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A EXPOSIÇÃO MALDITA: JOANA VASCONCELLOS EM SERRALVES

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Esta exposição, dizem as más-línguas, terá custado o lugar aos dois últimos Diretores de Serralves. Embora não exista nenhuma declaração pública nesse sentido de Suzanne Cotter ou de João Ribas, os opositores da Administração de Serralves a tudo se agarram.

Em particular, no caso de João Ribas, é conhecido que, em privado, colocou as maiores reservas à viagem de “I’M YOUR MIRROR do Museu Guggenheim para SERRALVES. De tal forma que tendo tido a oportunidade de fazer uma curadoria conjunta com o Guggenheim Ribas deixou Serralves num vazio.

Mas, publicamente, João Ribas nunca teve a coragem de citar este caso como motivo para a sua demissão. A sua cobardia preferiu o terreno da “censura” a MAPPLETHORPE – terreno que julgava mais favorável, mas correu mal.

Mas a exposição em Serralves é maldita porque Joana

Vasconcelos é uma artista maldita para a maioria – diria esmagadora maioria – do “meio” (curadores, críticos, jornalistas, artistas, …) da arte contemporânea em Portugal. Estes críticos do trabalho de Joana têm, tal como Ribas, a característica do trabalho nos bastidores, a pequena risada depreciativa, a distante superioridade intelectual. Não têm a coragem de se assumir e escrever o que pensam.

Eu próprio, influenciado por estas narrativas devo confessar, nunca fui um adepto do trabalho de Joana e como tal nunca comprei ou incentivei que se comprassem peças suas, nomeadamente para a ELLIPSE FOUNDATION.

Isso mudou quando vi a “Valquíria” na Royal Academy.

A razão para o menosprezo de uns e a pura maledicência de outros para com Joana Vasconcelos tem inter-alia várias dimensões.

Desde logo, a natureza lúdica do seu trabalho apelando aos materiais “pobres” do dia-a-dia e ao artesanato. A grande escala – dizem – seria um objetivo em si mesmo visando a espetacularidade e a popularidade fácil. Os objetos/esculturas de Joana Vasconcelos estariam bem numa loja de artesanato, nunca num Museu. Joana, seria assim, uma espécie de Jeff Koons dos pequeninos, incapaz de figurar na História da Arte.

Concedem os críticos ao menos uma coisa: Joana tem ideias geniais. O problema, dizem, é que os objetos se sobrepõem às ideias, banalizando-as.

Às vezes têm razão.

Mas estas críticas, digamos de fundo, podem dirigir-se (e na verdade dirigem-se) a muitos outros artistas da arte conceptual que usam objetos para efeitos lúdicos:

Duchamp , Wharhol , Koons , Murakami , Subodh Gupta e tantos outros. Não é por causa destas críticas que estes artistas deixam de expor nos maiores museus mundiais.

Depois, Joana é uma artista/empreendedora. Lida com o mercado da arte vendendo diretamente a colecionadores e instituições ultrapassando a intermediação das grandes galerias – as suas galerias são relativamente marginais e não a impedem de vender diretamente.

Evidentemente, as galerias não querem que Joana tenha êxito pois isso coloca em causa o seu modelo de negócio e a sua sobrevivência. Como Joana não paga os  típicos 50% de comissão às galerias, vêm logo acusações da sua ânsia mercantilista.

Não obstante, Joana paga um preço elevado por não estar representada por uma grande galeria. As grandes galerias têm muito poder no mundo da arte, nomeadamente, no acesso aos museus americanos. São também um “filtro” para o artista dando-lhe uma segunda opinião sobre a qualidade dos trabalhos. Por exemplo, com o “filtro” de uma boa galeria jamais Joana teria apresentado Trafaria Praia (2013) na Bienal de Veneza.

No caso de Joana, quem no seu atelier tem a coragem e o conhecimento para “chumbar” uma peça sua? Um bom galerista é insubstituível nesta matéria.

Em terceiro lugar, Joana não faz parte do peditório da subsidiodependência e do “star system” do tal “meio” da arte contemporânea – largamente lisboeta, que anda com o “chapéu na mão” na geringonça.

O que – mal ou bem – Joana faz é por sua conta e risco com base nas encomendas dos seus colecionadores. Que, não obstante, tenha um estúdio com dezenas de colaboradores é motivo de sentimentos pouco nobres.

Finalmente, Joana Vasconcelos é Mulher. Poder-se-ia pensar que o “meio” da arte contemporânea internacional não é machista mas não é verdade. Embora a situação esteja a mudar muito rapidamente os homens ainda predominam largamente nos centros de decisão.

Não obstante, não deixa de ser instrutivo insistir que alguns dos maiores artistas plásticos portugueses são mulheres: Vieira da Silva, Paula Rego, Helena Almeida,

Lourdes de Castro, Joana Vasconcelos e a emergente

Leonor Antunes.

No caso de Vasconcelos, Joana tem sido a primeira mulher a fazer muitas coisas primeiro, e ao pisar os calos  deste e daquele acumulou muitas resistências.

Mas a verdade é que mesmo com ventos tão adversos o pequeno veleiro de Joana Vasconcelos se fez ao Mundo e, pelos vistos, não naufragou. E quem a admira – e muitos que a criticam também, têm dela uma noção heroica da

Mulher sozinha que conquistou o Mundo.

Neste sentido, vale a pena ler o texto de Miguel Justino no seu blog 15/2/19, “JOANA NO PAÍS DAS MARAVILHAS” com o subtítulo “quando sou boa, sou boa, quando sou má ainda melhor”.

Como, na verdade, não há muitos textos que eu conheça tão laudatórios de Joana vale a pena sumariar as razões do excelente texto de Justino, que resumo neste seu parágrafo.

“Joana estudou.

Observou o Homem contemporâneo e concluiu: vêm televisão e estão sujeitos à publicidade.

Compram.

São facilmente seduzidos. Os primeiros 30 segundos são vitais. Devoram tudo com base no first glimpse.

É isto. Não fui eu que inventei. O nosso Mundo é assim.

Eu sou artista plástica, capto e traduzo um olhar sobre a realidade contemporânea.

Querem lantejoulas? Aqui estão.

Emocionem-se primeiro e pensem depois.”

Para o bem e para o mal é isto. Difícil melhor definição da base do trabalho de Joana Vasconcelos. Mas penso que, apesar de tudo, há bastante mais do que isto.

Uma decana historiadora de Arte que sempre a apoiou, Raquel Henriques da Silva, elogia sem reservas – dando maior densidade, ao universo de Joana Vasconcelos: uma permanente atitude POP, a mistura da alta e baixa cultura, as questões identitárias, o lugar da mulher e dos seus ofícios, a superescala, o caracter festivo que deliberadamente roça o Kitsch.

Já agora, a portugalidade – acrescento eu – pela permanente referência que faz a motivos portugueses e que, pelos vistos, ninguém lhe agradece.

Armado deste quadro de referências visitei Serralves na tarde de uma sexta-feira bem solarenga por sinal.

O Museu de Serralves estava cheio de pessoas, muitos estudantes do secundário apoiados pelo serviço educativo de Serralves. Das três exposições em curso no Museu, duas (Susan Hiller e Tacita Dean) estavam virtualmente sem ninguém.

Estava toda a gente na exposição de Joana Vasconcelos tendo sido, pelos vistos, para isso que foram a Serralves.

Conheço a obra de Tacita Dean há muitos anos e visitei mesmo a grande exposição que fez no Schaulager, Basel, em 2008. Sem dúvida uma extraordinária exposição onde, et pour cause, predominavam obras de super escala.

Mas a insistência nos seus filmes de 16 mm em várias salas escuras desafia a paciência de qualquer santo.

How boring.

Não faço ideia se algum curador de Serralves achou que uma artista mais “académica” como Dean equilibraria, na perspetiva da programação, os readymade de Joana.

Mas o que sei é que se fez um grande favor a Joana Vasconcelos: o trabalho de Hiller e Dean parece claramente menor perante o fulgor de Joana.

A primeira grande surpresa na visita à exposição de Joana

Vasconcelos em Serralves é verificar como é diferente em relação à do Guggenheim em Bilbao. Embora com o mesmo título e várias obras comuns, são duas exposições muito distintas.

As sugestões veladas de João Ribas de que a exposição de Serralves seria uma mera repetição do Guggenheim, sem dar a Serralves input curatorial específico são completamente absurdas. A verdade é que os espaços são radicalmente distintos e isso necessariamente levaria a distintas opções curatoriais.

Mas o que é passível de reparo é inexistir documentação específica sobre a mostra de Serralves.Na verdade o livro da exposição é o do Guggenheim que, a meu ver, não serve Serralves. Espero que tal ainda se possa corrigir.

A segunda grande surpresa da mostra de Serralves é a inexistência de uma Valquíria de grande formato. Não que a Valquíria apresentada seja de menosprezar, pelo contrário.

Mas, a meu ver, as Valquíria de grande formato são as peças mais distintivas da obra de Joana Vasconcelos.

Peças como as apresentadas no Palazzo Grassi, Versalhes, Royal Academy e a monumental Egeria alteraram a minha perceção sobre o trabalho de Joana e são um must numa mostra sua. Deixarão, sem dúvida, a sua marca na História da Arte contemporânea.

Talvez o espaço não fosse suficiente pois o seu habitat natural em Serralves (pelas tais razões de equilíbrio curatorial ) seria a sala frontal onde reside Susan Hiller.

Mas a sala onde está o Lillicopter (uma obra que considero menor) poderia muito bem ter uma Valquíria.

Talvez também por razões de espaço – mas a meu ver muito erradamente, a Burka (por ventura a melhor peça de Joana) e o Coração Indenpendente estão lado a lado. Em termos expositivos assiste-se ao dramatismo da queda brutal da Burka ao som do fado de Amália.

Muito mal.

Como nota achei muito interessante que Joana reclame a comuna Annie Albers como referência nos seus materiais têxteis.

Finalmente, ainda no corpo central do Museu merece referência a excelente peça I’M YOUR MIRROR que dá título à exposição. Joana considera-a a sua melhor obra. É salutar que assim seja, sinal que Joana considera que o melhor está para vir.

InchLa.

Mas a exposição adquire todo o seu fulgor no magnífico Parque de Serralves onde as várias peças de grande formato dialogam com os jardins e as outras peças de grande formato. Nunca consegui gostar de Nectar (2006).

Et pour cause, prefiro a pá de Oldenburg.

Tudo visto e somado fica-me a certeza. Mas afinal tanta polémica porquê?

Parece-me claro que o livro da exposição deveria ter uma maior densidade teórica. Os textos de Enrique Juncosa e Idalina Conde nas suas escassas sete páginas no total deveriam ter uma maior explanação.

Nomeadamente, a sugestão de Idalina Conde quanto à influência de Renee Magritt no trabalho de Joana deveria ser aprofundado, por exemplo, na Valquíria. Será que alguma tese de Mestrado ou Doutoramento quer pegar nisto?

Mas será que, afinal, esta exposição – que se arrisca facilmente a ser a exposição do Ano em Portugal, não deveria existir?

Porquê?

Resta-me a sensação de que alguns setores do meio das artes contemporâneas devem ter mais rigor nas suas apreciações sob pena de – após a patética demissão de João Ribas – ninguém os levar a sério.

Parabéns, Joana Vasconcelos!

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