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Cavaco Silva e o Orçamento de 2012

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O Presidente da República fez um comentário crítico ao Orçamento de Estado para 2012. A avaliar pela comoção nacional que se gerou regista-se desde logo que a palavra presidencial é afinal bem mais importante do que a posição de Cavaco Silva no ridículo ranking de poderosos produzido pelo Negócios.

A intervenção de Cavaco Silva vai no meu entendimento ser analisada pelos estudantes de ciência política por muitos e muitos anos. Pois afinal o que justificaria uma nota tão publicamente dissonante quando a relação do Presidente com a maioria  navegaria aparentemente num mar de rosas.

A complexidade da situação é tal que mesmo os mais próximos amigos e conselheiros como Eduardo Catroga e Vítor Bento vieram com uma saudável independência de espírito censurar a posição presidencial.

Mas afinal o que justifica a posição do Presidente no meu entendimento? A confluência de posicionamentos tácticos e estratégicos.

De um ponto de vista táctico Cavaco Silva colocou-se como o inquestionável estabilizador do sistema político. A sua intervenção foi elogiada pela esquerda a começar em Mário Soares e António José Seguro e portanto o Presidente fica muito bem posicionado para as necessárias arbitragens de um confronto político e social que inevitavelmente se agravara.

Mesmo na perspectiva do PSD é evidente que é muito mais vantajoso ter um Presidente com capacidade de manobra em todo o espectro político do que mais um apoiante do Governo. Mantendo integral a sua capacidade política o Presidente poderá eventualmente apoiar o Governo quando ele mais precisar.

Evidentemente, no imediato compreende-se que o Primeiro- Ministro possa ter sido surpreendido e até considerar, com razão, a intervenção presidencial como injusta. Mas o distanciamento do Presidente, na calculatoria do xadrez político, é claramente benéfico para o Presidente e a para a maioria. Surpreende-me que a maioria dos observadores não considerem esta questão elementar.

Mas a questão estratégica é analiticamente ainda mais interessante. O Presidente fez um comentário à esquerda do Governo. Mas o ponto é que o Presidente está à esquerda do Governo.

Que Cavaco Silva se posiciona bem no centro da social-democracia e do socialismo democrático é algo que Paulo Portas conhece desde sempre. As manchetes do Independente que fustigaram o Primeiro-Ministro Cavaco Silva não eram manifestações de juventude do seu então Director. Correspondiam a uma clara clivagem ideológica onde a Direita via em Cavaco Silva um poderoso obstáculo ao seu ascenso.

Neste sentido, o comentário de “esquerda” ao Orçamento corresponde também  a uma convicção política do Presidente. Dizer que os funcionários públicos não devem ser fiscalmente discriminados e que os pesados sacrifícios necessários para estabilizar uma desastrosa gestão socialista devem ser equitativos  não parece coisa extraordinária.

Elementar meu caro Watson.

 

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