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Mapplethorpe e a morte de Serralves

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O ex-Director Artístico do Museu de Serralves, João Ribas, demitiu-se com estrondo e grande eco no mundo da arte contemporânea. O seu amigo, João Florêncio, redigiu uma carta aberta à Presidente do Conselho de Administração de Serralves, Ana Pinho, a “condenar o ato de censura“ que foi subscrita por cerca de 400 pessoas.

Evidentemente, um ato de censura seria gravíssimo no mundo da Arte. Equivaleria na área penal a um assassínio ou a uma violação, daí a enorme repercussão de uma tal imputação.

A imprensa do setor foi avassaladora :

ARTFORUM: “SERRALVES ARTISTIC DIRECTOR RESIGNS OVER MUSEUM REMOVAL” ;

ARTNEWS: “FOLLOWING ALLEGED CENSORSHIP OF MAPPLETHORPE SHOW , COLLECTOR SEEKS TERMINATION OF 700 WORKS LOAN TO SERRALVES MUSEM”;

ARTNET: “A CURATOR RESIGNED OVER CENSORSHIP OF HIS ROBERT MAPPLETHORPE SHOW” ;

THE ART NEWSPAPER: “WOLFGANG TILLMANS AND TANIA BRUGUERA PLEDGE SUPPORT FOR CENSORED SERRALVES MUSEUM DIRECTOR”.

Em resumo, João Ribas seria uma heroica vítima de um monstruoso e homofóbico Conselho de Administração. Em resumo, um mártir.

Logo sucedeu uma manifestação de uma vintena de apoiantes do BE, alguns dos quais programadores em Serralves, a exigir a demissão/ destituição do CA, curadores destacados como João Fernandes, Alexandre Melo e Pedro Lapa – embora acentuando que o fizeram com base nas notícias de imprensa – manifestaram o seu repúdio.

Na entrevista ao OBSERVADOR, Pedro Lapa, embora colocando o tema numa perspectiva mais ampla, disse “…obviamente houve censura. Estava previsto um número de obras que não foi exibido.” e  “… O que temos encontrado são administradores que vêm do meio financeiro, do meio empresarial e que chegam aos Museus com modelos absolutamente desadequados. Qual é o currículo cultural destes administradores de Serralves? É zero. Não é só em Serralves.”

Apoiando João Ribas salta à cena o colecionador Teixeira de Freitas que terá em depósito em Serralves, num protocolo celebrado com João Fernandes, uns 700 desenhos. Reportou-se que quereria retirar este depósito por ser incompatível com censura. Trata-se de uma notícia divertida pois quando confrontei João Fernandes com este “depósito” ele o desvalorizou completamente dizendo que os desenhos caberiam num pequeno armário. Em suma, um depósito irrelevante. Mas se era irrelevante para Serralves, era muito relevante para Teixeira de Freitas pois assim valorizava o seu espólio. Cumprida a missão cabe assumir a retirada.

Inopinadamente, o Presidente da Câmara do Porto – um dos principais financiadores de Serralves – veio a terreiro pedir a convocação urgente do Conselho de Fundadores, o máximo órgão de Serralves onde é eleito o CA, para apreciar a crise. Chama-se a isto “por lenha no lume”, ou dito por outras palavras por Ana Pinho a “queimar em lume brando”. Se pensarmos que, alegadamente, a família direta de Ana Pinho foram principais apoios financeiros de Moreira na sua campanha à Presidência da Câmara do Porto, podemos intuir o intricado jogo político em presença. Ao menos esta frente resolveu-se rapidamente, o Presidente do Conselho de Fundadores Luis Braga da Cruz mandou calar Moreira – e ele calou-se.

As repercussões políticas tinham, necessariamente, que ocorrer. Delegações parlamentares visitaram Serralves para verem in loco a fonte de tanta perturbação e saíram pouco esclarecidas. A administração de Serralves e João Ribas foram ouvidos no Parlamento e mantiveram as respetivas versões. Na verdade, o PS foi mandado calar por quem manda por ter rapidamente intuído que a parada ia ser muito alta.

Perante um programa de comunicação poderoso na densidade da mensagem “censura” e amplitude internacional – curadores e artistas internacionais, o CA, talvez pelo impacto da enorme surpresa, teve uma resposta tímida. Pela voz de Isabel Pires de Lima negou a alegada censura e depois em conferência de imprensa com um significativo número de administradores presentes, Ana Pinho negou a narrativa divulgada. De forma muito significativa Pacheco Pereira mostrou a sua solidariedade com a Comissão Executiva do CA e negou peremptoriamente qualquer censura. De forma igualmente significativa todo o Conselho de Administração ficou totalmente solidário.

De todas as formas a resposta do CA foi inadequada. A um ataque na imprensa internacional especializada, com utilização da social media no abaixo-assinado em inglês do amigo de Ribas, o CA teve uma resposta eminentemente doméstica que ainda por cima passou mal – dadas as afinidades ideológicas conhecidas de jornais como PÚBLICO, por exemplo. Pacheco Pereira em entrevista ao mesmo jornal mostrou a sua frustração pela dificuldade de comunicação mas, pelos vistos, também ele não percebeu o verdadeiro alcance do tema.

Pacheco disse que o único erro da CE de Serralves foi não ter respondido “feio e grosso” ao ataque de Ribas mas ele próprio teve uma frouxa reação. Criticou Ribas mas tinha “respeito intelectual por ele”, ou seja, deu uma no cravo e outra na ferradura. Entendamo-nos, um traste com envergadura intelectual é antes de mais um traste, ou um intelectual, como parece entender Pacheco? Para mim, um traste é um traste. Ponto.

Tudo visto e somado o impacto reputacional sobre Serralves foi muito elevado. Como se costuma dizer uma reputação leva anos a atingir e segundos a destruir. Durante muitos anos vai perdurar uma sombra negativa sobre Serralves em particular em importantes segmentos do rarefeito círculo dos curadores.

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso pensaria que para danificar seriamente a imagem internacional de Serralves teria necessariamente que haver argumentos poderosos e irrefutáveis, acima de qualquer dúvida. Será o caso?

Mas afinal o que alega João Ribas e contralega o CA?

Em comunicado Ribas disse “…foram- me impostas, enquanto Director do Museu e no contexto da exposição de Robert Mapplethorpe: Pictures, restrições e intervenções que criaram um ponto de ruptura em termos de autonomia artística e de uma atividade de programação livre de intromissões ou repreensões”.

Sublinho que João Ribas – ele mesmo – coloca a questão exclusivamente no âmbito Mapplethorpe e nada mais. Desta forma não será necessário recorrer a outros putativos temas relacionados com o despejo de “loiça partida” levada a cabo pela administração de Pinho e que gerou um exército de descontes, de repente, desempregados.

Em concreto, a questão Mapplethorpe estaria em três pontos:

-20 fotografias não expostas foram-no por decisão do curador ou da administração?

-uma sala expondo obras mais sensíveis teve acesso reservado com acordo do curador ou foi uma imposição da administração?

-2 obras foram deslocadas da área de acesso geral para a área reservada por imposição da administração ou com o acordo do curador?

Em relação às 20 fotografias não-expostas, Ana Pinho foi taxativa “…todas as fotografias foram escolhidas pelo curador. As 20 fotografias não incluídas foram-no por decisão do curador.”

Para além de não acreditar que Ana Pinho possa mentir sobre uma tão evidente matéria de fato – certamente se mentisse várias testemunhas viriam imediatamente a terreiro, o que me parece, de longe, mais relevante é o testemunho do Presidente da Fundação Mapplethorpe Michael Ward Stuart. Não obstante, acredito que 2 fotografias tenham sido deslocadas da área geral para a área reservada por indicação da CE.

Não tenho a menor dúvida de que se algo eticamente menos correto tivesse acontecido o Presidente da Fundação Mapplethorpe o teria denunciado. Cabe-lhe a ele, muito mais do que a João Ribas ou a qualquer outra pessoa ou entidade, preservar o legado material e imaterial de Mapplethorpe. E que disse Ward Stuart?

“…a demissão de João Ribas de Director Artístico de Serralves foi completamente inapropriada e pouco profissional…o fato de ter anunciado a sua demissão aos meios de comunicação social antes de anunciar à administração, representa uma atitude muito egoísta da parte de João Ribas.

Muitos Museus por onde a exposição já passou pegaram nestas desafiantes fotografias e puseram-nas em diferentes espaços, colocando avisos semelhantes aos de Serralves “…as fotografias mais desafiantes estão presentes no Museu de Serralves e João Ribas apenas removeu duas… Não sei porque é que o João Ribas retirou as fotografias, não faz sentido nenhum. Não sei porque o fez e porque o fez desta forma.”

Por sua vez Pacheco Pereira, embora não tenha certamente vivido diretamente os acontecimentos dado seu papel não-executivo, recolheu suficientes dados para ser taxativo “… Eu sei o que é censura e em Serralves não houve nenhuma censura.”

Acrescentou ainda “… Não é natural que o curador apresente uma exposição à imprensa e as pessoas e receba os aplausos, sem fazer qualquer referência aos problemas que colocou no dia seguinte.”

Poder-se-ia pensar que estando Ribas Diretor Artístico há apenas oito meses haveria um desencontro de personalidades. Mas a verdade é que Ribas trabalhou como Sub-Director de Serralves 4 anos com Ana Pinho e a sua CE. Se Ana Pinho e a sua administração tivessem um estilo de trabalho inapropriado certamente João Ribas teria tido mais do que tempo para se aperceber disso mesmo e não se teria sequer candidatado ao cargo de Director.

Foi neste período da Direção Artística de Suzanne Cotter que a administração de Ana Pinho tomou a decisão de fazer a exposição de Mapplethorpe. Como é óbvio, esta decisão foi um claro risco assumido muito longe de uma postura conservadora. Se este projeto – erradamente – tivesse sido congelado, toda esta polémica teria morrido à nascença.

Mais. A CE do CA participou no júri internacional que há apenas 8 meses escolheu João Ribas – por unanimidade. Acolheu-o de forma laudatória e entusiástica quando iniciou o seu mandato de 5 anos “João Ribas… excelente percurso internacional, conhecedor profundo da arte portuguesa, notável capacidade reflexiva sobre o fenómeno artístico, visão programática muito estruturada, estimulante e refrescante.”

Como parenteses mas ponto essencial, a confiança – diria cega – que o CA depositou em Ribas não foi diferente da aposta – acertadíssima – de João Marques Pinto em Vicente Todolli e depois no seu sub-director João Fernandes. Chamaria a isto o consenso de Serralves: uma administração dominada pela direita liberal convivia tranquilamente com uma Direção Artística próxima da extrema-esquerda (adoradora de champagne evidentemente).

As administrações de Serralves sempre foram da máxima tolerância com a Direção Artística, tendo porventura o seu ponto alto quando João Fernandes – em exercício de funções – declarou o seu apoio político ao Bloco de Esquerda. Mas já agora, este equilíbrio político não é muito diferente do que se regista em muitos Museus por esse Mundo mas jamais Borja Vilela se atreveria a declarar apoio político a quem quer que seja.

João Ribas, qual elefante em loja de cerâmica fez romper este consenso. Qualquer que seja, afinal o vencedor desta contenda jamais o CA vai confiar na outra parte como até então. Algo muito importante em Serralves morreu.

Na minha avaliação a demissão de João Ribas nada teve a ver com a exposição de Robert Mapplethorpe. Mas, seguramente foi o palco ideal para colocar em cheque Ana Pinho e a sua administração: a repugnância do mundo da Arte à censura; a absoluta epidemia à homofobia foram terreno de eleição.

Nisso, Ribas foi cirúrgico e “atirou a matar”.

Mas será que matou mesmo ou fez um pesado erro de avaliação quanto ao peso político de quem o apoia?

O CA de Serralves poderá, como diz Lapa, ter pouco currículo cultural mas não lhe falta capacidade política e de gestão. Na verdade, o atual CA é o que sempre foi: uma representação da burguesia e da melhor elite do Porto e do Norte. Esta elite nortenha sempre entendeu Serralves como um projeto por si liderada em antinomia a Lisboa. Que de Lisboa venha dinheiro todos estarão de acordo mas que venha dirigir Serralves necessitaria uma revolução.

Em Serralves sempre foi claro – o tal consenso não-escrito – que o CA geria e o Director Artístico e uma vasta equipa de programadores percebia de arte contemporânea. Mas se alguém pensa que a gestão de Vicente Todolli ou João Fernandes – sobretudo este – foi isenta de momentos difíceis ou extremada tensão está simplesmente a sonhar. E de resto isso é normal em qualquer organização.

Na verdade, é esta mesma elite nortenha representada no CA de Serralves que financiou e elegeu Rui Moreira como Presidente da Câmara do Porto – como aliás o tinha feito com Rui Rio. Daí que a inoportuna intervenção de Moreira na polémica de Serralves lhe possa custar caro.

No meio de tudo isto, quem mais pode está calado. Refiro-me obviamente ao Governo pois o orçamento de Estado financia em mais de 50% Serralves, a acrescentar o peso das Câmaras Municipais e certas entidades de influência do Governo.

O Primeiro-ministro já percebeu que Serralves é uma excelente moeda de barganha para trocar as voltas a Moreira. Permito-me prever que a administração de Ana Pinho terá o seu mandato renovado mas o apoio da elite nortenha a Rui Moreira estará por um fio Quem diria ser este o “end game” de um aprendiz de feiticeiro.

João Ribas, qual cão que morde o dono, desencadeou um processo político onde julgava ter alguns trunfos. Disse que se demitia por Mapplethorpe mas isto não passa de torpe mentira. Os seus objetivos visavam obstaculizar a renovação do mandato de Ana Pinho para aí colocar alguém mais próximo, mas isto é um jogo muito acima do seu campeonato.

Onde fica João Ribas no meio disto tudo? João Quem?

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