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Os aumentos de capital dos bancos portugueses

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Os resultados das cimeiras europeias que se iniciaram este fim de semana e terão o seu epílogo na próxima quarta-feira, 26 de Outubro, terão significativas implicações para os balanços dos bancos portugueses.

Finalmente, um mínimo de senso comum penetrou – admito que apenas temporariamente – as mentes dos políticos europeus e assim se definiram critérios para os testes de stress com um mínimo de credibilidade. A dívida soberana da Grécia será ensaiada com um hair-cut de 60%, a de Portugal e Irlanda com 40% e a da Itália e Espanha com 5%. No seu conjunto os bancos europeus terão cerca de nove meses para aumentar os seus fundos próprios em cerca de € 108 mil milhões havendo simultaneamente instruções aos reguladores nacionais para não permitirem contracção de crédito.

Foi aceite que para compensar estas “perdas” se aceitassem os importantes ganhos nas dívidas públicas Alemã e Inglesa beneficiárias do “flight to quality” dos últimos anos. Daí os bancos ingleses não precisarem de aumentar capital e os bancos alemães terem também um menor impacto. Reside aliás nesta “compensação” a grande diferença entre as estimativas iniciais do FMI de cerca de € 200 mil milhões e este resultado final.

A implicação disto para os bancos portugueses não poderia ser pior. A adicionar aos impactos directos na Grécia que afectam o BPI e o BCP existe o maior impacto da dívida pública portuguesa que em termos relativos afecta o BPI sobremaneira.

A dimensão efectiva destes aumentos de capital vai depender ainda do exercício de análise das carteiras de crédito em curso nos oito maiores bancos e que levarão à identificação de importantes imparidades. O caso mais conhecido é o de Joe Berardo mas este é apenas a ponta do iceberg. Queira Deus que os auditores se não debrucem no financiamento, muitas vezes a 100%, de aumentos de capital de acções e obrigações subordinadas – uma prática considerada irregular pela União Europeia.

A adicionar a este importante montante teremos então o que resulta dos testes de stress da dívida soberana.

Finalmente, terá igualmente importante impacto a negociação da transferência dos fundos de pensão para a Segurança Social pois a contabilização da dívida pública a preços de mercado explicitará um importante gap.

Na minha avaliação o BPI terá pouco impacto de imparidades mas um grande impacto no teste de stress da dívida soberana e no fundo de pensões. Não vejo como possa o BPI fazer um aumento de capital inferior a € 600 milhões.

Tendo accionistas de referência que podem subscrever este aumento de capital sem pestanejar, a questão que se vai colocar aos accionistas do BPI é um aumento de capital para quê? O BPI é um banco que não tem rentabilidade no mercado doméstico dado o seu absurdo cost-income e praticamente todos os lucros e o crescimento vêm de Angola. Na minha avaliação o BPI não tem qualquer futuro na presente configuração e vai fazer tudo para  reeditar uma operação BCP.

O BCP terá forte impacto quer em imparidades quer no teste de stress quer ainda no fundo de pensões. Deve notar-se que as responsabilidades de balanço do BCP à Grécia (isto é, incluindo dívida soberana directa, mais a dívida soberana Grega detida pelo Millenium na Grécia mais a carteira de crédito deste banco na Grécia) é da ordem dos € 6 mil milhões. Não vejo como vai o BCP escapar a um write-off mínimo de 60% deste montante como “end game”, sendo que no imediato o impacto será de cerca de € 600 milhões.

A acrescentar a isto estará o impacto da dívida soberana portuguesa, o gap enorme no fundo de pensões e as imparidades identificadas no exercício da troika. O BCP precisará de um gigantesco aumento de capital subscrito pelo Estado.

Uma fusão BCP/BPI financiada com capitais públicos faz todo o sentido desde que protagonizada por novas pessoas, se possível, recrutadas no mercado internacional.

No BES o impacto do teste de stress será o menor dos três bancos dada a menor exposição a dívida soberana mas significativo o impacto via fundo de pensões. No entanto, tanto quanto posso avaliar como observador externo prevejo um importante impacto também por imparidades. Em consequência prevejo um importante aumento de capital no BES em 2012 a adicionar à conversão de subordinadas a efectuar ainda este ano. A pressão para a queda das acções vai, na minha avaliação, acentuar-se.

Ricardo Salgado vai fazer tudo para evitar a subscrição efectiva de capital público sendo que note-se a Assembleia Geral do BES já a autorizou. A minha avaliação é que vai conseguir muito à justa que o Estado não subscreva capital mas quedará a interrogação sobre o equilíbrio accionista resultante.

 

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