subscribe: Posts | Comments | Email

O enterro de Sócrates

1 comment

Depois da morte política, veio o enterro.

Detesto funerais e evito-os o mais que posso. Para mim estão sempre associados a algo que de alguma forma se perde. O enterro político de José Sócrates – apesar de o considerar uma pessoa completamente detestável -também não me da nenhum prazer. Quer se queira quer não foi nele que milhões de portugueses confiaram a gestão do seus destinos com os resultados que se conhecem.

Não obstante, esses mesmos milhões viram frustradas as suas expectativas e não há maior sentido de perca. Na verdade, na derrota de Sócrates ficamos todos a perder.

Quanto a José Sócrates, Teixeira dos Santos e Costa Pina vamos tranquilamente acompanhar as suas carreiras no próximo futuro para considerar as “perdas” virtualmente existentes, assim se tornarão compreensíveis muitas decisões de governação, até agora apenas intuídas.

Mas o problema para José Sócrates só agora começa. Não me recordo de Primeiro Ministro que tenha exercido a governação com o sentido da vingança mesquinha como Sócrates. “Quem com ferro mata, com ferro morre” e Sócrates vai sentir durante muitos anos a presença de muitos a quem intencionalmente prejudicou. Veremos na circunstância onde estarão os que, até agora, estavam ao dispor para tudo. Também aqui Sócrates vai ter muitas surpresas.

A derrota eleitoral do PS nestas circunstâncias deixa Sócrates e o PS extremamente vulneráveis. Diria estupidamente vulneráveis. Basta comparar com a estratégia do PSOE que irá a eleições com um novo candidato para se verem as óbvias diferenças. Em Portugal a vaidade de Sócrates e a dependência em que o PS se colocou em relação a sua figura deixou-os completamente expostos a todos os “esqueletos do armário” que irão saltar nos próximos tempos. As verdades inconvenientes juntas com as mentiras convenientes da era socrática virão a público com péssimos resultados para o prestígio do PS. Alguns dirão que se trata de vingança, por mim espero não mais do que justiça.

No meu entendimento, um dos mais graves “esqueletos no armário” que saltara inevitavelmente será a chamada operação Millennium BCP. Em resumo, Teixeira dos Santos e Costa Pina, debaixo da orientação política de Sócrates apoiaram Carlos Santos Ferreira, Armando Vara e Francisco Bandeira na execução do “assalto ao BCP”. Mais de mil milhões de euro da CGD – isto e fundos públicos – foram utilizados sob a forma de crédito para comprar acções BCP, numa luta de poder sem tréguas.

Não contentes com isto, Santos Ferreira e Armando Vara tiveram a desfaçatez de transitar directamente para o concorrente cuja compra tinham financiado, aumentando as remunerações e estabelecendo o controlo político sobre mais de 50% do sistema financeiro. Tudo isto perante o ar angelical de Carlos Tavares.

Os resultados desta incrível aventura estão a vista nas imparidades necessárias na CGD, que levou a necessidade de vários aumentos de capital realizados pelo Estado português. O massacre financeiro em curso no BCP – accionistas e clientes – não tem paralelo na história económica em Portugal e faz Fernando Ulrich parecer um menino de coro. Os resultados finais desta aventura sem precedentes ainda estão para se ver mas os sinais não podem ser mais preocupantes.

A pergunta que se vai colocar será a de quantas notícias serão necessárias para o Ministério Publico de Portugal abrir uma investigação quanto a esta utilização de dinheiros públicos para objectivos pessoais.

Depois, vem todo o tema do programa de ajustamento, vulgo Troika. A existência de várias versões, cada vez mais gravosas do programa, que não foram referendadas quer pelo PSD quer pelo CDS serão um terreno muito fácil para culpar o PS pelo programa de ajustamento, justificando ao mesmo tempo a necessidade da sua aplicação. Já para não falar nas inúmeras medidas que terão ainda de ser implementadas pelo governo de José Sócrates no ínterim até a tomada de posse do novo governo.

Ficaria muito surpreendido se não assistirmos a uma campanha muito agressiva do novo poder recém referendado diabolizando Sócrates e o PS. Neste contexto o papel do novo líder do PS será extremamente difícil pois terá não só que lidar com os esqueletos do armário mas também com um partido sem ideologia e subsídio-dependente em relação ao aparelho de Estado.

Por mim desejaria que a uma era de sectarismo e grandiosa defesa dos interesses de alguns em nome do socialismo e estado social, se siga uma era de grande dificuldade económica e social mas de inclusão com justa repartição dos sacrifícios.

  1. ricardo guerreiro says:

    Dr João Rendeiro, tenho seguido este seu espaço com bastante curiosidade. Apesar de lhe notar algum ressentimento quanto a algumas figuras a que se refere, não posso por outro lado quase sempre, deixar de estar de acordo consigo. Excelente análise, continue. Continuarei a ler atentamente.

    Cumprimentos
    Ricardo Guerreiro

    p.s. por favor, produza opinião com mais frequência

Leave a Reply