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Tancos e a morte de Sá Carneiro

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Francisco Sá Carneiro foi uma vítima acidental de um atentado que pretendia atingir apenas Adelino Amaro da Costa, o então Ministro da Defesa.

A minha convicção é a de que Adelino tinha descoberto um esquema de tráfico de armamento envolvendo altas patentes militares, pretendia denunciá-lo e foi morto por isso. Francisco Sá Carneiro decidiu à última hora seguir no mesmo avião em que Adelino tinha decidido viajar para o Porto, e morreu igualmente.

Na linguagem da guerra foi vítima de “fogo amigo”.

Que nós, como muitos, tenhamos esta convicção mas que nada tenha sido oficialmente apurado, atesta estarmos em presença de interesses muito poderosos. Até hoje – protegidos por um alegado interesse de Estado – os mandantes do atentado ainda não foram descobertos.

A novela do roubo de armas em Tancos e do “encobrimento” do roubo – que se tornou mais importante do que o próprio roubo, fazem-me pensar que qualquer dia acidentalmente morre alguém.

Penso, por exemplo, na tentativa de envolver no “encobrimento” o Presidente da República.

Um observador independente não deixará de considerar que se houve entidade que de forma insistente procurou estimular a descoberta da verdade sobre Tancos foi o Presidente da República.

Que agora se tente – até na Televisão pública – envolver o Presidente no “encobrimento” mostra até que ponto o roubo das armas está ancorado nas mais altas esferas do Estado. Porque na verdade é absolutamente irrelevante se Marcelo sabia do “encobrimento”. Porventura, por saber do “encobrimento” e da teia envolvente tanto tem insistido na descoberta da verdade sobre o roubo.

Parece resultar óbvio que havendo tantos e tão poderosos interesses envolvidos no “encobrimento” é porque se pretende que a verdade sobre o roubo não seja descoberta. Noto aqui o papel da comunicação social totalmente alinhada com a espuma do “encobrimento”.

A fundamental diferença sobre Camarate é a de que, agora, houve um roubo que está explicito publicamente, que foi publicitado na imprensa internacional e agitou as chancelarias. É certo que numa certa fase até um Ministro chegou a por em dúvida se o roubo teria mesmo existido, mas depois veio o “encobrimento” de um roubo que se calhar não existiu.

Não obstante todos os esforços para a mistificação parece não haver dúvidas: em Tancos houve um roubo de armamento. Até pode ser que – por interesse de Estado – se não venha a descobrir ou revelar quem foram os protagonistas deste roubo.

Mas que houve roubo, houve. E não foi o primeiro pelos vistos.

A teoria da “carochinha” de que se pretenderia “apenas” excluir a Polícia Judiciária da investigação deste roubo, não resiste a um mínimo teste de inteligência. Parece óbvio que se pretendia afastar a PJ justamente para que a verdade nunca fosse descoberta ou que se encontrasse uma conveniente narrativa sobre a mesma.

Depois de descobrir os tristes protagonistas do “encobrimento”, cabe ao Ministério Público e à Polícia Judiciária a histórica responsabilidade de descobrir os mandantes do polvo do tráfico de armas.

É muito difícil, aceito. Mas se o MP quer ser levado a sério no combate à corrupção terá que dar nomes e apelidos a esta trama.

A tentativa de envolver o Primeiro-ministro e o Presidente da República no “encobrimento” – pelas cumplicidades reveladas, até na comunicação social pública – sugere um esquema corrupto ao mais alto nível do Estado, certamente em altas patentes no Exército e oxalá outros ramos militares não se incluam. Extremamente lamentável que uns quantos coloquem em risco o prestígio das forças armadas.

As equipas de segurança pessoal do Ministro da Defesa, do Primeiro-ministro e até do Presidente da República deveriam estar em alerta vermelho.

Marcelo disse que a investigação deveria avançar “… Doa a quem doer”.

Desejo que o efeito boomerang não ocorra.

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