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Jorge Jardim Gonçalves e os “Anjos do Mal” no BCP

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No outro dia numa viagem de avião de regresso a Lisboa li uma entrevista de Jardim Gonçalves ao Correio da Manhã.

Uma raridade. No seu programa de defesa às acusações de que está a ser alvo Jardim Gonçalves tem optado, até agora, por uma grande discrição. Sair em entrevista marca uma evolução na estratégia de comunicação que assinalo.

Na entrevista, mais uma vez se refere a mim – aliás em termos exactos. Eu fui a primeira pessoa que publicamente, de forma leal e directa, lhe disse o que pelos vistos ainda tanto lhe custa a entender. O Eng. Jorge Jardim Gonçalves deveria ter-se afastado há muito da cadeira de poder no BCP e estruturar uma sucessão adequada.

Evidentemente, muitos outros antes de mim, bem mais próximos de Jardim Gonçalves, conspiraram no gabinete ao lado, nos andares de cima e de baixo, uns às 2a, 4a e 6a e outros às 3a, 5a e sábados por forma a encontrar a melhor forma de o fazer cair da cadeira. Mas estes – et pour cause – nunca serão mencionados, não vá ainda um dia serem precisos.

De todas as formas ler a entrevista ressuscitou alguma memória da minha vivência pessoal sobre o caso BCP.

Certamente, há muitas narrativas sobre o que se passou no BCP. Livros já se escreveram sobre o assunto e outros estão em preparação, pessoas como Jardim Gonçalves ou José Berardo têm certamente muito para escrever nas suas Memórias que espero um dia possam escrever.

Por mim, compilo desde já uma pequena história em seis actos como contributo para essa memória futura. Desta história em seis actos espero que fique claro que, no meu entendimento, os problemas jurídico-legais com que se debatem Jardim Gonçalves e seus pares são “rabos-de-palha” que todas as instituições têm, e que foram mediaticamente utilizados numa brutal luta de poder.

ACTO I – A sucessão de Jardim Gonçalves

Lembro-me como se fosse hoje ver nascer o BCP. Nasceu como um produto de laboratório à régua e esquadro nos estiradores da McKinsey. Lembro-me das homéricas discussões aos gritos de Manuel Violante e Chris DeBeck sobre os mais ínfimos detalhes do que viria a ser um “case-study” de nível mundial, estudado em todas as escolas de gestão a começar por Harvard. Tenho muito orgulho da minha pequeníssima contribuição nesse “start-up” enquanto colaborador da McKinsey na altura.

Não tendo sido a primeira escolha de Américo Amorim para liderar o BCP, Jardim Gonçalves assumiu o risco, negociou as suas remunerações e escolheu a sua equipa com total independência.

Quando negociou as remunerações com Jardim Gonçalves, Américo Amorim cometeu um erro que se veio a revelar decisivo em toda a história do BCP. Refiro-me ao indexante das remunerações da Administração do BCP ligadas ao “cash-flow” e não ao resultado líquido. Qualquer pessoa entende a decisiva diferença pois há muito “cash-flow” que não é resultado líquido. O crescimento do indexante das remunerações que não desse em resultado líquido dava directamente um conflito de interesses da gestão com os accionistas propiciadora de encontros e desencontros – como veio a acontecer.

De todas as formas (expressão que roubei ao meu querido Manuel Violante) o BCP desenvolveu a sua trajectória com o maior sucesso e prosperidade fazendo enriquecer milhares de accionistas e muitos colaboradores de forma directa e indirecta. A meu ver, tudo andou bem até ao trágico falecimento, completamente precoce, de Manuel Violante. Jardim Gonçalves não dava um passo sem ouvir Violante e a morte de Consigliere tão importante foi decisiva para a perda de equilíbrios internos no BCP  sempre difíceis de manter.

E o BCP, quase sem se notar, entrou em deriva. Poderia citar inúmeros passos desta deriva mas fico-me pelo último passo, que foi chamar ao Banco Comercial Português – Millennium BCP. A verdade é que esta deriva se foi, como foi, altamente gravosa para os resultados líquidos e logo para a acção BCP, não o foi necessariamente para o “cash-flow” e daí a gestão não sentir “no pelo” as dificuldades originadas nas suas próprias decisões. Isto foi largamente verdade até 2007.

E, já com atraso, chegou o momento em que Jardim Gonçalves não mais pode adiar a nomeação de um sucessor. Podia ter optado por um “head-hunter” internacional e escolher um executivo de topo europeu para levar o projecto avante, mas não. Escolheu o que pensou ser um “fidelíssimo” na pessoa de Paulo Teixeira Pinto.

Estão fora de questão as enormes capacidades intelectuais de Teixeira Pinto. Mas a verdade é que o tal “head-hunter” internacional nunca incluiria Paulo numa “short- list”. Só Jardim Gonçalves poderá um dia, se quiser, dizer as verdadeiras razões que o levaram a escolher PTP mas para mim é claro: escolheu um membro do Opus Dei que lhe seria sempre fiel.

Neste ponto e por pura declaração de interesses devo dizer que não sou, nem nunca fui convidado, nem para membro da Maçonaria nem do OpusDei – o que significa que posso ser livremente atacado por membros de ambos.

ACTO II- Jardim Gonçalves tenta retirar poderes a PTP

A nomeação de PTP para Presidente executivo do BCP foi cheia de equívocos. A principal foi a manutenção dos membros do anterior Conselho de Administração em funções.

Imagine-se o que é uma pessoa que era secretário-geral – uma figura menorizada na constelação dos egos societários – de repente ser chefe de quem antes o menorizava. Para além dos egos feridos à esquerda e direita que tudo isto originou.

Mas o equívoco maior, veio a verificar-se, foi o de Jardim Gonçalves pensar que poderia continuar a mandar da sua cadeira de Presidente do Conselho Geral e de Supervisão. Neste modelo PTP seria uma espécie de super secretário-geral e uma correia de transmissão das ordens do TagusPark . Mas o problema é que nunca foi isto o que foi negociado e PTP entendia as suas funções como respondendo também aos accionistas.

O agudizar das tensões entre as partes levou à convocação de uma Assembleia Geral do BCP para uma alteração estatutária que retirasse poderes ao Conselho de Administração executivo e os concentrasse no CGP Presidido por Jardim Gonçalves.

Evidentemente, PTP sentiu-se desautorizado e muitos colaboradores do BCP a começar nos seus colegas do Conselho de Administração, bem como muitos accionistas viram nesta possível evolução um claro retrocesso no natural processo de sucessão. Daí PTP ter feito um apelo quer directamente quer por emissários para accionistas relevantes apoiarem a sua posição. Por exemplo, no meu caso foi o então secretário-geral do BCP Fernando Adão da Fonseca que almoçou comigo no Banco Privado e apelou a que apoiasse PTP nesta eventualidade.

A sequência é conhecida, formou-se um bloco heterogéneo de accionistas que por múltiplas razões apoiaram PTP e que, para grande surpresa de Jardim Gonçalves, bloquearam a evolução que pretendia em Assembleia-Geral.

ACTO III- PTP demite-se

A suspensão da assembleia-geral foi um intervalo no tsunami em formação. Jardim Gonçalves não desistiu do que pretendia apoiado pela totalidade do CGP e por metade do Conselho de Administração. PTP tinha um grupo de apoio cada vez mais consolidado liderado por José Berardo e cada vez mais radicalizado na oposição a Jardim Gonçalves.

A minha posição neste quadro foi sempre a de desejar uma sucessão como única forma de criar valor mas nunca tive qualquer reunião com Berardo e o grupo que reunia regularmente. Mantive varias reuniões com PTP e conversamos frequentemente sobre os acontecimentos.

O radicalizar público das tensões e o impasse que se viveu levou PTP a pedir a demissão. Certamente o súbito aparecimento de um grave problema de saúde foi factor na decisão de PTP de se demitir. Mas, na minha avaliação, o sentimento último de fidelidade a Jardim Gonçalves terá sido determinante.

Em consequência, Filipe Pinhal assumiu as funções de Presidente executivo no TagusPark – et pour cause – o território de eleição de Jardim Gonçalves, marcando assim quem tinha ganho a batalha.

Por sua vez o bloco opositor ficou na expressão de um dos integrantes “pendurado”. Pendurado ou não a verdade é que trabalhou para reganhar a iniciativa.

ACTO IV- BPI propõe fusão amigável

Neste quadro de profunda divisão accionista e da gestão resulta claro que o natural seria um processo de M&A, aliás a razão por que em primeira instância o Banco Privado tinha recomendado aos seus clientes investirem no BCP.

Daí ter sido sem espanto que assisti à OPA amigável do BPI pois várias vezes eu próprio tinha estimulado Fernando Ulrich a caminhar nessa direcção. A fusão das duas instituições era altamente conveniente para qualquer observador independente. Ancorava o quadro accionista conjunto com vários accionistas de grande quilate (como a LACAIXA) e a integração dos Administradores mais jovens BPI no BCP seria um refrescamento necessário. As sinergias seriam importantes e assim a criação de valor. Certamente os accionistas seriam recompensados e a estabilidade do sistema financeiro português claramente reforçadas.

Foi este o meu racional – “business” puro e duro, e trabalhei o que pude para tornar este cenário uma realidade. Muito à maneira portuguesa atribuiu-se este meu trabalho a uma putativa amizade com Fernando Ulrich, argumento que se veio a revelar completamente ridículo.

Mas se o racional de negócio na fusão era de uma atroz evidência, ele não era sem consequências profundas para muitos interesses, nomeadamente para o mapa das relações de força no sistema financeiro português bem como para muitos interesses instalados no interior do BCP.

O grupo fusionado resultante, nomeadamente, ultrapassaria largamente a CGD e o BES em dimensão e relevância. Naturalmente, a OPA tinha aqui dois adversários de peso que utilizariam a sua influência política para dificultar o resultado. Por sua vez a própria Administração do BCP teve hesitações quanto à sua legitimidade para liderar o processo e a fusão foi abortada.

ACTO V – Constâncio inibe Pinhal

O grupo que tinha apoiado PTP embora minoritário no Conselho de Administração de Filipe Pinhal estava na verdade mais forte do que nunca. Tinha em seu poder muita documentação de alguma forma embaraçosa para Jardim Gonçalves e Filipe Pinhal, tinha o claro apoio da CGD e do Governo Sócrates e uma base accionista muito relevante.

Filipe Pinhal estava convencido de que ganharia a assembleia-geral eleitoral e recusou mesmo a integração de elementos da CGD na sua lista. Não contava, aliás ninguém no seu campo contava, com um elemento surpresa. O Governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio numa acção sem precedentes inibiu Filipe Pinhal e Chris DeBeck de funções.

No dia seguinte numa reunião na EDP patrocinada por António Mexia foi entronizado Carlos Santos Ferreira. Orgulho-me de, nessa reunião, onde estavam todos os accionistas qualificados incluindo Fernando Ulrich e Pedro Teixeira Duarte ter sido o único a objectar de viva voz  à entronização de Carlos Santos Ferreira.

As razões que apresentei, mais uma vez, nada tinham de pessoal em relação a Carlos Santos Ferreira sendo de puro “business”. Infelizmente, a minha intuição confirmou-se e o consulado de Santos Ferreira tem sido marcado por uma destruição de valor accionista sem paralelo.

ACTO VI- Sonangol controla BCP

José Sócrates e Carlos Santos Ferreira ganharam a guerra do BCP mas foi uma vitória de Pirro. Aos problemas herdados ainda das gestões de Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto que se traduziam num balanço de fraca qualidade, somaram-se os derivados da quebra de confiança originada na brutal luta de poder, da crise financeira internacional e da rápida mutação da situação económica.

Carlos Santos Ferreira, a meu ver, não entendeu as circunstâncias, nomeadamente no que concerne a exposição à Grécia e fez “business as usual”. O aumento de capital muito a custo efectuado tornou-se rapidamente insuficiente e a cotação do BCP só tem tido uma direcção – para baixo.

Neste contexto, felizmente que a Sonangol se interessou pelo BCP e se assumiu claramente como o seu accionista de referência. Não obviamente sem um preço. Exigiu uma revisão estatutária que coloca o Conselho executivo presidido por Carlos Santos Ferreira na dependência clara do CSP. Afinal, por ironia do destino, justamente o que Jardim Gonçalves pretendia.

Certamente que mesmo no mais negro dos seus jogos estratégicos nunca surgiu a Carlos Santos Ferreira a possibilidade agora concretizada de uma tão dramática quanto silenciosa perca de poderes.

Ao fecho das cotações desta semana o BCP vale € 2,5 mil milhões e infelizmente só continuo a ver uma única direcção possível – a descer.

 

  1. Tinhas razão. Ontem já estavam as acções a € 0,134 (dando um valor do BCP de menos de € 1 bilião) após tantas diluições, tantos aumentos de capital e conversão de dívida em capital!!!
    A Sonangol só pode aproveitar a situação. Claro que outros Bancos europeus têm tido o mesmo percurso, no aftermath da crise americana e europeia…

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