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O Expresso da Mamãe

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Desde que Francisco Pedro Balsemão foi anunciado a 11 de janeiro (com efeitos a 6 de Março) como novo CEO da IMPRESA a cotação em Bolsa desceu uns 34%, aproximando-se do mínimo histórico. Os investidores votaram com os pés ao serem presenteados com um claro sinal de nepotismo. E como insulto final a IMPRESA saiu do PSI 20.

A clara deterioração operacional e financeira da IMPRESA teria que ter um culpado, neste caso dois culpados – Pedro Norton e Luís Marques e vai daí toca a correr com eles. Com os bolsos aprovisionados bem entendido (Pedro € 1 milhão) para que permaneçam sentados e calados. A versão oficial não poderia ser uma maior manifestação da mais repelente hipocrisia.

Mesmo assumindo que era necessário haver culpados – o que, como veremos, está longe de ser evidente – a sucessão familiar natural seria Francisco Maria Balsemão. Há muito que Francisco Maria é Vice-Presidente não-executivo da IMPRESA (mas tem um salário anual de uns € 400.000, o que o torna num dos Administradores não-executivos mais bem pagos do Mundo) e tem um CV pessoal e empresarial muito mais evoluído do que Francisco Pedro.

Francisco Maria tem, porém, um gravíssimo problema. Não é filho de Tita. E o poder real desta mulher discreta, mais uma vez, fez acontecer.

Acredito que Francisco Pedro seja um jovem de elevado potencial. Mas com o seu CV há centenas – para não dizer milhares – que labutam arduamente no WEBSUMMIT por um lugar ao sol. Ademais, a IMPRESA não tem tempo, nem espaço, para experimentalismos e está longe de poder pensar a 5 ou 10 anos.

Em termos práticos, Francisco voltará a ser Chairman & CEO – para mal dos seus pecados, digo eu e a família contabilizará mais um salário elevado. O clã Balsemão receberá na IMPRESA mais de € 1,2 milhões por ano, uma retribuição justa para tão grande criação de valor.

Até poderão ser REPUBLICANOS os valores apregoados diariamente pelos jornalistas amouxados mas, na IMPRESA, vigora uma MONARQUIA. Vá lá, aceito, uma MONARQUIA CONSTITUCIONAL. Mas como em todas as MONARQUIAS todos contribuem para o REINO. O divertido na IMPRESA é o jogo de espelhos, onde os atores e os jornalistas pensam que quem lhes paga é o Tio Balsemão quando é exatamente o contrário.

Vejamos.

Depois de um 2015 difícil com as tais culpas atribuídas a Norton, o primeiro trimestre de 2016 não poderia começar pior. Apesar de um forte esforço de contenção de custos (os custos caem 4,2% contra -2,7% nas receitas totais) o EBITDA cai cerca de 80%. Evidentemente, o contexto macroeconómico com a forte redução do crescimento do PIB e a brutal contração do investimento são caldo de cultura muito pouco favorável à publicidade.

O EBITDA da SIC, ligeiramente superior a € 2 milhões, caiu 11% mas a performance deste segmento continua claramente positiva (a única do Grupo, aliás). O segmento Televisão absorveu bem o forte impacto da renegociação do contrato de distribuição com a ALTICE. O desempenho das telenovelas de produção portuguesa é absolutamente crítico para a liderança no prime time mas – também aqui – a ameaça da TVI é crescente. De resto, o “power ratio” da SIC já iniciou uma perigosa trajetória descendente.

A IMPRESA pura e simplesmente não aguenta um “falhanço” numa nova edição de telenovela portuguesa pelo que, afinal, talvez nem seja má ideia que Francisco Pedro passe bastante tempo com esta fauna.

Não obstante, tudo indica que a SIC tenha um mês de Junho muito difícil para as telenovelas por força da transmissão em prime-time na RTP e SPORTTV do Campeonato Europeu de futebol. Os resultados do segundo trimestre já darão uma ideia sobre esta questão.

No segmento Publishing que inclui o EXPRESSO e as revistas é a catástrofe. O EBITDA caiu 69% em relação ao primeiro trimestre do ano passado, apresentando um resultado negativo de -559.000 €. A conjugação da forte queda da publicidade (-18%) com as subscrições não é compensada com a subida do digital, dada a sua fraca geração de proveitos. Fruto da descida da edição em papel e a subida do digital, o digital já representa 20% do segmento. A nomeação de Pedro Santos Guerreiro para Diretor do EXPRESSO significa qual o sentido estratégico que o Publishing (EXPRESSO sobretudo) vai ter.

Mas este é um caminho sem retorno e similar às tendências internacionais. O digital não necessita da imensa estrutura material e humana do Publishing na sua versão atual. O controlo de custos vai dar um massivo despedimento no Publishing (sobretudo EXPRESSO) quando o momento adequado chegar.

Onde não vai haver controlo de custos, noblesse oblige, será seguramente na Holding da Ribeiro Sanches. Os custos da holding agravaram-se 30% neste primeiro trimestre de 2016 para – 1.260.000 €. Estão, estes custos, integrados nas Contas da IMPRESA numa divertida rubrica que se chama INFOPORTUGAL E OUTROS. Os outros (os custos da holding) são uns 95% desta rubrica mas até parece que é a desgraçada da INFOPORTUGAL a fonte do gigantesco buraco.

Tudo visto e somado a IMPRESA teve um resultado líquido negativo de -2.444.800 € no primeiro trimestre e não se vê como a tendência negativa será invertida. A IMPRESA está extraordinariamente dependente de uma única seção de todo o Grupo (as telenovelas portuguesas de prime time) para pagar os resultados crescentemente negativos do Publishing e a ineficiência da Holding.

E está completamente dependente do BPI para o seu financiamento.

A IMPRESA tem um valor de mercado de uns € 56 milhões para uma dívida total de € 225,5 milhões, dos quais € 169,5 milhões (75%) ao BPI. A estrutura de capitais está claramente desequilibrada e à mercê dos rigorosos testes de stresse do BdP e da “boa vontade” bancária. Boa vontade que não faltará para os lados do BPI – até que LACAIXA e o BCE permitam, bem entendido. Veja-se, por exemplo, o Price-Target de € 1,4 por ação para 2016 que o equity research do BPI tem para a IMPRESA, o que a torna numa das ações de maior potencial de subida a nível mundial.

Em resumo, é uma “estória” que dificilmente acabará bem.

 

 

  1. Bom, muito bom!!

    Os “analistas” deviam ler todo este artigo (imprimir e colá-lo na parede) para saber o que são insights (The ability to discern the true nature of a situation).

    Obrigado por partilhar

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