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As agências de rating e a ilógica do desespero

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O recente downgrade da Moody’s sobre Portugal provocou uma convulsão nacional e europeia contra as agências de rating (RA). Parece-me um evidente caso de “matar o mensageiro” e seria bom que nos preocupássemos mais com a mensagem.

Existem cerca de 150 RA a nível mundial, a maioria dedicadas a mercados nacionais. Existem por outro lado 10 “NRSRO- Nationnaly recognized statistical rating organization”, entre estas, as 3 mais importantes são as conhecidas S&P, Moody’s e FITCH.

As NRSRO foram instituídas em 1975 pela Securities and Exchange Commission (a CMVM dos EUA) e são as agências reconhecidas pela SEC como autorizadas a emitir “opiniões” com a força de lei. Isto é, as instituições financeiras nos seus quadros regulatórios têm que cumprir níveis mínimos de rating nos seus activos.

Até aos anos 70 eram os investidores quem pagava às RA. A partir desta época passaram a ser os emissores. Dito por outras palavras, é o Estado português quem paga às RA para emitir uma “opinião”. Cada “opinião” vem com um disclaimer tipo, como por exemplo no S&P

“…any user of the information contained herein should not rely on any credit rating or other opinion contained herein in making an investment decision”

A razão que leva os reguladores a apoiarem-se na RA é óbvia. Todos os anos são emitidos milhares de títulos e é preciso um autêntico exército para analisar cada um. Por exemplo, cada um dos 3 RA de topo tem ao seu serviço cerca de 1.500 analistas de crédito e é evidente que não há regulador com disponibilidade para absorver estes custos. Na ausência de RA o número de títulos aceites pelos reguladores diminuiria drasticamente com efeitos dramáticos sobre o sistema financeiro.

As controvérsias com as RA são cíclicas e ligadas a quando algo corre mal. Quando as RA falharam redondamente nos ratings da Enron e da WorlCom foi um clamor nacional nos EUA e o mesmo se passou na Parmalat, no Bear Sterns e no Lehman Bros. No entanto, apesar de alguns erros mais evidentes, inevitáveis em quem anda à chuva, pode-se dizer que o “track-record” das RA na análise de crédito tem sido francamente bom.

Não obstante, as RA falharam dramaticamente no mercado imobiliário americano. Está hoje fortemente documentada esta falha com contornos, no meu entender, criminais. Por exemplo, a S&P e a Moody’s deram rating AAA a 12.000 MBS (Mortgage backed securities) em 2006 e 2007, sendo que em 2008 cerca de 90% destes mesmos títulos passaram a “lixo” com perdas monumentais para todos os investidores que acreditaram no valor do AAA.

Não obstante esta desastrada actuação da RA no mercado imobiliário, a verdade é que as autoridades americanas têm tido o maior cuidado em não destruir a sua credibilidade, por exemplo através de processos cíveis ou criminais. A razão é simples: os ratings estão de tal forma imbricados no “plumbing” do sistema financeiro que não lhes parece bom ideia colocá-los em risco.

Pelo contrário, a resposta do legislador americano foi bem mais radical. No ano passado a denominada legislação Dodd-Frank passou a considerar ilegal a utilização de ratings para efeitos regulatórios. Na secção 939A do Dodd-Frank Act estipula-se “They (os reguladores) must modify their regulations to remove any reference to, or requirements in reliance on, credit ratings in such regulations and substitute in their place other standards of creditworthiness”.

Por sua vez, na Europa Basel II seguiu o caminho oposto e os ratings estão completamente imbricados nas classificações dos activos em risco. Não deixa, assim, de ser paradoxal como é a Europa numa “ilógica do desespero” a acusar os EUA numa eventual actuação ilegítima das RA.

Tudo visto e somado, a questão é simples. As “opiniões” das RA são isso mesmo. Os reguladores não lhes devem dar mais importância do que têm e o BCE deve deixar de utilizar estes rating como forma obrigatória  de selecção de activos tal como indicado no Dodd-Frank Act .

Por sua vez devemos deixar as RA tranquilamente fazer o seu trabalho não dando às suas opiniões mais do que merecem, devendo as suas análises integrar o gigantesco mundo da informação tal como muitos outros elementos. O research de bancos, os média, os blogues, etc. tudo são elementos de informação para a tomada de decisões.

São os reguladores quem dá importância as RA, porque se queixam depois?

 

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