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João Rendeiro: “Continuo vivo e a exercitar os meus dons”

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João Rendeiro: “Continuo vivo e a exercitar os meus dons” – Atualidade – SAPO 24

Pode ter deixado falir um banco, mas aquele que ficou conhecido como o banqueiro dos ricos vive hoje de vender conselhos mundo fora. Continua a dizer que a ilusão do dinheiro fácil, a tentação e a falta de limites impostos pela regulação foram os pecados capitais que conduziram ao colapso de alguns bancos. E que o Banco de Portugal e os auditores deviam ser responsabilizados. João Rendeiro vive hoje entre Nova Iorque, Londres ou Bruxelas, “uma vida normal” e “tentando não fazer mal a ninguém”.

Estava em Nova Iorque quando foi a eleição de Donald Trump, veio a Portugal de passagem e, no dia em que esta entrevista é publicada, já está outra vez em viagem. É assim que João Rendeiro passa o tempo, a fazer aquilo que sabe: vender conselhos a quem acredita que falhar não é morrer, mas antes tornar-se mais forte.

E tem várias certezas: a Caixa Geral de Depósitos tem pela frente um problema muito mais grave que o da entrega das declarações patrimoniais de António Domingues e dos restantes administradores no Tribunal Constitucional: chama-se reestruturação. Sobre o governo, António Costa pode até estar com sorte, mas enquanto não fizer nada pelo investimento, e não fez, enquanto a geringonça não respeitar o património, e não respeita, tudo ficará na mesma: mal.

Por falar em património, os credores do BPP, incluindo o Estado português, vão recuperar todo o dinheiro que meteram na instituição. É nisto que acredita o fundador e ex-presidente daquele que ficará para sempre como o banco dos ricos. Foi por aqui que começou a conversa, com as condicionantes de quem ainda tem processos em curso e não quer falar de mais.

Admite a sua quota-parte de culpa, mas continua sem perceber como não se “atacou” a “mãe de todos os problemas”, como chama ao Banco de Portugal e aos auditores, e como os reguladores passaram por tudo isto sem uma queixa, um processo, e continua tudo igual.

Ao nível internacional, as suas ideias também são claras: com Trump na presidência os americanos vão melhorar de vida e isso é bom para os negócios. Em contrapartida, a União Europeia vai ficar cada vez mais para trás no panorama mundial e agora que as taxas de juro vão começar a subir vai ser um ai-Jesus. Se tivesse dinheiro para investir, compraria dólares.

Uma das últimas edições do Expresso noticiava o seu apoio ao New Museum, em Nova Iorque. Viu?

Vi, até fiquei bastante surpreendido. Acho que a situação não justificava um relevo tão grande. Com toda a franqueza achei um bocadinho de provincianismo. Fiquei espantado com uma referência tão significativa.

Isso pode trazer-lhe problemas com o tribunal?

Não sei, sei lá [risos].

Para apoiar este tipo de instituições é preciso ter dinheiro, não?

Foi uma homenagem, não foi nada de extraordinário, vem de uma relação de muitos anos. Acho que foi falta de notícias, se calhar o país está com falta de notícias. Podíamos fazer uma estatística: o número de notícias que saem sobre mim, sobre nada, sobre coisas que já saíram dezenas de vezes, mas continuam a ser publicadas como se fossem novidade. E isso é porquê?

Para não deixar esquecer o assunto até que esteja concluído, por exemplo?

Não sei. Mas isso pode até ser gestão de agenda, mas não é notícia.

Peço-lhe que faça um resumo do caso BPP — Banco Privado Português, iniciado em 2008. A quantos processos já deu origem?

Há os processos regulatórios, da CMVM — Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e do Banco de Portugal, que já transitaram em julgado e dos quais resultou a aplicação de multas contra mim na ordem dos 2,5 milhões de euros. E depois há os processos-crime: um de burla qualificada, em que fui absolvido em primeira instância e está neste momento em recurso no Tribunal da Relação, e outro de falsidade informática e afins, em fase de julgamento.

As coimas da CMVM e do Banco de Portugal ainda não foram pagas. Porquê?

É uma questão jurídica. Todos os meus bens estão arrestados e são esses bens, em valor muitíssimo superior ao das coimas, que vão responder por elas. O normal é que quando todos os processos se resolverem os bens arrestados sirvam para pagar aquilo que ficar definido que tem de ser pago, incluindo os tais 2,5 milhões de euros.

Ou seja, esse montante, e outros, se houver lugar a mais penalizações, só serão pagos no final de todos os processos e não à medida que estes forem sendo resolvidos?

Sim. É uma questão jurídica, ou de ineficácia do Estado. Do meu lado há bens mais que suficientes para pagar tudo e mais alguma coisa, e estão arrestados. Agora há que esperar que todos os processos se esclareçam, a decisão não depende de mim. Neste momento está feito o arresto preventivo, os bens estão à guarda do tribunal. Só quando a totalidade dos processos forem resolvidos alguma coisa pode ser paga, é assim que funciona.

Como tem sido a sua vida desde a falência do BPP?

É uma vida… Vou a Nova Iorque, vou a Bruxelas, vou a Londres, vou a todos os lados. Felizmente contacto com amigos, clientes, tenho uma actividade de consultoria internacional, que desenvolvo com pessoas que querem ouvir o meu conselho sobre isto ou aquilo. É uma vida normal, de uma pessoa que fez toda a sua vida nesses mundos.

Muitas vezes as pessoas ficam impressionadas e perguntam como é possível que se oiça João Rendeiro, que deixou falir o BPP. Como responde?

Em Portugal as pessoas acreditam que um inêxito ou um fracasso ou um problema qualquer é um certificado de óbito, a pessoa morreu. Noutros países, nomeadamente nos anglo-saxónicos, pelo contrário, isso é um certificado de experiência, de renovação. Não digo que não cometi erros, não digo que não pudesse ter feito melhor, o que digo é que continuo vivo e a exercitar os meus dons, uns melhores e outros piores, uns bons e outros maus, mas tento que apareçam mais os bons, de maneira a sentir-me vivo, útil e feliz. E tentando não fazer mal a ninguém, porque é isso que importa.

Onde aplica ou guarda o seu dinheiro?

Muito dele neste momento são empréstimos de amigos para os meus gastos diários por conta do que se salvar dos arrestos.

A investir, onde aplicaria?

Em dólares, não tenho a menor dúvida. Dólares e acções americanas.

O Estado perdeu dinheiro com o BPP?

Não; adiantou dinheiro. No fundo, é como se tivesse feito um empréstimo, e agora vai receber tudo de volta. Neste momento, há dinheiro mais que suficiente para pagar ao Estado, de tal maneira que o governo até incluiu essa verba no Orçamento do Estado para 2017.

Daí ter escrito um texto a dizer que os deputados da geringonça agradeciam a Rendeiro o contributo para o OE de 2017…

O Estado emprestou 450 milhões ao BPP e neste momento o que o BPP tem é mais que suficiente para devolver esse empréstimo, de tal maneira que o governo inscreveu no Orçamento do Estado de 2017 esse montante como receita extraordinária. O excedente desses 450 milhões será para pagar a outros credores.

Qual será o excedente? ­

Neste momento ainda não está definido, mas estimo que andará à volta de outros 450 milhões de euros, o que cobre praticamente a lista de credores — se considerarmos os credores finais, porque existe uma duplicação de credores na actual lista da massa insolvente. Retirando esta duplicação, os credores rondarão os 900 mil a mil milhões de euros, que anda mais ou menos em linha com o valor recuperado.

Na sua opinião, o BPP era viável?

Isto significa que o banco não precisava nada de ter ido à falência, poderia perfeitamente ter sobrevivido, como muitos sobreviveram, alguns coxos e até sem uma perna.

Mas não tinha liquidez…

Precisava de liquidez para os activos que na altura não estavam líquidos, mas estamos a falar de 2008, não de 2015 ou 2016. Na altura todos tinham falta de liquidez, houve uma crise brutal de liquidez no sistema e não havia transacções dos activos subjacentes — felizmente não cometemos o erro recente de vender ao desbarato esses activos, o que nos poderia ter ajudado a sobreviver por mais algum tempo aumentando o buraco, que veio a revelar-se gigantesco em muitos casos e impossível de pagar aos credores e clientes. Em 2008 preferimos assumir a crise, manter os activos, só vendidos mais tarde, já com os mercados em situação mais favorável, e realizar dinheiro para pagar tudo ou quase. Mas, claro, do ponto de vista político e da imagem, para o Banco de Portugal, era preciso um bode expiatório, uma ovelha negra. Uma história que hoje não faz sentido nenhum, como aliás se vê em casos como o BES, o Banif, a Caixa Geral de Depósitos.

Sim, não foi um ou dois casos, foram o BPN, o BPP, o Banif, o BES, a CGD e pelo meio outras situações difíceis, como a que aconteceu com o BCP ou o Finantia. O que é que isto revela?

Bem, há uma matriz comum e depois há especificidades para cada caso — excluindo daqui o BPN — Banco Português de Negócios, que é o caso mais antigo e tem características muito especiais, e com um problema acumulado já em 2007, um buraco que mais ninguém tinha. Sobre os restantes, mais coisa menos coisa, o que há é uma crise financeira que tem um impacto brutal na valorização de activos. Ou são activos de bolsa, acções ou obrigações, e essa desvalorização reflecte-se nas contas, ou são activos atípicos, como aconteceu no caso do BES, que são basicamente os investimentos da Rioforte: operações pouco transparentes. No caso dos activos de bolsa, recuperaram valor mais tarde, mas no dos activos atípicos — fazendas no Pará, terrenos em Angola, minas de diamantes e salinas não sei onde —, estavam valorizados de acordo com critérios da época e os novos critérios vieram dizer que afinal em vez de 100 valiam 10, em vez de 500 valiam 50.Passaram de uma valorização optimista para uma valorização pessimista e foi necessário criar efabulações para que o buraco nas contas não fosse expresso logo em 2008 ou em 2009, mas acabou inevitavelmente por aparecer. O caso da Caixa Geral de Depósitos é igual, mas menos extremo.

Bem, mas já não estamos a falar só de falta de liquidez. Podemos dizer que se chegou a esta situação devido a más estratégias, inconsequência absoluta ou trafulhice pura e dura?

Aqui, nos vários casos, tem o somatório de diversas coisas. Então, como diriam os muçulmanos, tem de ir à mãe de todas as coisas.

E quem é a mãe de todas as coisas?

É o Banco de Portugal. E o seu braço direito, que são os auditores. Não é possível entender todos estes casos, em que cada caso é um caso, sem entender que o assunto foi mal tratado desde o início. E continua tudo na mesma, porque o Banco de Portugal é o mesmo e as pessoas essencialmente continuam as mesmas. Não houve qualquer sanção pública a esta mãe de todos os males. Pelo contrário, o Banco de Portugal continua a ser protegido por toda a gente, embora com críticas mais ou menos veladas. O seu braço direito, os auditores, também não foi penalizado por fazer a certificação das contas de todas estas entidades, dizendo tudo e o seu contrário. Foi fácil atacar os banqueiros individualmente, massacrar pessoas individualmente de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Mas isso foi uma maneira de fugir ao essencial.

E o que era para si essencial?

Abordar o papel dos reguladores e dos auditores nesta matéria. Isso não foi feito e só isso justifica tantos casos e que nunca tenha havido penalizações, primeiro com Vítor Constâncio, depois com Carlos Costa. Carlos Tavares, sempre à frente da CMVM, também passou incólume todos estes anos.

Até chegou a falar-se no nome dele para a CGD…

Sim, mas não acredito nada nisso. A questão é que muitos destes casos individuais, muitas destas falências, aconteceram porque o Banco de Portugal os autorizou. Objectivamente, se tivesse chamado a atenção em tempo oportuno a dizer “isto não pode ser feito assim, tem de ser feito de outra maneira”, muitas situações teriam sido corrigidas em tempo útil. É muito fácil o Banco de Portugal vir agora dizer “fomos enganados”. Essa conversa do fomos enganados, estes senhores ocultaram, funciona para um caso, pode funcionar até para dois, mas não funciona para oito.

A União Bancária, que passa a supervisão dos principais bancos directamente para o Banco Central Europeu, vem desresponsabilizar ainda mais o Banco de Portugal?

Uma vez que o BCE passa a ser o supervisor dos bancos sistémicos, o Banco de Portugal deixa mesmo de ser o supervisor desses bancos. Bancos como a CGD, o BCP, o BPI ou o Novo Banco são agora supervisionados directamente pela Banco Central Europeu. E não é por acaso que o BCE tem feito um enorme esforço para que haja compras de bancos portugueses por bancos internacionais, nomeadamente espanhóis: isso facilita-lhe imenso a vida em termos de supervisão. É muito melhor para o BCE supervisionar o Banco Santander, que pode ter «dentro» bancos em Portugal, mas é um Santander consolidado, que supervisionar um Banco Santander e mais não sei quantos bancos portugueses. Ao BCE dá jeito que haja o mínimo de instituições possível — mais bancos representam mais trabalho, maior risco — e que os bancos a supervisionar sejam o maiores possível: too big to fail.

O pior é quando o parlamento português quer explicações do BCE…

Essa questão resolve-se obrigando o BCE a responder ao parlamento nacional. Mas a esse nível a falha que existe neste momento não é muito diferente da que existe em relação ao Banco de Portugal, que se escusa a entregar às comissões de inquérito parlamentares muitos documentos, baseando-se numa independência que, do meu ponto de vista, é muito questionável, que é o sigilo de supervisão.

Questionável porquê?

O sigilo de supervisão transforma este universo regulatório num universo sem escrutínio. E tudo o que não é escrutinado é perigoso. Pode entrar numa zona de prepotência, tem algo de ditatorial. Há aqui esquemas que não estão bem pensados e trabalhados, como a articulação entre reguladores e poder político. Até porque, em última instância, se houver um problema é o poder político que paga, a factura entra no Orçamento do Estado, vai ao contribuinte. Os reguladores são autossuficientes para tudo menos para passar cheques.

Por falar nisso, hoje os bancos não emprestam dinheiro a ninguém…

Os bancos têm neste momento uma capacidade de crédito muito elevada. Ainda outro dia fiz uma estimativa e só a Caixa Geral de Depósitos tem uma capacidade de crédito inutilizada de mais de 9 mil milhões de euros.

O que ia perguntar é se não emprestam porque as regras prudenciais se tornaram de tal maneira apertadas que inviabilizaram o negócio, digamos assim, ou se existe outro motivo.

Não emprestam, porque lhes falta capacidade comercial. E esta capacidade vem por duas vias, a primeira a falta de projectos, a segunda a falta de vontade de assumir risco. Dentro das regras estabelecidas pelo Banco de Portugal e pelo BCE, a CGD tem 9 mil milhões de euros disponíveis para dar crédito. Não o faz, porque tem medo de assumir risco e porque não há projectos capazes no país. Isto é, andam todos os bancos à cata dos mesmos clientes, que são poucos.

Mas faz parte do negócio assumir algum risco, que não é a mesma coisa que fazer loucuras…

Isso é importante, e é um problema que tem a ver com a crise financeira. Os reguladores assustaram de tal maneira os gestores bancários que eles hoje preferem não tomar uma decisão a tomar uma má decisão. Se um gestor bancário cometer um erro, é enforcado. Criou-se aversão ao risco nas tecnoestruturas bancárias, uma psicose negativa fruto de todos estes escândalos, da perseguição aos banqueiros e da crise financeira. Já ninguém é compensado por assumir risco, mas é sempre altamente penalizado. E pensar que não há erros na gestão bancária, como em qualquer outra, é absurdo.

É possível quebrar este círculo, estabelecer um equilíbrio?

Isto quebra-se num clima social e regulatório de aceitação de risco e do fracasso. De outra forma, há milhares de coisas que nunca serão feitas.

A CGD precisa mesmo de uma recapitalização de 4,6 mil milhões de euros?

O governo diz que precisa, esta administração também. Não fiz as contas, mas acredito que sim, porque a CGD estava altamente subprovisionada.

Os relatórios diziam que não.

Pergunte se os auditores da Caixa foram penalizados por assinar esses relatórios.

E o presidente do conselho de administração, José de Matos, e os restantes administradores e o presidente do conselho geral…

Pois, e o Banco de Portugal.

São incompetentes?

Ou alguém também poderia dizer que andaram a falsificar as contas.

Para onde foi todo o dinheiro que entrou nos bancos?

Isso tem a ver com a dimensão gigantesca do buraco.

E não têm de ir gente presa?

Eu não vou dizer que sim nem que não, só constato que não foi. E não só não foi com ninguém foi acusado de nada, nem de ser mau gestor. Digo-lhe mais, o meu receio é que esta recapitalização muito grande não vá resolver o problema.

Porquê?

Porque a Caixa tem dois problemas, dos quais só um está a ser enfrentado, que é a recapitalização. O segundo problema é mais difícil de gerir, é a reestruturação: pessoas, agências, custos, perfil de negócio, área internacional… Um problema muito complexo e por fazer. Na CGD a reestruturação vai envolver necessariamente muita política e, num contexto de geringonça, isso é dificílimo de gerir — basta imaginar que não pode fechar a agência no sítio tal porque está o chefe do partido ou algo semelhante. E se a administração de António Domingues, só por causa da declaração do património, criou este problema monumental e já está praticamente arrumado, é uma questão de mais mês menos mês, porque já não tem condições para ficar, imagine-se gerir se acontece outra recapitalização.

Isso é possível?

Se a reestruturação não se fizer ou se for feita de maneira insuficiente, dentro de três ou quatro anos será necessário outro montante gigantesco. O problema da Caixa, quanto a mim, é que não há condições políticas para fazer a reestruturação.

Para si, a entrega das declarações no Tribunal Constitucional é um problema menor?

Repare, a resposta imediata é não, as declarações devem ser entregues. Mas há a questão da razão por que o problema aparece e isso acontece porque no contexto da recapitalização foi considerado que a CGD devia ser tratada como um banco privado, pelo que os seus administradores não estariam ao abrigo do estatuto do gestor público. Não falei com António Domingues, este é o meu entendimento, mas isto não é um capricho dele, faz parte da lógica do programa de recapitalização negociado com Bruxelas. Um banco não pode ter ajuda de Estado segundo as regras europeias sob pena de haver uma resolução. Para escapar à resolução tinha de haver uma recapitalização à la privada e criou-se aqui uma ficção.

Estes gestores têm alguma coisa para esconder?

Penso que, na sua maioria, não terão nada a esconder. Haverá aqueles que não querem revelar o seu património. Os dois ex-presidentes de bancos, o espanhol e o alemão, são pessoas que têm os seus patrimónios nos seus países. Vieram no fundo fazer um favor a Portugal dando o seunome.

Um favor? Então não são remunerados? E ainda não conhecemos os resultados.

O que vão receber são peanuts, são administradores não executivos.

Mais uma razão, são não executivos.

Aqueles dois senhores vieram a pedido do Banco Central Europeu participar como não executivos no elenco da CGD. Acredite, não têm no currículo nenhuma necessidade de vir para aqui aturar estes malucos dos portugueses da Caixa Geral de Depósitos. Há um terceiro, mas aqueles dois senhores em particular não precisavam de ter vindo meter-se nesta confusão. E não vão continuar, não querem estar metidos nesta embrulhada monumental, é mais uma questão de princípio que outra coisa, porque também são escrutinados de sobra nos seus países. Acordaram participar num projecto com base em certas condições. A mim jamais acorreria aceitar ir para a Caixa Geral de Depósitos sem divulgar o meu património. O problema é que foi dito àqueles senhores que isso não seria necessário e de repente alguém vem dizer que afinal há um decreto-lei que diz o contrário, é preciso mostrar tudo. Ainda por cima a lei portuguesa é a mais intrusiva da Europa em matéria de divulgação de património. E o Banco Central Europeu é que esteve na origem de muitos destes convites.

É ou não importante que as declarações sejam apresentadas?

Eu diria que do ponto de vista da transparência é absolutamente necessário e indispensável. Do ponto de vista do interesse público é evidente. Agora o que não se podia era ter-lhes dito o contrário. É esta ambivalência, este jogo de espelhos, que está na base de muitos problemas.

Espanha teve o problema das Cajas, a Alemanha, que tem um sistema parecido, tem vindo a revelar problemas com os seus bancos e o Deutsche voltou a ser notícia pelos piores motivos, de Itália sabe-se lá o que virá… Que confiança inspira este sistema bancário europeu?

Bem, a diferença é que a saúde da economia alemã não é a da economia italiana, ou da espanhola ou da portuguesa. Os bancos e o sistema financeiro, falo da banca comercial, reflectem muito a saúde das economias. A economia alemã sofreu pouco com a crise financeira, os problemas dos bancos estão bastante mitigados. Diria que o Deutsche Bank tem um problema específico e neste momento já foi tão escrutinado que me parece que está relativamente controlado. Mas a questão levanta-se noutros países, nomeadamente em Itália, onde a situação é bastante problemática. O resultado do próximo referendo constitucional, a 4 de Dezembro, vai ser determinante. O primeiro-ministro Renzi disse que se demitiria caso ganhasse o “Não”, como é muito provável que aconteça, e isso lançará Itália, que muitos consideram o elo mais fraco da União Europeia, numa crise política grave. Fenómenos como este estão a desenrolar-se muito rapidamente e o tema da estabilidade financeira e dos bancos europeus prende-se com questões como estas: referendo em Itália, Brexit, eleições presidenciais em França, eleição de Donald Trump. E um abanão num grande banco provoca abanões sucessivos noutros bancos.

O curioso em todos esses fenómenos é que a escolha foi quase sempre uma fuga em frente. A opção foi a mudança, mesmo não sabendo para o quê, a manter o caminho actual.

Vivemos, depois da guerra, uma ordem internacional relativamente clara, com o predomínio dos Estados Unidos, a criação da NATO, da União Europeia e o desenvolvimento dos diversos países de acordo com uma ordem quase preestabelecida. Aconteceu um conjunto de mudanças, entre as quais a principal foi a emergência da China como grande potencia mundial, o surgimento dos BRICS e a maturação própria destes países, com consequências como a deslocalização das suas actividades, o desemprego e o subemprego das classes operárias dos Estados Unidos e da Europa, criando a génese dos deploráveis, que dão agora origem ao Brexit, e por aí fora. Vivemos um ponto de transição e ainda não sabemos o que vai acontecer.

Estamos na fase da desconstrução…

Estamos na fase da desconstrução, por isso muitos referem-se a ela como caos, mas desta perturbação vai sair algo novo, uma nova ordem. Os elementos-chave dessa nova ordem sabemos quais são: uma China que vai ser, se não a maior, a segunda potência mundial, em conjunto com os Estados Unidos; já sabemos que os EUA vão estar muito mais interessados na Ásia que na Europa – o que significa, entre outras coisas, que organizações como a NATO não são tão importantes e que a Europa vai ter de pagar pela protecção que os Estados Unidos dão à Europa; que há um conjunto de evoluções que vão acontecer, não em ruptura, mas de forma mais clara e rápida depois da eleição de Trump. Só não conhecemos a configuração final desta nova ordem, mas sabemos que vai ser muito diferente daquela que foi estabelecida nas últimas décadas.

Estava em Nova Iorque no dia das eleições?

Sim, estava.

Como foi recebida a vitória de Donald Trump?

Senti alguma surpresa, mas uma surpresa limitada. Sentia-se que Hillary Clinton tinha perdido muito elã desde a história dos emails. Quase se poderia dizer que não foi o Trump que ganhou as eleições, foi Hillary que as perdeu. Teve menos 6 milhões de votos que o Obama.

Quais são as expectativas no mundo dos negócios, da alta finança?

O mundo dos negócios está optimista. A agenda económica de Trump é no fundo muito parecida com a que foi a agenda económica do Reagan: baixar impostos e aumentar a despesa pública. Curiosamente, tem os republicanos a fazer aquilo que os keynesianos de esquerda, Krugman e outros, queriam que se fizesse, que era aproveitar as taxas de juro muito baixas para investir – e vão investir mil milhões de dólares em infra-estruturas, uma agenda tipicamente de esquerda, e republicana, baixar impostos. Só que penso que Trump vai fazer uma coisa interessante, que é baixar os impostos também para os mais pobres. Evidentemente que em termos proporcionais quem ganha a sério são os ricos, mas os pobres também ganharão alguma coisa. Diria que a agenda económica é francamente boa, ainda por cima tem a possibilidade de a executar, porque tem a maioria do Congresso e do Senado. Obama não teve e andava numa luta permanente.

E a ideia de que é um louco perigoso?

Não se esqueça que Trump é um homem de negócios, de 70 anos, 50 dos quais passados a gerir empresas. É um pragmático.

Sabe o que é ir à falência…

Foi à falência, recuperou, fez, desfez. Nos Estados Unidos ir à falência não é a mesma coisa que na Europa, muito menos em Portugal, que é pior que ir para a cova. Nos EUA é o recomeço da próxima coisa que se vai fazer. Mas Trump teve o instinto para apanhar as emoções do eleitorado e ganhar as eleições e esse instinto não lhe vem do nada, foi adquirido ao longo de uma vida a vender as Trump Towers, os resorts, tudo. Sempre soube o que a classe média americana queria. É pragmático e isso vê-se em tudo, no discurso de vitória, na reunião com Obama, nas escolhas de pessoal que está a fazer. Depois há muitas incertezas, que têm a ver com a política internacional, se vai ou não haver proteccionismo, por exemplo. Não acredito em tudo…

Por exemplo?

Durante da campanha Trump afirmou que iria pôr 45% de taxas sobre as importações chinesas, mas isto não vai acontecer nem nos próximos 50 anos, isto não existe. Disseram-se outras coisas que não vão acontecer, mas são incógnitas que exigem esclarecimentos. O que para mim é claríssimo é que mudou o regime económico. Tínhamos um mundo virado para taxas de juro baixas, quantitative easing, a política monetária comandava, não existia política fiscal, os estados não podiam gastar dinheiro e vivíamos num mundo de crescimento baixo. Trump veio mudar o paradigma. Agora passa a haver política fiscal, o governo vai baixar impostos, haverá investimento público, a economia vai crescer, duplicar, diz ele, a política monetária vai mudar radicalmente, as taxas de juro vão subir. O mix de políticas é, do ponto de vista económico, muito mais saudável que o anterior. Uma política centrada exclusivamente numa política monetária, que era o que existia antes, não é saudável. A política monetária não deve ser o único estimulante económico, o estimulante económico deve vir da política orçamental.

E o perigo de gerar mais dívida?

Vai gerar mais dívida, mas a dívida em si mesma não é um problema. O que é um problema é que não se pague. Se com a dívida se criar crescimento e gerar valor, se tiver retorno, essa é a chave. Os EUA estão numa situação de taxas de juro muito baixas e precisam de melhorar as suas infra-estruturas, que não são fantásticas — as portuguesas são muito melhores —, para serem mais eficientes, por isso o investimento faz todo o sentido. Mas é uma alteração radical em relação ao que existe hoje e tem impactos brutais na Europa.

Vai pôr em causa as políticas da União Europeia?

De repente toda a política de quantitative easing do Banco Central Europeu é posta em causa. As taxas de juro americanas começam a subir, o dólar começa a subir, já está a subir, e os mercados europeus vão ser pressionados no mesmo sentido — como é habitual, vai acontecer com três, quatro, cinco anos de atraso.

Mas entretanto os países da União Europeia não se reformaram…

A Europa não se reformou e Portugal ainda menos. E os países que continuam altamente endividados vão sofrer um impacto directo. Diria que desta interacção global, a União Europeia é largamente perdedora e em múltiplas dimensões. Desde logo na dimensão do regime económico, no sentido em que perde o pé em relação ao mix de políticas e à evolução das taxas de juro, que vão subir quando os investidores europeus não estão preparados para essa subida. Mas perde na questão geoestratégica, porque os EUA vão exigir à União Europeia que aumente a sua contribuição para as despesas militares da NATO. E a União Europeia perde também de uma maneira muito grande com esta brincadeira do Brexit e com os reequilíbrios que isso acarreta e talvez a frente mais desastrosa seja a frente da defesa. Pergunta-se: a NATO é dos americanos, os ingleses ficam de fora, quem é que defende a Europa? São os franceses?

Na guerra dos números, o PIB português cresceu 1,6% no terceiro trimestre, 0,8% em termos reais segundo o INE. Estava à espera?

É uma boa notícia, resta ver os detalhes. Para mim permanecem em Portugal grandes questões. O maior desafio é a confiança do investidor, quer externo quer interno, em relação à evolução económica do país. E as decisões do governo, de ordem fiscal, judicial, etc., afectam os activos pessoais e condicionam essa confiança. Digamos que o governo tem mostrado um respeito relativamente baixo, nulo ou mesmo negativo pelo património das pessoas, dos investidores. Havendo esta percepção, isso reflecte-se nas decisões de investimento. Se não respeitam o seu património, não vai investir mais, dizendo já que me querem roubar 50, tomem lá 100. E a situação é esta. Rico e luxo, são duas palavras proibidas em Portugal. Basta um desgraçado comprar uma coisita que é logo luxo e objecto de perseguição. Se for rico, ainda pior. O que pretendem é um país de pobres, mas querem ter um país de pobres com vida de ricos. Não funciona.

Ou seja…

Estas estimativas, que podem ou não vir a ser corrigidas, sendo positivas, não alteram o essencial da questão. Os números não estão baseados em investimento, em confiança, em elementos motores do progresso da sociedade. Esses motores estão todos gripados. De certa maneira lamento, porque penso que temos um primeiro-ministro com belíssimas qualidades políticas. Tenho pena que esteja na estrada errada.

Isabel Tavares – Atualidade – SAPO 24

  1. Caro João Rendeiro, pode explicar melhor porque acha que o dolar e as acções US vão subir? Gostava de o ouvir porque depois de anos a anos de QE e com El Trumpo no horizonte, não entendo o seu ponto de vista.

  2. Dr. Rendeiro,

    Sempre atento. Portugal é um bom sítio para se comerem pasteis de nata e marisco. Quanto ao resto, já era!

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