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O TSUNAMI BOLIVARIANO NA VENEZUELA

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Os efeitos da “ revolução bolivariana “ promovida por Hugo Chavez a partir da sua eleição em 1999 – ou mais propriamente , a partir da derrota da “ contra-revolução “de 2002 – são tão aterradores que até custa escrever

• FREEDOM HOUSE , apontou Venezuela e Cuba como os dois únicos países do hemisfério ocidental como “ não livres “ , significando que a Venezuela é um Estado totalitário que retirou aos seus cidadãos o bem mais precioso do ser humano – a LIBERDADE .
• TRANSPARENCIA INTERNACIONAL , classifica a Venezuela- na escala corrupção – em 166 num total de 176 países estudados . A Venezuela é um dos países mais corruptos do Mundo beneficiando a elite político-militar de gigantesca riqueza . Como exemplo , uma das filhas de Chavez , Maria Gabriela , tem um portfolio estimado em $4,6 mil milhões .
• WORLD BANK – “ EASE OF DOING BUSINESS “ , classifica a Venezuela em 180 no conjunto de 185 países analisados . Só há 5 países no Mundo piores do que a Venezuela considerando um conjunto de critérios múltiplos como os direitos de propriedade , o funcionamento da justiça ou o mercado de trabalho .
• A Venezuela é um dos países mais violentos do Mundo , registou , em 2016 , 91,6 homicídios por cada 100 000 habitantes , um valor cerca de 20 vezes superior aos EUA . Em 1999 a taxa de homicídios era de 25 por cada 100 000 habitantes pelo que praticamente foi multiplicado por 4 no período . Caracas é , hoje , uma cidade mais perigosa do que Bagdad .
• Em 2016 , cerca de 85 % dos remédios básicos não estavam disponíveis nos hospitais ; a mortalidade das parturientes subiu 65% e a infantil subiu 30 % .A taxa de pobreza extrema subiu de 48 % em 2014 para 82 % . Neste período , 74 % dos Venezuelanos perderam em media 8,6 Kgs do seu peso.
• O FUNDO MONETARIO INTERNACIONAL estima que o PIB per capita entre 2013 e 2016 , tenha descido 40 % , estando agora cerca dos $ 4 000 – sensivelmente o valor de 1999.
• O petróleo representou , em 2016 , 95 % das exortações . Em 1999 era de 80 % – uma concentração excessiva foi transformada num muito indesejável monopólio de facto .
• O salario mínimo – que se aplica a uma larga fatia da população ativa – caiu 75 % ( a preços constantes ) entre Maio de 2012 e Maio de 2017. Em dólares caiu 88 % , de $ 295 para $ 36 por mês . O salario mínimo na Venezuela – medido em dólares ( o cambio de mercado é cerca de 800 vezes o cambio oficial )– é já inferior ao de Cuba .
• A hiperinflação – o mecanismo mais violento de expropriação dos pobres – foi de 100 % em 2015 , 700 % em 2016 e , estima-se , de 2 000 % em 2017.
• A divida externa atinge $ 160 mil milhões ( dos quais $ 60 BN , à China ) sendo a Venezuela – em termos relativos face ao PIB , às exportações ou serviço de divida / exportações – o país mais endividado do Mundo .
• A falta de divisas levou a uma brutal contração das importações – 75 % entre 2012 e 2016 , levando a uma generalizada escassez de bens . O Governo Maduro optou por cortar na importação de bens essenciais em vez “ default “/ renegociar a divida externa .
• Emigraram 3 milhões de venezuelanos , uns 10 % da população .

Esta síntese de indicadores é suficiente para ilustrar o colapso económico e social da Venezuela . Este colapso sem precedentes na Historia económica mundial – sendo mesmo bem pior do que a crise cubana de 1989 a 1993 – levanta a interrogação de como foi possível chegar aí . E como é que um regime que criou tantas esperanças na Venezuela e no Mundo quanto às politicas sociais , esteja a acabar na mais cruel e corrupta ditadura capaz de deixar à fome os seus cidadãos .

A presente crise venezuelana – embora sem paralelo – tem profundas raízes históricas que pré-datam mesmo o próprio Chavismo . Como notam dois excelentes economistas venezuelanos – Ricardo Haussman e Francisco Rodriguez – que editaram em 2013 uma obra obrigatória para entender o tempo presente “ Venezuela before Chavez : Anatomy of an economic colapse “ , o declínio económico da Venezuela começou no final dos anos 70 .
Até à década de 1970 , a Venezuela era o país mais rico da América Latina e um dos mais ricos do Mundo . O PIB per capita era superior ao de Espanha e Israel e apenas uns 10 % inferior ao do Reino Unido . Foi nesta altura que emigraram para a Venezuela pessoas de muitos países europeus , incluindo Espanha e Portugal ( entre os quais vários familiares meus ).

No entanto , a partir do final da década de 70 a Venezuela entrou num claro declínio . Entre 1978 e 2001 o PIB per capita ( excluindo o setor petrolífero ) caiu 35,6 % em termos acumulados . E se considerarmos o setor petrolífero a queda do PIB per capita é de uns impressionantes 49,2 % .

As intrincadas teias do subdesenvolvimento , magistralmente analisadas por Luigi Zingalles em “ Saving Capitalism from the Capitalist “ ( 2003 ) , tinham tomado conta da Venezuela . Os interesses rentistas ( empresariais , profissionais , sindicais ) apropriaram-se do Estado e capturaram – para seu beneficio – a distribuição de riqueza .

A corrupção , desigualdade e insuficiência dos serviços sociais , saúde e educação em particular , foram uma constante e atingiram pontos insustentáveis , por exemplo na Presidência de Carlos Andrés Pérez ( 1990-1994 ). Quem visitasse Caracas nestas alturas verificava imediatamente o desleixo do Estado nos investimentos em infraestruturas . Quem na estrada do aeroporto para o centro da cidade olhasse os morros circundantes acharia as favelas do Rio de Janeiro moradas de luxo . Evidentemente , um dia , os morros desceriam à cidade . E assim fizeram no Caracazo de 1989.

A Venezuela parecia capturada pela maldição da sua riqueza natural . Porque é que um país com 18 % das reservas mundiais de petróleo , liderando em conjunto com a Arabia saudita tal riqueza , caiu na espiral negativa do subdesenvolvimento ?

Dir-se-ia que a natureza deu à Venezuela tal riqueza mas que tais facilidades fizeram o país deitar-se à sombra da “arvore das patacas “ do petróleo . O facilitismo criou um largo espectro de subsidiodependência e daí à rentabilidade marginal negativa foi um passo . Os economistas designam este vírus económico como “ Dutch Disease “ e sabem como é difícil de ultrapassar .

As dificuldades crescentes da sociedade e economia venezuelanas nos anos 80 bem expressas no Caracazo de 89 , desembocaram no golpe militar protagonizado por Hugo Chávez em 1992. A corrupção e ineficiência da Presidência de Carlos Andrés Pérez ( 1990-1994 ) eram uma evidencia . A elite venezuelana poderia ter tomado o movimento militar de Chávez como um serio sinal de aviso .

Mas não .

Tranquilizaram-se com a prisão do então Tenente-Coronel e não perceberam as profundas mutações no seio dos militares nem a insustentabilidade das politicas sociais .

No seio dos militares estavam a emergir oficiais como Hugo Chávez que se enquadravam no serviço militar para fugir à fome e à miséria . O serviço militar na Venezuela – tal como o regime dos Seminários católicos em Portugal na Ditadura Salazarista – serviu para educar os mais capazes das famílias mais pobres e assim produzir o pessoal militar intermedio .
A teoria é que seriam enquadrados pelos oficiais generais de elite . Mas quando os majores e coronéis começaram a ser muitos e quando as condições de vida das suas famílias só pioravam – estava criado um favorável terreno para uma revolta militar .

Por sua vez , a continuação do declínio económico não era território favorável para a melhoria das condições sociais . É certo que a Presidência de Rafael Caldera ( 1994-1998 ) foi bem menos corrupta e acentuou as preocupações sociais mas os 14 programas da sua “ AGENDA VENEZUELA “ tinham o que podemos reconhecer como “ filosofia troikiana “ , muito vulnerável ao combate ideológico de um imenso arsenal de ativistas muito influenciados por Havana .

Foi neste quadro que Hugo Chávez se candidatou às eleições de 1998 e as ganhou , numa eleição limpa . A sua plataforma politica – embora fortemente influenciada pelos ativistas comunistas da escola de Havana – era , no essencial , centrada num populismo social-democrata . Chávez gozou de um amplo apoio económico e social . Veio depois a saber-se que a sua campanha tinha sido paga pelo banco espanhol BBVA. O seu então Presidente , Emílio Ibarra , foi julgado e condenado em Espanha por isso mesmo .

É certo que ,logo em 1999 ,Hugo Chávez aproveitou a embalagem politica para eleger uma assembleia Constituinte para alterar a Constituição da Republica da Venezuela , reforçando os poderes do Presidente e deixando manifestos um vasto conjunto de “ direitos sociais “. Teve papel central na redação destes “ direitos sociais “ o advogado de origem libanesa Tarek William Saab que já se tinha destacado em 1994 ao liderar a equipa jurídica que obteve a amnistia e consequente libertação de Chávez .

Não obstante , a tónica social-democrata da administração Chávez neste período era clara . O Presidente Hugo Chávez era visita regular dos EUA , ratificou 9 dos 14 programas da “ troikiana “ “ AGENDA VENEZUELA “ aprovada pelo seu antecessor e , apesar de uma retorica inflamada , os programas sociais eram “ mais do mesmo “. A verdade é que não havia dinheiro , o petróleo em 1992 estava abaixo do $ 30 por barril e , ademais , o Presidente não mandava no verdadeiro centro de poder na Venezuela – PETROLEOS DA VENEZUELA S A ( PDVSA ).

A luta pelo controlo da PDVSA foi iniciada em 13 de Novembro de 2001 com a publicação da “ Lei de los Hidrocarbonetos “ . Em resposta ,no dia 10 de Dezembro de 2001 , a PDVSA iniciou uma greve que lançou a Venezuela numa definidora crise politica que viria a marcar de forma irreversível a sua historia moderna .

Por sua vez , a elite empresarial , em conjugação com essa greve , fez “ lock-out “ , e , em Abril de 2002 , Hugo Chávez foi retido e obrigado a abdicar num golpe palaciano que colocou o líder empresarial Pedro Carmona na Presidência .

Foi “ sol de pouca dura “ . Chávez – através da sua filha Maria Gabriela – conseguiu passar a mensagem aos militares de que estava vivo , e passadas 48 horas voltava a ser Presidente .

A reação de Chávez foi brutal .

Culpabilizou ( sem razão ) George W. Bush pela rebelião e cortou as relações internacionais com os EUA – alinhando a sua politica externa com Cuba . Despediu 18 000 funcionários da PDVSA substituindo muitos deles por assessores (e adjuntos de assessor ) de cariz político . Concretizou-se um “ acidente “ de helicóptero que vitimou alguns dos oficiais Generais “ duvidosos “ . Efetuou –se , ainda , uma purga de pessoal politico na Presidência e nos Ministérios , com a massiva saída dos assessores da ala “ social democrata “ do regime .Ficou , assim , todo o caminho aberto para os ativistas da escola de Havana implementarem a “ agenda bolivariana “ , plasmada no “ Plan Estrategico Social – 2001-2007 “ , publicado em Julho de 2002 . Passado pouco tempo ,estavam 60 000 cubanos a apoiar a agenda bolivariana .

E puderam mesmo reclamar que os deuses estavam com eles . O petróleo começou a subir e praticamente quadruplicou de valor até 2007 . A exportação de petróleo passou de cerca de $ 14 mil milhões em 1999 para cerca de $ 60 mil milhões em 2007 . Sem nada ter feito , Hugo Chávez estava ,de repente , com a “arvore das patacas “carregada até ao céu . Tudo passou a ser possível .

A “ agenda bolivariana “ no sentido da transformação da Venezuela num Estado comunista acelerou-se , assim , em meados de 2002 , não tendo havido setor da economia e da sociedade que não tenha sido tocado .

No plano da organização do Estado salienta-se a “ desorganização do Estado “ tal como existia no seu sentido piramidal de cima para baixo. O Estado bolivariano é “ de baixo para cima “ e estrutura-se em base comunitária . Multiplicam-se os “ comités locais “ que decidem sobre a propriedade e modos de vida .

Ao nível da propriedade criou-se a “ MISSION TERRITORIO URBANO “ para legalizar as ocupações . Em 2005 nos 335 Municípios da Venezuela já havia mais de 4 000 “ Comités de território urbano “ que tinham atribuído mais de 170 000 títulos de propriedade a “ novos “ proprietários . É verdade que em muitos destes casos se tratou de legalizar as casas de “ morro de favela “- o que me parece bem . Mas em muitos outros ,tratou-se de legalizar ocupações selvagens , algumas vezes por razões de puro revanchismo . Em resumo , a relação dos venezuelanos com a propriedade passou a estar em crise ,todos temendo pelos seus patrimónios .

Ao nível da saúde implementou-se a “ MISSION BAIRRO ADENTRO “ onde médicos cubanos criaram clinicas locais . Em 2003 já havia clinicas com médicos cubanos em 320 dos 335 Municípios . Estas clinicas foram sendo ampliadas nas três fases desta “ MISSION” . Evidentemente , a Venezuela pagou esta cooperação cubana com o envio para Cuba de 400 000 barris de petróleo por dia , a preços altamente “ amigáveis “ .

Ainda no plano social foram implementadas outras “ MISSIONES “ .A nível alimentar a “ MISSION MERCAL” , onde através de uma rede de mercados , supermercados e hipermercados , se vendiam alimentos a preços especiais ; ainda na ajuda alimentar de emergência – nomeadamente às crianças – a “ MISSION COCINA “ , criou , por exemplo , em 2005 mais de 4 500 cozinhas locais ; no plano educativo a “ MISSION ROBINSON “ recrutou de forma massiva professores “ ad-hoc” , nomeadamente nas universidades , e os distribuiu pelos municípios .

Um ponto central e de grandes implicações económicas destas “ MISSIONES “ é o seu financiamento feito diretamente pela PDVSA .

A PDVSA que já tinha sido nacionalizada na primeira Presidência de Carlos Andrés Pérez , passou a monopolizar toda a exploração petrolífera em 2007 .Foram , então , nacionalizados ( com generosa indemnização ) os interesses estrangeiros , entre outros , EXXONMOBIL e CONNOCOPHILIPS .

Fruto da vertiginosa subida do preço do petróleo no ciclo 2002 / 2008 ( como já disse as exportações de crude subiram de $ 14 BN para $ 60 BN no período ) a PDVSA viu-se dotada de gigantescos meios financeiros , que a revolução bolivariana utilizou liberalmente .

Em vez de ter criado um “ fundo de estabilização “ – como na Noruega – para se precaver da eventual queda do preço do petróleo no futuro , a revolução bolivariana tudo gastou . E gastou não só os rendimentos correntes como não investiu no necessário capex de manutenção e atualização da sua infraestrutura petrolífera . Os especialistas dizem que a infraestrutura da PDVSA “ está em ruínas “ .

Fruto da saída de pessoal especializado no massivo despedimento de 2002 e da falta de investimento de manutenção e atualização , a produção de petróleo , em volume , tem sistematicamente descido . A Venezuela dispõe de uma quota na OPEP de 3,3 milhões de barris por dia ( mbpd ) mas em 2007 apenas produziu 2,7 mbpd , em 2012 2,4 mbpd e , atualmente , extraem cerca de 2 mbpd . Na verdade , a PDVSA não tem , hoje , nem capacidade técnica nem financeira para iniciar a exploração das imensas reservas da bacia de ORINOCO . Ou seja , mesmo em estado de necessidade e quando o preço do petróleo começou a cair ,a PDVSA conseguiu compensar em volume a descida de preço .

O programa de nacionalizações e expropriações dirigiu-se a toda a economia . Desde logo , à agricultura onde os latifúndios foram expropriados e a terra distribuída . Na industria , transportes e comunicações houve nacionalizações e expropriações tendo sempre o mesmo padrão : os interesses estrangeiros eram generosamente indemnizados e os interesses locais foram normalmente expropriados sem indemnização .

A “ revolução bolivariana “ obviamente introduziu o controlo de preços , salários e câmbios .

Logo em 2003 , foi introduzido o controlo de preços para 400 bens alimentares e evidentemente surgiu de imediato um florescente “ mercado negro “ . Entre 2003 e 2011 o preço destes bens alimentares subiu 9 vezes enquanto o salario mínimo subiu apenas 6 vezes . O controlo da distribuição dos bens alimentares – uma gigantesca fonte de lucro fácil – foi atribuído aos militares .

Em 2011 o Presidente Chávez publicou a “ Lei dos Preços y Custos “ que estendeu a toda a economia ( exceto bancos )o controlo de preços , sendo que os preços seriam baseados num formula de custo mais margem para cada setor .

Os economistas conhecem bem as distorções e ineficiências criadas pelas politicas de controlo de preços . Mas quando se vive no primado da “ ideologia barata “ – no sentido em que más ideias não têm custo , mas os produtos , sim – logo proliferaram empresas deficitárias e que , mais cedo ou mais tarde , deixaram de produzir . Quando uma empresa local deixa de produzir , se esse produto for necessário , tem que ser importado .

Os salários , por sua vez , foram centrados no desenvolvimento do salario mínimo , válido para toda a economia e na atribuição de amplos direitos aos trabalhadores , praticamente proibindo o despedimento e exigindo uma importante participação operaria na gestão das empresas .

Foi introduzido o controlo de câmbios em 2003 e fixado um cambio preferencial ( 10 BVS por USD )para um conjunto de programas especiais , nomeadamente importação alimentar . O cambio preferencial é uma gigantesca fonte de corrupção pelos ganhos imediatos que permite a quem o obtém . No tempo das “vacas gordas “mesmo a classe media beneficiava destes diferenciais multiplicando os $ 2 000 de cambio preferencial por pessoa .

Em substituição do empresariado foi desenvolvida uma “ nova economia “ onde foram encorajadas as cooperativas e as iniciativas comunais . Em 2006 estavam em operação 100 000 cooperativas agregando 1,5 milhão de pessoas ; 30 000 “ Consejos Comunales “ – agregando 150 a 200 pessoas cada – responsáveis pela alocação dos fundos públicos ; 3 500 “ Bancos Comunais “ responsáveis pela atribuição de microcrédito , alem do “ Banco Del Pueblo “ , do “ BanMujer “ e do “ Fondo de desarrollo MicroFinanciero “ . No seu conjunto , em 2008 , por exemplo, o microcrédito atingiu $ 1,6 mil milhões de dólares .

A grande enfase no microcrédito transformou uma boa ideia num gigantesco desperdício de fundos . Deve notar-se que o microcrédito pode ser micro mas é credito . Isto é , é suposto que seja pago o principal mais juros . Isto exige disciplina na concessão e no uso do credito e , dificilmente , se compagina com decisões comunais . Como resultado , o microcrédito foi entendido como subsidio a fundo perdido e destruída a sua sustentabilidade .

No seu conjunto , o objetivo politico para a “ economia bolivariana “ foi a substituição do capitalismo venezuelano por um modo de produção comunal ,com tolerância para as PME que sobreviveram ao caos . Como resultado de tudo isto , o setor não-petrolífero da economia que representaria uns 20 % do PIB quando Hugo Chávez chegou à Presidência em 1999 , ficou , entretanto , reduzido a metade . Por sua vez , as exportações não-petrolíferas , que representavam uns 20 % do total em 1999 são , agora , apenas cerca de 5 % .

Uma economia dominada pelo petróleo – e à mercê das suas flutuações de preço mundial – ficou praticamente monopolizada por ele . A esmagadora maioria dos bens alimentares tem que ser importada.

Neste quadro histórico a revolução bolivariana teve o seu auge com o pico do preço do petróleo em 2007 . Hugo Chávez reelegeu-se com larga margem ( 27 % ) na eleição Presidencial de 2006 e o regime bolivariano parecia ter tudo a seu favor .

Mas a queda do preço de petróleo começou a pesar e em vez de adequar os gastos á queda de receita – ou tentar aumentar os volumes produzidos – Hugo Chávez preferiu a via fácil da dívida . Aumentou fortemente a divida externa – colateralizada pela PDVSA com petróleo futuro , evidentemente – sobretudo com créditos da Rússia e da China . Em 2013 na critica transição para Nicolas Maduro a China emprestou $ 10 BN à PDVSA para manter o país solvente .

Nas eleições Presidenciais de 2013 – ainda com o preço do petróleo acima dos $ 100 por barril – a eleição do candidato “ bolivariano “ Nicolas Maduro já foi – apesar do forte apoio de Chávez – muito difícil .
Mas Maduro foi Presidente e com o petróleo a cair para a banda dos $ 50 em 2015- e a capacidade de endividamento adicional muito limitada – o ajustamento foi brutal .
Só temos dinheiro para importar 100 kgs de arroz ? Então só se come 100kgs de arroz.
Quem come estes 100 kgs de arroz e a que preços ? Os militares dirão .

Não obstante , importa notar que petróleo a $ 50 é o dobro do preço de 1999 quando Chávez acedeu à Presidência . Ou seja , mesmo nas atuais deterioradas condições de preço a Venezuela tem receitas anuais de petróleo de mais $ 22 mil milhões de dólares do que quando Hugo Chávez acedeu à Presidência .

Para onde vai este dinheiro ?

Ao mesmo tempo que a Venezuela caía nesta catástrofe humanitária ( 93 % dos Venezuelanos dizem não ter dinheiro para comer segundo o ECONOMIST , 29/7/2017 ) ,maior teria que ser a repressão sobre o povo . Os bolivarianos têm consigo o poder das armas – militares , guarda nacional e MILICIAS COMUNAIS/ COLECTIVOS – e jamais cederão de bom animo ao voto democrático . Como ultimo passo para a instauração de um regime de partido único foi eleita/nomeada uma Assembleia Constituinte que já nomeou uma comissão para aprovar os candidatos que se queiram apresentar às próximas eleições locais .

A Assembleia Constituinte nomeada por Maduro decidiu também demitir e processar a Procuradora Geral da Republica Luísa Ortega Diaz , que tinha sido nomeada pessoalmente por Hugo Chávez em 2007 . Esta destituição , para além de quebrar o ultimo vinculo com o Estado de Direito – um Ministério Publico independente – marca também uma importante fissura politica na base de apoio do regime bolivariano .

Luísa Ortega é uma figura histórica do chavismo que teve papel destacado na elaboração da Constituição de 1999 e nas promoções do Ministério Publico em reação ao “ contragolpe “ anti Chávez de 2002 . Nessa sequencia , foi nomeada Procuradora Geral da Republica em 2007 e sempre foi uma “militante bolivariana “, nomeadamente na perseguição do Ministério Publico venezuelano ao candidato da oposição Leopoldo López .

A Procuradora Geral foi , em Fevereiro passado , reunir-se no Brasil com os Procuradores brasileiros do LAVA JATO e recolheu provas que , alegadamente , incriminam pessoalmente Nicolas Maduro em pagamentos efetuados pela ODEBRECHT . Marcelo ODEBRECHT tinha sido apresentado em 2005 a Chávez por Lula da Silva e desde então , tal como aconteceu em vários países da América Latina , a construtora tem sido a empreiteira do regime . Em 2017 , por exemplo , a ODEBRECHT tem 11 importantes obras em curso na Venezuela .

Alegadamente , os Procuradores brasileiros terão encontrado provas de suborno de $ 98 milhões pagos pela ODEBRECHT a Maduro e ao seu entorno . A investigação conjunta do M P venezuelano neste processo seria a razão próxima para a destituição de Ortega .

Luísa Ortega , o seu marido – o ex-guerrilheiro amigo pessoal de Chávez e deputado Germán Ferrer – e os Procuradores Arturo Vilar Esteves e Gioconda del Carmen Gonzalez Sanchez tiveram que sair clandestinamente do país . No dia 18 de Agosto os serviços secretos da Colômbia transportaram-nos de Caracas até Paraguana onde tomaram uma lancha rápida até Aruba e daí , num curto voo privado , até Bogotá.

Nesse mesmo dia , Luísa Ortega fez um comunicação áudio de 5 minutos à Cimeira de Procuradores Gerais da América Latina , que teve lugar em Puebla , no México , justamente indicando ter provas concretas de suborno ao presidente da Venezuela Nicolas Maduro e informando que os 64 procuradores do M P venezuelano que investigaram a ODEBRECHT estavam retidos na Venezuela .

Entretanto , no dia 22 de Agosto o Presidente da Colômbia , José Manuel Santos , concedeu o estatuto de “ refugiado politico “ a Luísa Ortega e a Colômbia prepara-se para lhe outorgar honras de Estado . A oposição venezuelana parece ter encontrado em Luísa Ortega a sua cabeça de cartaz para as próximas eleições Presidenciais – se as houver .

Luísa Ortega foi , entretanto , substituída pelo seu velho “compagnon de route “ Tarek William Saab como Procurador Geral . Saab é considerado o braço direito do Vice Presidente da Venezuela ( a partir de Janeiro de 2017 ) Tareck El Aissami , por muitos apontado como o cappo da corrupção .

Tudo visto e somado a “ revolução bolivariana “ protagonizada por Hugo Chávez tem um balanço altamente negativo . É certo que , nos direitos sociais teve – entre 2003 e 2009 – um período de grande fulgor que entusiasmou a “ esquerda “ mundial . Mas ,mesmo nos direitos sociais , a queda do preço do petróleo – sobretudo a partir de 2014 – levou a uma completa reversão desses avanços.

A Venezuela tem , hoje , uma catástrofe humanitária sem precedente histórico . No plano da economia , a destruição do capitalismo deu lugar a …. nada . Uma agricultura ao abandono , empresas estatizadas deficitárias , uma economia totalmente dependente de importações – na medida em que as receitas do petróleo o permitam .Resta uma cleptocracia de dominante militar , apoiada na engenharia social cubana e nos seus 60 000 assessores , que apenas pretende o exercício do poder pelo poder .Em suma , uma revolução vazia .

Os Venezuelanos perderam o seu mais precioso bem – a LIBERDADE . Pergunto-me porque é que 30 milhões de pessoas , num país dotado de enormes riquezas naturais , como o petróleo , os diamantes e outros recursos , e ímpares belezas naturais como LOS ROQUES , LA RESTINGA e CANAIMA , não podem encontrar um futuro de paz e prosperidade ?

Choro por ti , Venezuela .

  1. António Tomás says:

    Li no insuspeito jornal Ell País , com data de 2014:O Governo do Maduro fechou a fronteira com a Colômbia porque cerca de 40 por cento da sua produção estava a sair do país na forma de contrabando, acusava os USA e a oposição de uma guerra económica , hoje o resultado está aí a comprovar…

  2. Um texto objetivo e muito acertado sobre a realidade venezuelana. Posso confirmar por verdadeiro por conhecer bem a realidade venezuelana. Obrigado.

  3. João Cirne says:

    Excelente artigo,apenas uma observação e pequena correcção.Entre Caldeira aqui mencionado e Andres Peres eleito em Fevereiro de 89,governou Jaime Lusinsh que deixou a Venezuela num caos,tendo a mesmo sido obrigada a uma intervenção do FMI ja a cargo da presidencia de Perez que levou ao Caracazo.Entre Fevereiro de 89 com a chegada da Missão do FMI chefiada por Michel Candessus foi programado um ajuste em que se previa um aumento de até 300% na maioria dos produtos de grande consumo e já na epoca se questionava o preço da gasolina ser mais barato que a agua.Acontece que esperando estes aumentos os comerciantes tiraram os produtos de venda levando a uma escassez tão grande que em Caracas e noutras grande cidades Venezuelanas(Valencia Maracaibo etc) houvesse uma onde de saqueios devastadora que produziram milhares de mortos.(oficialmente 300 mortos)

  4. Jorge Sarmento says:

    Um artigo veradeiramente esclarecedor. Creio que é tambem alerta considerando o atual quadro político português e as posições e omissões de algumas forças políticas face à situação dramática que se vive na Venezuela. Surpreende e perturba a passividade da comunidade internacional face à criação de um estado totalitário.

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