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A propósito do fundamentalismo em finanças

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Cerca de 160 auditores, oriundos de empresas de auditoria e de três bancos centrais europeus iniciaram uma análise exaustiva às carteiras de crédito dos oito maiores bancos portugueses.

É um exercício similar ao que foi feito na Irlanda e ao que está a correr na Grécia, sendo que neste caso o exercício foi contratado com a Blackrock que por sua vez treinou 300 auditores para passarem a pente fino as contas dos bancos gregos.

O “striptease” das contas dos bancos portugueses é, assim, uma condição dos credores internacionais que se querem assegurar da fiabilidade dos números apresentados. Tudo indica que os critérios usados  nos três países sejam similares e que não andem longe dos padrões internacionais.

No entanto, de forma cautelar, Ricardo Salgado veio dizer que seria bom que os auditores não utilizassem critérios fundamentalistas. Se assim fosse poderia ser necessário aumentar muito as provisões, isso levar a aumentos de capital e na ausência de disponibilidade privada isso seria abrir a porta a nacionalizações da banca parciais ou até totais. Entendi ter sido também nesta linha que Fernando Ulrich pôs em causa o memorando de Portugal com a Troika apelando à sua revisão.

Naturalmente, um conjunto de analistas nos media se juntaram a este coro. Por exemplo, Nicolau Santos no Expresso de 10 Setembro levanta-se, em nome da soberania nacional contra os troikianos…

“O maior capital de um banco é a confiança: a confiança que os clientes nele depositam e que ele deposita nos seus clientes. E nesse quadro pode haver razões para fazer financiamentos aceitando certo tipo de garantias que não será feito noutros casos. Ora os troikianos desconhecem estas razões”

Perante tanta indigência é mesmo difícil saber por onde começar. Mas a questão deveria ser simples. Afinal, os créditos e outros activos deveriam ter um critério óbvio de valorização que resultasse num certo valor de contabilidade. Um desvio a esse “óbvio” valor deveria ser uma falsificação de contas? Um crime?

Os activos de um banco, como os créditos, acções, obrigações, produtos derivados deveriam ser valorados a valor de mercado. Mas aqui começa a questão. Se há activos completamente líquidos – como as acções cotadas – que têm um valor de mercado e portanto são contabilizados como “mark to market”; há outros que não têm liquidez e são contabilizados como “mark to model”; outros activos ainda  – a maioria dos créditos – são contabilizados “mark to maturity”.

Tudo o que é contabilizado “ mark to market” deverá estar bem, desde que os preços estejam bem – o que é fácil de identificar.

Os problemas começam no “mark to model”. Vou dar um divertido exemplo recente para não complicar.

Colocou-se agora a questão da valorização da dívida grega no primeiro semestre. Muitos bancos decidiram um “write-off” de 50% mas o BNP e a Societe Generale (entre outros) explicaram, nas notas às contas, que com base num sofisticado modelo de avaliação apenas fariam um “write-off” de 21%.

Está-se bem de ver qual o resultado. Os tais mercados massacraram os preços em bolsa dos bancos franceses intuindo que os seus balanços não seriam suficientemente fortes para um maior nível de provisionamento.

Os problemas de contabilização ainda aumentam mais no “mark to maturity”.

Vejamos a questão mais simples. O mesmo título rotulado na carteira de “trading” ou na carteira de investimento. Se um título estiver na carteira de “trading” será “ mark to market”, se estiver na carteira de investimento será “mark to maturity”. Por exemplo, uma obrigação grega se estiver na carteira de “trading” tem de ter “write-off” mas se o banco a classificar na carteira de investimento já não. Sucede que 80% da dívida grega está em carteiras de investimento e portanto, até agora, poucas provisões se fizeram. Uma das grandes explicações para a debilidade dos bancos europeus.

Os casos mais complexos de “mark to maturity” estão no crédito, digamos, clássico, como o crédito à habitação e o crédito às empresas. Mas também sobre isto há boas práticas internacionais mais do que conhecidas. Espero que um dos grandes objectivos deste exercício seja justamente transplantar essas boas práticas internacionais de avaliação de crédito para os bancos portugueses.

Em Portugal, os casos mais bicudos até são (contabilisticamente) os mais fáceis. Como é publicamente notório os bancos fizeram gigantescos créditos com o colateral de acções cotadas (como o BCP) e portanto estarão no quadro “mark to market”. Evidentemente, não sei como o comum dos mortais – mesmo que seja troikiano – possa incluir as “garantias adicionais” a que se  refere Nicolau Santos nessas avaliações.

Uma coisa parece certa – e daí tanto lóbi e tanto nervosismo, terão que ser registadas importantes imparidades adicionais que levarão a aumentos de capital. O BCE tem emprestados – convém não esquecer – € 46 mil milhões à banca portuguesa que pretende proteger. E o BP tem o sigiloso ELA de que toda a gente tem medo sequer de perguntar.

Tudo visto e somado será forçoso concluir que isto da contabilidade afinal talvez seja mais uma Arte do que uma Ciência. Daí a expressão “Creative accounting” que os ingleses inventaram (com conotação negativa entenda-se) ser muito mais praticada do que se imaginaria.

Chegamos, assim, a um ponto onde para discutir a “qualidade” das contas apresentadas se terá que atribuir uma nota ao fundamentalismo utilizado. E podendo-se demonstrar que a equipa da Troika, afinal, foram talibã disfarçados de auditores poderá mesmo argumentar-se que a “falsificação de contas”, afinal, não teve lugar. Uma forma genial de evitar os aumentos de capital.

 

  1. Repare, não se consegue colocar em causa a rectidão e absoluto rigor desta e de outras análises que tive a oportunidade de ler neste site. São verdadeiras lições.

    Mas num cenário de guerra de divisas (ou de ataque ao Euro) e de vários estados soberanos estarem a caír em armadilhas de dívida; numa era em que a mediocridade e corrupção dos dirigentes políticos é gritante; em que provavelmente só com fronteiras e restrições à livre circulação de capitais algumas economias terão chance de sobreviver (embora não se vislumbre ninguém com competência ou coragem para o fazer); num momento em que perante uma avaliação rigorosa das necessidades de capital dos sectores financeiros muito poucos países desenvolvidos terão capacidade para acudir aos seus bancos sem perderem a sua soberania na tal espiral de dívida; ao mesmo tempo que outros blocos económicos conseguem com pura batota e muito apoio mediático imprimir as divisas deles sem que elas percam valor contra a nossa… num cenário desta complexidade, não me parece totalmente descabida a abordagem de que entre rigor e soberania não se opte automaticamente pelo primeiro.
    Em bom rigor financeiro o país está falido há muito, mas apesar disso a vida e o mundo não são só feitos de Finanças.

    Como aprecio tanto o rigor quanto as finanças custa-me muito dizer isto, mas com o bairro todo a arder a água da piscina não é para regar as begónias!

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