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A Grécia à beira do abismo dá um passo em frente?

1 comment

Estive recentemente na Grécia por razões profissionais. Devo dizer que me surpreendeu e nesta surpresa ficou claro o sentido do paradoxo grego.

Talvez agora, que José Sócrates vai estudar Filosofia Grega para Paris, tudo resulte mais claro, mas o nível de vida que ainda hoje se encontra em Atenas nas zonas afluentes de Kifisia e quejandos não é de quem está em austeridade. De facto, Atenas tem bairros afluentes que colocam os seus pares de Lisboa a largas milhas. Considerando que ambas as economias têm poder aquisitivo similar, algo nos deve interrogar.

Não conheço economista que se preze que não preveja o default da Grécia. Ainda nesta semana três Martin, Wolf e Feldstein escreveram isso mesmo no Financial Times. A questão neste momento já vai muito para além do default pois torna-se claro que reduzir a dívida com hair-cut de 50% certamente que permitirá o seu serviço. Mas o ponto é que a Grécia continua a acumular deficit externo por via da sua falta de competitividade internacional e portanto a continuar de necessitar de um forte financiamento externo anual líquido mesmo em recessão.

É, aliás, notável que o programa de austeridade não tenha reduzido – mas sim aumentado – o deficit externo, uma raridade nos programas de ajustamento.

Por sua vez, a elite grega é unânime quanto à permanência no Euro. Responsáveis com que falei ao mais alto nível deixam claro que se a Grécia saísse do Euro seria o próprio Euro que estaria em risco pelo efeito de contágio dominó. Quase que decifrei uma espantosa arrogância por sentirem a França e a Alemanha reféns da necessidade de salvarem os seus bancos altamente expostos à dívida Grega.

Foi esta mesma arrogância que levou o anterior Ministro das Finanças a alterar unilateralmente o acordado com a Troika, criando um buraco de € 5 mil milhões. Igualmente o novo Ministro das Finanças , Venizelos ,  tirou do sério os seus colegas em Bruxelas que não só tiveram que  o mandaram calar em plena reunião como a acrescentar os tais € 5 mil milhões ao pacote de austeridade.

Foi neste quadro que o Conselho de Ministro Grego aprovou esta semana um novo pacote de austeridade, incluindo um vasto programa de privatizações. Este pacote será submetido à votação do Parlamento no próximo dia 28 de Junho.

A aprovação destas medidas está longe de estar garantida. O Partido do centro –direita liderado por Samarras está contra e alguns deputados do PASOK sinalizaram uma cisão. Os movimentos de massa estão muito activos com manifestações diárias em frente ao Parlamento e greves sectoriais e gerais permanentes. Neste quadro não é impossível que o pacote não passe mesmo, mas se tivesse que apostar diria que se irá evitar dar o tal passo no abismo.

Na eventualidade do pacote não passar os acontecimentos vão-se precipitar pois o FMI não vai liberar a próxima tranche para refinanciar os pagamentos de Julho e o default será iminente. Neste sentido os gregos terão facilitado muito a vida aos decisores de Bruxelas pois será muito difícil de vender mais ajuda a quem mostra uma postura de completo facilitismo. Neste quadro a Sra Merkel estaria numa posição impossível quanto a apoio adicional. A saída da Grécia do Euro seria praticamente inevitável com todas as implicações de contágio para Portugal que se imaginam.

Num cenário de aprovação não vejo como é que um novo pacote possa ser recusado. Assim sendo lá estaremos a deitar “dinheiro bom atrás de dinheiro mau”, a passar dívida privada dos bancos para entidades públicas como o BCE ou o Fundo Europeu de tal forma que quando o default se der lá para 2014, cerca de 80% dos activos tóxicos gregos serão de entidades públicas europeias, isto é dos contribuintes.

 

  1. Pedro Lisboa says:

    A tragédia grega vai pesar muito no bolso dos contribuintes europeus.
    Emprestar mais dinheiro a um país falido só vai servir os interesses dos bancos franceses e alemães que estão demasiado expostos à dívida grega.
    Na minha opinião a Grécia deveria entrar em default já em Julho e não receber mais nenhum pacote de ajuda.

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