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OBSERVADOR, Carrapatoso e Fernandes

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O OBSERVADOR fez três anos e os seus quatro fundadores com António Carrapatoso à cabeça publicaram um manifesto auto-elogioso significando o seu orgulho no êxito do projeto.

Creio terem razão em estarem orgulhosos pois em três anos ultrapassaram claramente o mainstream – como o EXPRESSO – no mundo digital e tornaram-se uma referência diária que frequento e recomendo.

Não obstante, tem o OBSERVADOR duas vulnerabilidades destacáveis que terão, a prazo, pesadas consequências.

Refiro-me à estrutura acionista por um lado e ao “justicialismo populista” por outro.

A estrutura do capital acionista do OBSERVADOR de € 3,2 milhões é composta por uma trintena de figurantes ilustres da sociedade portuguesa. Digo figurantes pois uns 45% do capital pertencem a uma sociedade de direito espanhol detida por um empresário português residente na Polónia e suas filhas – Luís Amaral.

Isto significa que Luís Amaral controla de facto o OBSERVADOR em termos acionistas. Pode formar maioria com um dos outros 30 figurantes – ou um par deles, e dada a natureza das coisas é uma questão de tempo para que o faça.

Direi mesmo mais, quanto maior o sucesso do OBSERVADOR maior será a natural tendência para Luís Amaral assumir abertamente  o controlo pleno e até aumentar para  bem mais de 50% a sua posição acionista.

Note-se que nada me move contra Luís Amaral – uma pessoa que conheço bem e por quem tenho grande apreço e simpatia. É, hoje, um empresário de importante património onde o OBSERVADOR não representará sequer 1%. Um empresário que beneficiou de uma das mais desastradas decisões de desinvestimento de Alexandre Soares dos Santos na Polónia – sendo apenas mérito seu aproveitar as aselhices dos outros.

Seja como seja, o “grandstanding” de Carrapatoso e Duarte Lino e Fernandes e Rui Ramos, esbarra com um pequeno detalhe: são empregados de Luís Amaral e esta é a dura realidade das coisas. Um dia pagarão o preço disso mesmo.

Como é que uma pessoa com a experiência de vida e dos negócios de António Carrapatoso faz tamanha asneira, ultrapassa a minha compreensão. Mas certamente ele terá uma explicação que arrasará a minha modesta inteligência.

A segunda vulnerabilidade que identifico no OBSERVADOR é, a meu ver, mais grave. Mais grave porque vai ao cerne dos princípios editoriais e ao nervo central da confiança dos leitores – afinal o único e frágil ativo de um Media.

Refiro-me ao “justicialismo populista” que coloca o OBSERVADOR como “uno mas…”, em concorrência direta com o CORREIO DA MANHÃ.

A questão central está no conceito de LIBERDADE e, para mim, quando se entende LIBERDADE num sentido restritivo, isso só pode resultar mal.

Na História Contemporânea portuguesa Mário Soares lutou de forma exemplar nesta específica matéria. Na mesma linha, veja-se como na recente entrevista ao EXPRESSO, António Barreto fala de LIBERDADE.

 

“A minha tendência é não a adjetivar. Não falo de liberdade política, de liberdade cultural, social, religiosa. Sei que pode haver essas liberdades todas e que se destinam a fundamentar as atividades humanas nos seus diversos setores.

Mas a minha liberdade é una.

Prefiro uma noção clássica de liberdade, aquela de poder fazer o que preciso de fazer sem ferir os direitos dos outros e a liberdade de não ser atentado pelo Estado.

Prefiro os conceitos de liberdade em que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, têm a sua esfera de escolhas e são responsáveis por elas. Não tenho simpatia por noções de liberdade que a fazem depender dos direitos coletivos e dos direitos sociais.

É nos direitos e liberdades individuais que começa a verdadeira liberdade”.

Em triste contraponto com tão bela definição, o conceito de liberdade dos fundadores do OBSERVADOR é extraordinariamente pobre. Cito do manifesto recentemente publicado por Carrapatoso, Lino, Fernandes e Ramos:

“Fazemo-lo em nome da liberdade – liberdade de expressão mas também liberdade económica – e de uma democracia adulta, informada e plural. Sem complexos e com muita ambição.”

Mas é este o conceito de LIBERDADE que os fundadores do OBSERVADOR têm? Mas onde estão os direitos cívicos do cidadão comum perante o Estado? A defesa acérrima de Direitos individuais como o Direito ao bom nome e à presunção de inocência?

Será que não chega que todos os outros Media sejam medíocres na defesa das LBERDADES – nomeadamente as do indivíduo face ao Estado, para vir agora o OBSERVADOR – com o seu suposto liberalismo, ser mais um a ajudar à festa, só para ter mais “clicks”?

Será que os exemplos históricos desde Robespierre a Baltazar Garzon não chegam como ilustração de que o “justicialismo populista” acaba por devorar os seus próprios protagonistas?

E que afinal dá tudo muito mau resultado?

O OBSERVADOR é lesto a publicar indícios judiciais (que poderão ou não serem confirmados em Tribunal) e completamente omisso quando ocorrem sentenças judiciais que absolvem arguidos mediáticos.

Aqui, o OBSERVADOR não é mais do que “me too”, fazendo exatamente o mesmo que o CORREIO DA MANHÃ. A única diferença é a de que esse é o natural posicionamento do CM.

E o que é mais extraordinário é que tal posicionamento seja completamente assumido e intelectualizado por José Manuel Fernandes que para tal contratou o execrável Luis Rosa, elevando-o a bandeira jornalística do OBSERVADOR.

É manifesto que, em Portugal, o sistema de Justiça está enviesado.

Temos um Ministério Público imparcial segundo a lei, mas que de facto atua como uma Advocacia de Acusação – o que aliás até estaria muito bem se fosse assumido enquanto tal.

Depois existe o Juiz das Liberdades – um bom conceito – que se for, não um contrapeso ao M.P., mas um seu reforço, desequilibra o sistema ainda mais.

E, depois, temos ainda uns Media que deitaram às malvas os princípios fundamentais dos Direitos Liberdades e Garantias Individuais. Agem como se não existisse segredo de justiça e são completamente impunes nessas infrações.

Tudo visto e somado, existem notícias a mais e Justiça a menos. Um estado de coisas que transformou a Justiça num dos principais problemas do país e os seus profissionais – a começar pelos Magistrados – altamente insatisfeitos com as suas deploráveis condições de trabalho.

Este quadro no sistema de Justiça apresentaria ao OBSERVADOR um terreno magnífico para fazer a diferença, um autêntico serviço público com pedagogia e rigor. Mas não, na sua ânsia dos “clicks” só quer gritar mais alto do que os outros.

Um dia o OBSERVADOR pagará o preço de ser um populista como os outros e de se não centrar acerrimamente na defesa da LIBERDADE. E José Manuel Fernandes que não se venha a queixar pois é o pai deste enorme erro.

Vou dar um exemplo para José Manuel Fernandes entender como é fácil “montar uma estória” que venda nos Media. Reza assim.

O fundador do OBSERVADOR António Carrapatoso tinha 32 anos quando foi convidado por Ricardo Salgado para a Administração da ESSI – Espírito Santo Sociedade de Investimentos S.A. que viria mais tarde a transformar-se em BESI e, agora, HAITONG BANK.

A ESSI era o “nó górdio” do GES que “pensava” toda a área não-financeira do GES e segundo conta o próprio António Carrapatoso na sua autobiografia “Desatar o nó”, teve fulcral papel num dos seus mais importantes negócios.

“António Carrapatoso como Administrador daquela Sociedade (ESSI) foi incumbido (por Ricardo Salgado) de liderar um consórcio (TELECEL) para concorrer a uma licença de comunicações móveis…

António Carrapatoso coordenou a elaboração da proposta, realizada entre Lisboa e São Francisco, sendo a mesma apresentada a concurso em abril de 1991”

Recorde-se que o XI Governo colocou em 1991 a concurso duas licenças móveis sendo que apenas uma estaria, de fato, disponível pois a segunda seria por definição para o então operador público.

O concurso público para a única licença móvel disponível foi considerado na altura o “Concurso do Século” dada a sua importância económica. Foi disputadíssimo por SETE consórcios integrando os maiores grupos empresariais portugueses e estrangeiros.

Tendo as propostas sido apresentadas em abril de 1991, o XI Governo integrado pelo Ministro de Estado Manuel Dias Loureiro e pelo Ministro das Comunicações Joaquim Ferreira do Amaral decidiu nos últimos dias da sua existência e em prazo recorde – outubro de 1991, conceder as licenças.

A única licença móvel disponível foi atribuída à TELECEL, subsidiária do GES – liderada pelo jovem adjunto de Ricardo Salgado, António Carrapatoso de seu nome.

Escusado será dizer que a rapidez de decisão, inferior a 6 meses, na apreciação de uma licença pública de tal valia económica e muito complexa engenharia técnica e financeira, originou enorme perplexidade. Nos dias de hoje teria tido um escrutínio seguramente muito mais exigente.

A TELECEL veio a ser o investimento mais rentável da história do GES, multiplicando por mais de 50 vezes o investimento inicial e fazendo pelo caminho António Carrapatoso um milionário.

A arqueologia documental dos PANAMÁ PAPERS e outros PAPERS quejandos poderá um dia surpreender-nos a todos e levar o Procurador José Ranito a encalhar no concurso móvel de 1991. Contudo, o que verdadeiramente me choca é outra coisa.

Refiro-me à capa da Revista de aniversário publicada pelo OBSERVADOR titulada “COMO ARRUINAR UM PAÍS – todas as ligações dos maiores negócios dos últimos anos”. Nesta capa figuram de forma proeminente Ricardo Salgado e Dias Loureiro como exemplos das tais figuras que arruinaram o país.

Eu não discuto se esta edição é bom ou mau jornalismo porque o meu ponto é completamente outro.

Tendo sido eu uma das pessoas mais prejudicadas por Ricardo Salgado e José Sócrates – como um dia será explicado, sinto-me completamente à vontade para dizer isto: António Carrapatoso deveria acompanhar o “ataque” do OBSERVADOR a Ricardo Salgado com uma declaração de interesses.

Carrapatoso deveria, quanto mais não fosse em nota de rodapé, fazer um agradecimento à confiança que Ricardo Salgado lhe depositou nos anos 90. Confiança num “jovem turco”, que não era ninguém, e trampolim para tudo o que Carrapatoso fez até hoje.

Mas não. Carrapatoso “não tuge nem muge”. Porventura dirá hoje que nunca falou com Salgado e ainda menos com Dias Loureiro.

Sinceramente, só tenho um comentário: “cão que morde um dono, morde qualquer dono”.Eu adoro cães mas quero distância total dos que mordem os donos.

Em resumo, O OBSERVADOR sendo um projeto de inegável êxito tem duas importantes vulnerabilidades.

O OBSERVADOR tem um acionista de controlo que mais cedo ou mais tarde vai mostrar quem manda.

O OBSERVADOR tem um “Publisher” que mais cedo ou mais tarde será devorado nas teias do “justicialismo populista”, tal como sempre aconteceu.

Entretanto, celebremos o OBSERVADOR no muito que tem de bom.

Quanto ao resto, who cares?

  1. Francisco says:

    Bom texto… Ainda assim, não publicando o Observador as razões pela qual, na “sua” (Observador) opinião, se arruinou um país porque um dos seus accionistas foi relacionado com uma pessoa responsável pela ruína, não seria limitar a liberdade de quem escreveu a revista do Observador?

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