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Sócrates e as sondagens

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Num recente debate televisivo Judite de Sousa perguntou a Passos Coelho qual a explicação para o empate técnico do PS com o PSD nas sondagens. Candidamente Passos Coelho disse que não sabia e na verdade este é um conundrum que tem criado espécie a muitos politólogos.

Eu próprio já declarei a morte política de Sócrates – que aliás mantenho como se verá, mas a sua resiliência nas sondagens dá que pensar.

Notemos em primeiro lugar os deméritos do PSD como salientei há já bastante tempo. Foram cometidos vários erros básicos: o triunfalismo inicial, a ausência de coligação pré-eleitoral com o CDS, uma máquina de propaganda amadora, por exemplo.

Pedro Passos Coelho parece finalmente ter acertado agora o ritmo com a divulgação do seu Programa de Governo e a clarificação da bipolarização governativa, segundo a qual o eleitorado tem duas opções: ou ele ou Sócrates.

Resulta, assim, claro que Sócrates não vai voltar a sentar-se em S. Bento. Mesmo que, por absurdo, ganhasse não conseguiria formar Governo dadas as declarações entretanto feitas quer pelo PSD quer pelo CDS. Se ganhasse teria que ser uma outra personalidade de PS a formar Governo mas o seu capital político estaria em alta podendo vitimizar-se, algo tão do agrado dos políticos portugueses.

Como explicar o conundrum para além dos deméritos do PSD?

A meu ver há dois factores. O primeiro é o voto útil à esquerda que vai cilindrar o BE e ameaçar o PCP. Muitos votantes da extrema esquerda irão concentrar no PS o seu voto como forma de lhe dar eficácia perante o avanço da “perda de direitos” e ataque ao Estado social.

A segunda razão é bem mais profunda e tem a ver com um fenómeno sociológico muito importante. Portugal é governado por uma coligação de interesses que junta os grupos empresariais com interesses fortemente estabelecidos, nomeadamente nos chamados sectores não-transacionáveis, em forte aliança com, e tendo de facto capturado o Estado; com os assalariados que pretendem acima de tudo uma vida de pouco risco e interesses económicos protegidos. É para todos os efeitos uma aliança profundamente conservadora onde o poder económico dominante se serve do Estado para perpetuar e reforçar o seu poder económico e os dominados se contentam com pouco em nome da defesa do Estado social, isto é dos seus pequenos direitos.

Este bloco dominante conservador faz-me lembrar um excelente livro de um dos melhores economistas contemporâneos Raghuram Rajan que com Luigi Zingalles escreveu “Saving capitalism from the capitalists”. Neste livro, os autores a partir do case da Índia mostram como ao concentrarem-se na extracção de rendas sem risco em conluio com o Estado, os capitalistas minam a própria natureza do sistema capitalista e dificultam o desenvolvimento económico.

É, em larga medida, o que tem acontecido em Portugal e é justamente a tentativa de perpetuação deste bloco conservador, que tem em Sócrates o seu mais fiel intérprete político, que justifica as sondagens. Para este bloco conservador é fundamental preservar a todo o custo o status quo, o que passa por apoiar Sócrates mesmo que seja para o dar de bandeja na próxima esquina.

Curiosamente, o programa económico adoptado pela Troika é radicalmente o oposto. Ataca os bancos, os sectores não-transaccionáveis e flexibiliza o mercado de trabalho, tudo o que horroriza o bloco conservador. Se não fora estarmos nas mãos dos credores este programa progressista, agora adoptado pelo PSD, nunca teria a mínima viabilidade de ser implementado.

 

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