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António Borges e as forças de bloqueio

3 comments

António Borges publicou na EXAME deste mês um importante texto sobre a economia portuguesa. Importante a vários títulos. Por ser dito por um dos portugueses que melhor conhecem a economia do país e pelo alto cargo institucional que ocupa no FMI.

Sublinho desde logo com apreço a coragem pessoal de Borges que  aliás já conhecia. Teria sido muito mais fácil refugiar-se numa retórica de um falso conflito de interesses e colocar outro a falar destes temas incómodos. Mas não. Borges diz o que pensa e afronta de forma clara os interesses estabelecidos e quem os protege.

O último episódio do afrontamento de Borges com os interesses foi a demissão da Direcção que integrava no Instituto Português de Corporate Governance em confronto evidente com  Ricardo Salgado.

Este foi o último episódio de uma longa trajectória de encontros e desencontros com a nossa Terra. Lembro-me do seu “bater a porta” quando Vice-Governador do Banco de Portugal em desacordo com o seu grande amigo de sempre – o então  Ministro das Finanças Jorge Braga de Macedo. De quando voltou, depois de uma carreira “mista” na GS, para uma corrida à liderança ao PSD que acabou destroçada.

António Borges, junto com Jorge Braga de Macedo e Miguel Beleza são três exemplos do que de melhor a elite portuguesa produziu na sua geração. Dois foram Ministros e um Vice – Governador do Banco de Portugal. No entanto, a mim pelo menos, fica o sabor de que qualquer um deles e outros poderiam ter ido muito mais além.

A razão porque não foram tem a meu ver com uma única razão. Pensam pela sua cabeça e correm em pista própria. Por outras palavras, são demasiado perigosos para os defensores do status quo. É basicamente por isto que em Portugal muitos dos melhores têm que emigrar e muitos dos que pretendem singrar em Portugal  são massacrados na primeira curva difícil em que sejam apanhados.

Borges, por experiencia própria esta completamente consciente disto e sabe que cumprir o programa da Troika é coisa de rácios mas muito mais de alteração de estruturas de poder e comportamentos. Vejamos dois exemplos a TSU e o capital dos bancos.

Na TSU joga-se em larga medida o sucesso do programa da Troika e não é por acaso que Borges e os responsáveis do FMI tanto têm insistido nesta medida. Como já tentei explicar em post anteriores e está liminarmente evidente no texto altamente pedagógico de Borges na EXAME, a questão central no êxito final do programa da Troika esta numa realocação de recursos na economia para o sector exportador.

Note-se que não falamos de uma realocação qualquer. Falamos de passar as exportações no PIB de uns 30% para uns 70%, isto é uma alteração radical na estrutura económica de uma dimensão tal e num prazo tal que não conheço na história económica mundial caso similar.

É justamente este experimentalismo que assusta Cavaco Silva e Vítor Gaspar que inequivocamente comungam da mesma análise de Borges mas, enquanto responsáveis políticos, temem as prováveis rupturas nos já frágeis tecidos económicos e sociais.

Há, infelizmente, quem veja na questão da TSU uma luta de soberania ou até de egos. Nada mais longe da verdade, o que está em equação será a mais radical alteração da estrutura económica e derivadas implicações sociais. Resulta evidente do exposto que a resolução deste conundrum vai determinar em última instância a permanência de Portugal no Euro.

O segundo exemplo prende-se com a capitalização da banca. Creio ser hoje evidente para toda a gente que os bancos portugueses têm que aumentar o capital  de forma significativa para cumprir a sua função de prestadores de credito à economia.

Evidentemente os accionistas dos bancos e os seus gestores fogem disto como o Diabo da Cruz. As razoes são óbvias: um aumento de capital será sempre sinônimo de fracasso e a possível entrada do Estado no capital dos bancos  muito perigosa para os interesses estabelecidos.

Seria assim muito melhor gozar das linhas de liquidez ilimitadas que o BCE e a ELA coloquem à disposição dos bancos e ir reduzindo no tempo o rácio de alavancagem cortando no crédito às empresas. Isto significa que os bancos de algum modo até poderiam resolver o seu problema mas as empresas seriam destroçadas.

Veja-se por exemplo o caso do BES que em dois anos tem que reduzir o seu rácio de cerca de 155% para 120%. Uma contracção de crédito de 15% em cada ano?

Repare-se que mesmo esta questão é apenas uma parte do problema na capitalização pois sabemos que o exercício de auditoria dos créditos vai levantar importantes imparidades. Mesmo que os bancos ganhassem tempo na contracção de crédito teriam um gap de capital por imparidades.

Borges, mais uma vez, revela o sentido do interesse nacional. O Banco de Portugal deveria ter objectivos de desalavancagem menos agressivos, deveria ser mais agressivo em matéria de aumento de capital tudo com vista a termos bancos  susceptíveis de financiar o crescimento da economia. Será que isto é difícil de entender?

Mas não, vem logo o Banco de Portugal em comunicado a defender-se logo seguido de comentadores como Helena Garrido que reagem epidermicamente em defesa acéfala dos reguladores.

Tal como na TSU, a forma como se resolver o conundrum da capitalização na banca vai determinar o êxito do programa da Troika.

Para um analista que pretenda uma visão panorâmica sobre Portugal não deixa de ser muito interessante que instituições como o FMI possam estar, em última instância, muito mais preocupados com Portugal do que muitos portugueses.

 

  1. Antonio Almeida says:

    Dr Joao Rendeiro

    Concordo plenamente e tambem me surpreendeu pela positiva a entrevista do Dr Antonio Borges.

    So quem anda na LUTA empresarial podera compreender o sentido dessas palavras, em relaçao a banca portuguesa, que sao a unica forma de incentivar a economia: como voce diz e muito bem, se assim nao for sera o descalabro para a economia portuguesa.

    A acompanhar a surdez da banca, tambem podemos acrescentar o Dr Cavaco Silva,(declarou na entrevista de 4 feira passada que as medidas da troika estavam a ser muito rigorosas para a banca)e tambem como nao podia deixar de ser o presidente da APB.

    Quem e o arbitro ou o player que vai ditar o regulamento?

    Para bem do Pais que avance ja, porque quanto mais tarde, pior sera, e ate pode ja nao ter remedio. Quem? Evidentemente a nossa economia. Porque? Porque a alavanca dessa economia desapareceu.
    Quem e a alavanca? Foi e sera sempre a banca.

    Ja com 90 anos a RTP 2 entrevistou, ja velhinho, o Sr Cupertino de Miranda, fundador e administrador do BPA, e no fim da entrevista a jornalista perguntou lhe:Como define um banqueiro? respondeu sem hesitaçaoes: Um fazedor de empresarios.

    E isto que a Banca tem de voltar a fazer.

    Nao havera ninguem que

    • Mas que empresários deve o banqueiro fazer? Os exemplos que temos da construção são o que são. Se olharmos para o sector do calçado não são melhores. É necessário apostar em PME’s com forte componente de inovação para transformar o panorama nacional. Mas antes disso é necessário formar pessoas capazes, que são o backbone das empresas inovadoras. Nos últimos anos verificou-se uma inacreditável destruição ao nível da educação/formação. Lançaram-se milhares de licenciados “especializados” em coisas sem qualquer utilidade para a nossa realidade e com competências duvidosas. Como se esse erro não fosse suficientemente comprometedor, “inovou-se” na ciência de manipulação de estatísticas do ensino, com aquela aberração que dá pelo nome de “novas oportunidades”. Com isso retirou-se credibilidade a um instrumento de formação e diferenciação precioso. A cereja no topo do bolo foi o processo de Bolonha que, implementado às 3 pancadas por força dos apertados timings de adoptação e da falta de capacidade de planeamento, responsabilidade repartida entre instituições e ministério, deu num sistema em que actualmente encontramos mestres imberbes debaixo de cada pedra que existe na calçada lisboeta…

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