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Agosto 2017

5 comments

No verão de 2017 as taxas de juro subirão em flecha em Portugal e será altura de enfrentar uma forte turbulência económica e política.

Sim, é em agosto de 2017 que o BCE (Banco Central Europeu) atinge a sua cota limite nas compras de dívida portuguesa ao ritmo atual. A partir daí das duas, uma: ou se alteram as regras ou sobem de forma muito significativa os juros da dívida portuguesa e com ela, o de todos os passivos em Portugal.

Evidentemente, como em tudo na EU – e daí a sua falta de credibilidade – as regras podem mudar consoante os ventos. As quotas dos países elegíveis no QE (Quantitative Easing) poderão até ser aumentadas mas isso vai significar mais um embate político com os “falcões” no Board do BCE (liderados por Wiedman) que defendem que o QE deve ser abandonado. Aumentar a quota de compras a Portugal parecerá a estes autêntico sacrilégio e, a acontecer, virá com forte condicionalidade (leia-se, restrições orçamentais adicionais).

O segundo fator fortemente pressionante na subida das taxas de juro é, bem entendido, o quadro macro derivado da eleição de Trump. As taxas dos treasuries já pagam bem mais de 2% do que a divida alemã (daí a galopada do dólar) e este diferencial tem tendência a aumentar por não ser sustentável.

Por sua vez é bem possível que o preço do petróleo volte a dar sinais de alguma animação. O suficiente para um impacto desproporcionado para quem taxa os derivados do petróleo com impostos exorbitantes. Os combustíveis estão a atingir em Portugal preço que originará protesto e descontentamento.

As taxas do euro vão subir e isso será coincidente com o resultado das eleições em França e na Alemanha.

Se existe alguma certeza em França será a de que os socialistas serão afastados da Presidência e isso é prenhe de consequências para o equilíbrio das famílias políticas na Europa.

Imagine-se. A maior esperança dos socialistas franceses para combater LePen é um católico, fervoroso seguidor de Margaret Thatcher, François Fillon de seu nome.

Creio que Angela Merkel manterá a sua posição de Chanceler e, apesar de todas as dificuldades, uma posição de essencial estabilidade ao quadro europeu.

No seu conjunto, a EU assumirá os ventos do populismo e da viragem à direita que são claros num quadro internacional em transição geoestratégica. A Rússia – com Trump – já não é mais o inimigo principal dos EUA e isso tem enormes consequências políticas e financeiras para a EU. Neste quadro o Brexit coloca a política de defesa europeia num quadro alarmante.

Portugal, a meu ver, enfrentará no verão de 2017, dois fenómenos chave: uma subida significativa das taxas de juro e a perda do apoio da Presidência socialista francesa para moderar os ímpetos de Schauble.

A subida das taxas de juro colocará a nu a insustentabilidade da dívida pública portuguesa – um dos segredos mais mal guardados do Mundo.

Um dos teoremas básicos de “Finanças Publicas” é o de que a taxa de juro de longo prazo não pode ser superior à taxa de crescimento do PIB nominal. Em termos práticos, para o caso português, diria que taxas longas superiores a 4% colocam, em definitivo, a dívida pública portuguesa em território insustentável. Será isto o que se lerá nos ecrãs da Blomberg.

O verão de 2017 trará, assim, também o tema da reestruturação da dívida e isso significará condicionalidade. Isto é, os credores aceitarão sacrifícios mas terão que ser mútuos. Por outras, palavras Costa & Centeno terão que prometer apertar mais o cinto. Não é exatamente o que Louçã e Sousa têm em mente quando falam em reestruturação da dívida.

António Costa já entendeu que o quadro político internacional é o da viragem à direita. Já percebeu que vai perder o seu aliado fundamental na Europa e que a importância de Portugal nas discussões europeias é muito pequena. Portugal vai ter que pedalar por si num cenário macro muito desfavorável e politicamente ainda mais dominado pelo PPE.

Convém, agora, a António Costa uma “nova geringonça”. Uma recentragem política. Quem sabe mesmo um bloco central por si liderado. Mas vai estar a jogar contra o tempo.

O próximo “tempo político” será o orçamento de 2018 e, a meu ver, será tarde demais para descolar (em votação parlamentar) dos parceiros da geringonça. Louçã e Sousa já estão – concomitantemente – a aumentar fortemente os seus poderes histriónicos e de “rua” tentando marcar terreno para o novo cenário.

Em Portugal parece tudo calmo e anestesiado mas é a calma prévia à tempestade. Apertemos o cinto para a turbulência do verão quente de 2017.

  1. gonçalo costa says:

    Penso que crise poderá ter inicio já na primavera ……o Costa deixa de ser 1º Ministro com o fim da geringonça e não vai querer eleições com o país á beira da bancarrota e Marcelo também não quer eleições nem passos coelho a liderar um governo logo avança um governo Bloco Central de iniciativa presidencial, talvez liderado por Paulo Macedo, até ao fim da legislatura.

  2. Manuel Pinheiro says:

    Analise lúcida. De algum modo, o país está a tempo de tomar medidas. Nada indica que as tome porém.

  3. Miguel Pires says:

    Quando uma previsão é tão lógica e óbvia, normalmente nunca acontece!

  4. António Guerra says:

    Caro Dr João Rendeiro,

    Para quando uma análise lúcida e crua sobre a situação do BCP?
    O banco vive um drama trágico/felliniano e com um desorientado ao leme. Parece-me evidente que o actual ceo não tem capacidade nem estratégia para conduzir o navio que tem em mãos, é arrepiante comparar o market cap do banco em Janeiro de 2012 com Janeiro de 2017, pobres acionistas que têm pago trufa branca e recebem cogumelo enlatado.
    A ausência de decoro é tanta, que o dito ceo permite-se aldrabar os acionistas nos jornais, nas assembleias, em reuniões com os clientes, resumindo….sempre.
    A estratégia comunicacional é primária, qualquer marcenaria encontraria melhor forma de comunicar com os seus clientes/investidores, apesar de viver sob permanente ataque o banco decide entrincheirar-se, completamente alienado, causando a penúria a muitos dos seus investidores.
    Analisando o balanço do banco, o desempenho passado e o previsto para 2017, estimando as exigências de capital que o BCE fará, o BCP terá de realizar mais um enorme aumento de capital(prevejo 1000M), mas que não será o último se esta administração se mantiver.
    Gostaria muito de poder ler, aqui no seu blog, uma análise/previsão sua sobre o BCP.
    Melhores cumprimentos,
    António Guerra

  5. Este artigo está como sempre muito bem pensado e escrito, e como sempre a probabilidade de acontecer e infelizmente muito elevada.
    Estou contudo à espera para ver se escreve um novo artigo sobre o tema que lhe é mais querido, ou seja a banca, neste caso sobre o que se está a passar no BCP com mais um novo aumento de capital, e penso eu, mais um “golpe de teatro” da administração (Fosun, Sonangol).

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