até à sua atual posição de “de facto” CEO.

Reporta a Marina o chefe do futebol do Chelsea, Michael Emenalo, que superintende todos os escalões de futebol e a quem reportava José Mourinho.

Quando Abramovich decidiu contratar José, Emenalo apresentou a demissão por não concordar com a contratação e pensar que esvaziava a sua função. Roman não aceitou a demissão de Emenalo e disse-lhe que Mourinho reportava a ele. José aceitou.

A extraordinária empatia dos simpatizantes do Chelsea com Mourinho, obviamente reforçada com a enfática vitória na Premier em 2015 perturbou a hierarquia do clube. Alguns tiveram medo que Mourinho ficasse mais importante do que o Conselho de Administração , já para não falar no Diretor Técnico ,  e daí até “por uns pauzinhos na engrenagem” para limitar o estatuto de José foi um instante.

Em paralelo, as restrições orçamentais do Chelsea, analisadas antes ,    davam alimento aos que defendiam rédea curta nas despesas como forma de ” travar ” José .

Desde logo, a prometida extensão e renovação do contrato de Mourinho demorou todo o verão e foi preciso José colocar uma data-ultimato (o jogo do Arsenal na Community Shield) para se assinar.

Mas o verão trouxe uma grave desautorização de José Mourinho perante os jogadores. Com a chegada de Courtois, o lendário Peter Chec ficou segunda opção e pretendia sair para o Arsenal.

Esta opção matava José. Não só perderia um dos seus líderes chave no balneário como reforçaria o seu inimigo fidalgal Arsene Wenger na posição onde era mais fraco ,  melhorando  muito as possibilidades do Arsenal  disputar o título.

Primeiro, José não queria que Chec saísse. Depois ,  que se saísse fosse para um clube não-ingles. Depois  , que se fosse para o Arsenal então que tivesse um jogador de troca. Mas nada disto aconteceu.

Depois de vários jogadores do Chelsea terem opinado a favor das pretensões de Chec e a matéria se ter tornado um foco de divisão interna, Abramovich decidiu contra Mourinho. Uma derrota e uma grave desautorização do treinador.

Um caso importante mas apesar de tudo menos grave foi a putativa renovação de Didier Drogba como treinador/ jogador. José considerava indispensável o apoio de liderança no balneário de Didier mas Emenalo argumentou com a sua idade e os níveis salariais. Drogba foi para a MLS.

Ficou claro para todos os jogadores que José tinha sido desautorizado e não controlava  as decisões chave sobre o “plantel” e o futuro de cada jogador .

Por sua vez, uma arrogante letargia tinha infectado vários dos jogadores campeões. Diego Costa apresentou-se com peso excessivo e tentou renegociar o seu contrato alegando resquícios de lesão; Ivanovic e Terry apresentaram-se em deficiente forma física; Eden Hazard que de facto tinha acabado a época estourado, continuou cansado mesmo depois de um mês de férias, Cesc reserva-se para os jogos internacionais e apesar de ser dos jogadores que mais corre em campo faz corrida de baixa intensidade e é “um passadouro” que faz tremer qualquer defesa. Ivanovic, entretanto promovido a vice-capitão e em quem José colocou toda a confiança, era um gigante e embaraçoso “buraco” desde o primeiro jogo da época. O colapso de Ivanovic representou bem o estado dos jogadores.

Dir-se-ia que muitos jogadores do Chelsea (Hazard, Cesc, Costa, por exemplo) pensaram que a época ia ser longa com o Europeu no final e que haveria que guardar forças para um impulso ao título europeu defendendo as cores dos seus países. Outros, como Terry ou Ivanovic estarão porventura a pensar que foi o último título da Premier que ganharam e agora há que poupar forças e esticar a carreira o mais possível.

Seja como seja, enquanto José mantinha a mesma “fome de ganhar”, muitos dos jogadores chave ficaram arrogantes e aburguesados pensando que bastaria entrarem em campo para os adversários prestarem vassalagem. Entravam em campo cansados e de cansados se deixavam cair, chamando a equipa médica.

E chegamos ao episódio Eva Carneiro que eu testemunhei ao vivo a poucos metros de distância aliás.

O jogo inaugural da Premier com o Swansea estava empatado 2-2 e Courtois tinha sido expulso na sequência de uma fífia de Terry, jogando assim, o Chelsea com 10. Nos últimos minutos do jogo Hazard sofre uma falta insignificante e atira-se para o chão. Eva Carneiro e Jon Fern pedem ao árbitro para entrarem e, como habitual nos casos, desatam numa correria tresloucada em direção ao jogador para o recuperar.

José Mourinho fica desesperado, nos últimos minutos do jogo quem faz estes truques é quem “quer gastar tempo”, não quem quer ganhar o jogo. Ainda por cima o Chelsea ficava uns minutos a jogar com 9 jogadores quando tentava desesperadamente  ganhar o primeiro jogo da época – tão simbólico – ainda por cima em casa. José chama “filho da p..”  a  Hazard e quando Eva Carneiro passa por si mostra o seu desagrado – depois repetido num comentário televisivo.

No dia seguinte, na sua página pessoal do FACEBOOK, Eva Carneiro agradeceu as mensagens de apoio que tinha recebido colocando-se em posição de confronto direto com José Mourinho.

José  percebeu  que não podia ser publicamente  desautorizado pela médica  e decidiu afastar os dois, Eva e Jon, do apoio médico à equipa em campo.

Caiu o “Carmo e a Trindade”.

O lobby feminino pôs-se em pé de guerra contra o Chelsea e José. O lobby dos médicos igual. Os adversários de Chelsea e de José tiveram uma bela oportunidade para beneficiar atacando onde é mais difícil – princípios e valores . Mais importante, os inimigos internos de José fizeram saber a Eva que reprovavam a atitude de Mourinho e ela deveria “bater o pé”. Alguns jogadores, nomeadamente Hazard, viram neste episódio mais uma frente para manifestar a sua displicência.

Um episódio menor que, na verdade, nada tinha que ver com Eva Carneiro transformou-se num foco emblemático para os inimigos internos e externos de Mourinho.

E os resultados desportivos continuavam a deteriorar-se e os inimigos internos a aumentar a pressão. Começaram então as fugas de informação seletivas a mais grave das quais  foi o FC do Porto ter sido informado previamente de qual a composição da equipa do Chelsea para o jogo decisivo no apuramento da Champions. A radio da BBC noticiou que um jogador teria opinado preferir perder a lutar por José – uma maliciosa interpretação fora de contexto  mas passada ao  Media por fontes internas .

José percebeu que todas as suas conversas eram escutadas e deu um sinal público disso quando a seguir ao jogo com o Liverpool foi para o centro do relvado em Stamford Bridge reunir com a sua equipa técnica para o debriefing. Era o único local onde sabia que poderia falar abertamente com a sua equipa técnica sem  o risco de ser escutado.

Perante todas as adversidades e sobretudo a apatia dos seus jogadores, José tentou tudo e assumiu todos os riscos. Os jogadores chave sabiam que tinham todo o poder e o futuro de José nas mãos mas Mourinho nunca se rendeu.

Lutou que nem um leão até ao fim. Atirou-se a Wenger , aos árbitros, à FA , aos jornalistas  e aos jogadores e a quem mais se pusesse na frente .

Certamente fez alguns erros no caminho.

Mas não errou no essencial. Na paixão pelo seu trabalho. Na total dedicação pelo clube que lhe paga. Na permanente vontade de vencer. Num inabalável compromisso com a verdade.

Os simpatizantes do Chelsea têm com José Mourinho uma identificação inigualável. No primeiro jogo sem Mourinho, com o Sunderland em Stamford Bridge, uma bandeira ocupando quase metade do estádio dizia “José Mourinho simply the Best” e a cada um dos três golos do Chelsea todo o estádio gritou por José Mourinho.

Nas redes sociais o apoio a José Mourinho é avassalador sendo mesmo comovente . Veja-se  , por exemplo, o texto de Majdie Hajjar, “ Why the blues were wrong to sack Jose Mourinho”, no Blog “90 minutes”, cuja leitura recomendo.

Dir-se-ia que Roman Abramovich despediu um treinador mas arranjou um “mártir”. Ainda por cima um “mártir” que vai andar por aí a treinar equipas rivais mais motivado do que nunca para mostrar o seu valor. Mourinho não hesitou em contradizer o comunicado oficial do Chelsea deixando claro que foi despedido e tinha deixado o clube contra a sua vontade. Quer recomeçar a trabalhar de imediato.

Agora – et pour cause –  vai aparecer dinheiro para Drogba regressar, para as contratações milionárias que um novo treinador exija e mesmo para algumas melhorias de contrato para jogadores chave.

Enfim, uma grande destruição de valor e um enorme passo atràs na tentativa do Chelsea se chegar aos quatro grandes .

O império romano não caiu por um ataque exterior fulminante senão por uma prolongada feira de vaidades, cheia de complôs e traições pelo caminho . Chegou-se mesmo a matar Generais vitoriosos no campo de batalha  ao temer  que pudessem fazer sombra ao Imperador . O Chelsea vai ser deixado para trás pelo Arsenal em valor de mercado e vai ver aumentada a distância – já enorme – para os líderes de Manchester. Roman tinha um caminho muito estreito a percorrer mas o medo – creio que completamente  paranoico  – de perder o controlo do clube para José ,  deitou tudo a perder. Não vejo vida fácil para o Chelsea nos próximos anos.

José Mário dos Santos Mourinho Félix, os meus respeitos.

José Mourinho simply the best.

  1. Jorge Nascimento says:

    Eu sou um admirador de José Mourinho, não ligo ao futebol, mas só leio os jornais desportivos se falar dele. Ele é a caravela que conquistou os mares, ele é a espada que criou este País, mesmo sendo um treinador de futebol! O melhor sem sombra de duvida, mas essa é a sua profissão. O mais importante de tudo, é que o nome José Mourinho é a representação e a alma de um povo com 836 anos de história. Por isso muito me agrada este texto, pois dá-nos a conhecer os bastidores deste meio que é o futebol, mas mais importante os bastidores daqueles que tentam destruir a imagem do Português que todos deveríamos ser. Orgulhosos, dignos, profissionais,honestos, de carácter e de palavra. Obrigado pelo texto, espero que seja também escrito em ingles. Abraço e LONG LIFE FOR THE KING

  2. E o BANIF, João??

  3. José Mourinho é o melhor treinador português de todos os tempos. Infelizmente a sua ânsia por vencer e ser o melhor é turbada por interesses pessoais que não procuram ser os melhores, mas orgulhos pessoais. É como o corcunda que em vez de ser operado para andar direito, queria que todos fossem corcundas e para tal andava pelas ruas com um martelo a tentar bater nos pescoços dos que andavam direito.

  4. Carlos b Correia says:

    Pois eu, tenho uma perspectiva contrária. Mourinho é um homem amargurado, que tem mau perder e mau ganhar. Tenho-lhe visto deslealdades para com jogadores que a certa altura se lhe tornam descartáveis. Nunca se preparou para a derrota, (há quem diga que isso é uma qualidade), mas não há vencedores eternos que, no futebol, são ainda mais maltratados. É claro que tem uma desculpa. É filho do futebol e o futebol não é flor que se cheire nem modelo de comportamentos. Quanto ao que está escrito é muito bom. Uma optima análise dos estranhos meandros de um negócio estranho e manipulador dos públicos. Só discordo do herói!!

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