subscribe: Posts | Comments | Email

Too little, too late no Millennium BCP

0 comments

Acaba de ter lugar o aumento de capital do BCP, estando agora em curso o exercício dos direitos.

Foi uma operação de grande êxito. Entidades em directa relação de domínio e grupo que representavam mais de 70% das  obrigações subordinadas a converter, compraram acções e os accionistas que acorreram à tranche em cash compraram acções a €0,33 por acção. O preço das acções está no seu mínimo histórico.

Como resultado final, as entidades com relação de domínio e grupo  (Ocidental e Fundo de Pensões) detêm cerca de 15% do capital social do BCP e os restantes accionistas viram a sua posição diluída perdendo alguns a posição qualificada. Fruto deste milagroso aumento de capital o TIER I do BCP ficará perto dos  9%.

Ali – o Maluco – foi o Ministro da Informação de Saddam Hussein que afirmava os grandes êxitos dos seus exércitos em plena hecatombe ao vivo do seu regime. Assistimos a fenómeno similar na pessoa do inefável Secretário das Finanças Costa Pina nos seus anúncios dos sucessivos êxitos nas emissões da dívida soberana portuguesa, que terminaram numa estrondosa insolvência. No BCP, nas folgas de Carlos Santos Ferreira, aparece  agora Paulo Macedo também a anunciar os enormes êxitos da instituição, na ocasião deste aumento de capital.

Mas senhoras e senhores, será necessário um curso de analista financeiro para dizer que sociedades com relação de domínio e grupo não deveriam contar para os fundos próprios?  Mas não será que as acções da Ocidental, por exemplo, onde o BCP tem 49% não deveriam, pelo menos em 49%, ser abatidas aos fundos próprios do BCP?

Ficaria muito surpreendido que não fosse isso mesmo que os analistas internacionais e as empresas de rating vão fazer. Assim sendo o TIER I do BCP não será de 9% como é necessário, mas de cerca de 8.5 (considerando aquele efeito apenas), não cumprindo as determinações do Banco de Portugal.

Evidentemente, o Fundo de Pensões e a Ocidental podem alienar  as suas acções a um investidor final resolvendo a questão apontada, mas isto levanta sérias questões de equilíbrio accionista com a Sonangol que não são fáceis de resolver.

Em resumo, o primeiro ponto deste enorme êxito é a criação de um novo accionista com 15 % de acções  (em rigor acções próprias) que o Banco de Portugal deveria descontar para efeitos do rácio regulamentar. Feito o milagre,  o BCP continua com insuficiência de capital – mesmo nesta perspectiva mais básica.

Mas as insuficiências de capital do BCP são muito mais dramáticas.

Em primeiro lugar as imparidades de crédito. Qualquer gestor de topo de banca em Portugal sabe que a qualidade da carteira de crédito do BCP é desastrosa, porventura a pior de toda a banca portuguesa.  Nesta matéria não atribuo grandes responsabilidades a Santos Ferreira pois o portfólio de crédito foi, no essencial, herdado de Alípio Dias. Seja como seja, cedo ou tarde estas imparidades terão que se reconhecer pois não parece que o mecanismo tradicional de “chutar para a frente” e jogar com o tempo rezando para que apareça um milagre, vá funcionar desta vez. As condições macroeconómicas são claras – iremos de mal a pior.

Em segundo lugar, a Grécia e Roménia. Veio Paulo Macedo agora dizer que se estava a ponderar a venda destas operações. Mas que sentido de oportunidade. Quando Carlos Santos Ferreira assumiu o BCP fez uma reflexão sobre as operações internacionais e houve accionistas – como eu e outros – que lhe recomendaram a venda da Grécia e da Roménia. Teriam sido excelentes vendas na época, com mais-valia,  pois havia mercado, nomeadamente na Grécia.

Agora, nesta altura, alguém no seu bom juízo pensa que o BCP poderá alienar a Grécia sem fazer um “write-off” que lhe arrase os fundos próprios? Recordo que a exposição global do BCP à Grécia (isto  é,  consolidando as responsabilidades da casa mãe com a operação local – de que a casa mãe é responsável) é de € 7 mil milhões.

Suspeito que teremos na venda do banco do BCP na Grécia mais um êxito, similar aliás ao de Costa Pina na venda do BPN.

Tudo visto e somado, actual insuficiência de fundos próprios e imparidades muito significativas no próximo futuro, atrevo-me a prever que novos aumentos de capital no BCP se tornarão indispensáveis. A anunciada emissão obrigacionista de € 1,75 mil milhões com garantia do Estado vai ser certamente feita com uma cláusula,  similar ao BES, de conversão forçada em acções. Mas não chegará.

A questão que me coloco é a de até que ponto a Sonangol achará razoável pagar por um filme  onde  não encomendou nem no guião nem nos actores. A ajuda que a Sonangol está a prestar aos contribuintes portugueses terá, mais cedo ou mais tarde, as necessárias contrapartidas de Estado a Estado.

Leave a Reply