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Um banqueiro à rasca

1 comment

Não, não me refiro a Carlos Santos Ferreira. Refiro-me a Jean Claude Trichet, Presidente do Banco Central Europeu.

A verdade é que o nosso amigo Jean Claude está metido numa trapalhada monumental. Desde logo, e o que até parece de somenos perante o resto, insiste numa vigilância sobre a inflação – potencialmente levando a uma subida da taxa de referência, numa altura em que a economia mundial dá claros sinais de desaceleração.

Não é preciso ser grande especialista para se saber que os EUA estão em evidente perca de velocidade e, o que é mais grave, a China também. A China tem sido um dos grandes motores da economia mundial e parece uma evidência elementar que com esta desaceleração conjunta as exportações alemãs vão acabar por terem impacto inevitável.

É certo que a subida das commodity alimentares têm colocado pressão sobre a inflação mas este efeito é “one-off”, a chamada inflação importada que não se combate com a política monetária. Tudo isto em matéria académica é “first year stuff” mas porque é Trichet se tem que meter nestas alhadas?

A minha interpretação é política. É o preço que Jean Claude tem que pagar por o próximo Presidente do BCE não ser alemão. Há que ser mais papista do que o papa e contentar os falcões que animam o populismo alemão. Mais uma vez quem perde é a Europa e a credibilidade do BCE.

Mas tudo isto é “peanuts” perante a gigantesca trapalhada em que o BCE se deixou envolver na dívida soberana, sobretudo da Grécia mas também da Irlanda e Portugal. Como parêntesis incidental e delicioso chamo à atenção sobre um discurso de 2004 do nosso Jean Claude (que publico noutro post) onde ele dá elevadas loas à Irlanda e ao seu invejável modelo Celta. Evidentemente, Jean Claude não se enganou redondamente…

A brutal exposição do balanço do BCE aos países problemáticos está expressa noutro post onde se reproduz um estudo do DER SPIEGEL. Em resumo, a exposição do BCE a activos tóxicos é superior a € 400 mil milhões o que significa que o BCE virtualmente está insolvente.

Evidentemente a última coisa que o BCE – como aliás todo o banco que se preze – quer é reconhecer no seu balanço estas percas e daí a luta tenaz contra o reescalonamento da dívida Grega.

Ameaça o BCE com a bomba atómica, isto é: com reescalonamento deixaria de poder descontar títulos Gregos nas operações de liquidez as quais são essenciais à sua sobrevivência. Com o fim destes repo o colapso de todo o sistema financeiro grego aconteceria num dia.

Aprende-se na teoria de jogos que qualquer ameaça para ter qualquer efeito tem que ter credibilidade. Nesta eventualidade que os mercados e os Governos receassem que o BCE pudesse mesmo fechar a torneira aos bancos Gregos. Mas alguém no seu bom juízo acredita que isto poderá acontecer? O bluff do BCE parece brincadeira de crianças.

Acresce que o Bundestag acaba de aprovar linhas de orientação para a postura negocial da Sra. Merkel na matéria e está clarinho como água a participação dos investidores privados nos sacrifícios do reescalonamento. Não vejo como o Sr. Schauble vai ultrapassar as baias que o seu Parlamento lhe impõe e consequentemente a resistência do BCE acabará por ter que ceder. Finalmente, as agências de rating vão considerar a existência de facto de default na Grécia.

É justamente isto o que os mercados antecipam quando – não obstante as boas intenções do novo Governo de Portugal – fazem subir os juros da dívida portuguesa para patamares cada vez mais elevados e bem assim fazer descer o valor dos bancos portugueses em bolsa.

O impacto do default da Grécia no Millennium BCP será brutal. Os preços dos activos de Portugal e Irlanda sofrerão forte impacto colateral e o BPI também terá impacto muito negativo pelo enorme peso da dívida pública irlandesa e portuguesa no seu balanço. Daria enorme jeito a Fernando Ulrich ver-se livre deste imbróglio com um “chuto para cima” no Ministério das Finanças, mas não terá essa sorte.

Pelos vistos além do Sr. Trichet há muito mais gente à rasca mas não tenhamos ilusões “quem se lixa é o mexilhão”.

 

  1. Antonio Almeida says:

    Caro Dr Joao Rendeiro
    Ao menos haja alguem neste Pais,que explique,sem comprometimentos,aquilo que e evidente.
    Sera que iremos ter alguem que chame a responsabilidade tudo o que se tem passado e que transformou a crise num buraco sem saida?E evidente que grande culpa,a maior,e da banca.
    Cumprimentos

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