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Galamba vs Costa

2 comments

O deputado João Galamba e o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, envolveram-se numa polémica pessoal numa audição na Assembleia da República.

Os dados são conhecidos. Basicamente, João Galamba questionou em que medida o financiamento da banca ao Estado afectava de facto o crédito e a economia, e Carlos Costa considerou que havia “crowding out”. A polémica apimentou-se pelo facto de Carlos Costa chamar ignorante a João Galamba e o ter mandado estudar. Para além da pimenta da polémica há um conjunto de três aspectos muito interessantes e significativos.

Primeiro estamos a falar de duas gerações. Costa nasceu em 1949, licenciou-se em Economia, fez mestrado em Paris na Sorbonne, em 1982, e fez o SMP do INSEAD em 1998. Em termos profissionais fez uma longa carreira na banca, nomeadamente, na área internacional do BCP e foi Vice-Presidente do BEI desde 2007, vindo dai para Governador do Banco de Portugal.

Conheço obviamente pessoalmente, Carlos Costa por termos coincidido num sem número de situações profissionais, mas nunca tive uma relação de perto ou de longe que se possa considerar próxima. Tenho naturalmente uma opinião sobre o seu perfil. No plano profissional Carlos Costa é muito mais um financeiro de topo do que um banqueiro central. Ben Bernanke, por exemplo, é um dos mais reputados economistas americanos, sendo mesmo a maior autoridade da academia quanto a crise de 1930. De Carlos Costa, nunca se poderá esperar um estudo com densidade académica, mas como a sua carreira mostra, não é nenhum estúpido e está perfeitamente adequado a função – desde que se não ponha a inventar.

No plano pessoal Carlos Costa é uma pessoa extremamente tratável. Diria mesmo com um grau assinalável de humildade, facto notável entre os gigantescos egos financeiros. A altercação com Galamba aparece, desde logo, como completamente incarecterística com o perfil de Costa, indiciando possivelmente o enorme stresse em que está mergulhado. Na pior das hipóteses poderia revelar um certo deslumbramento pela função, o que ao fim de tão pouco tempo, seria péssimo sinal.

João Galamba poderia ser filho de Costa. Nasceu em 1976, licenciou-se em Economia e é Doutorando em Ciência Política. É basicamente um político profissional, com um percurso político muito próximo de José Sócrates, um dos principais animadores do Simplex e, na recente legislatura, um dos deputados mais dissonantes de José António Seguro. Foi um dos deputados mais determinados na campanha pelo voto contra do PS ao Orçamento 2012. Nunca coincidi pessoalmente com Galamba em nenhuma circunstância.

Analisados os perfis pessoais vamos então a questão de forma: esteve bem Carlos Costa a mandar estudar um deputado?

A minha resposta é, definitivamente, não. Um deputado goste-se ou não é eleito pela nação. O Governador do Banco de Portugal é um funcionário. De acordo, um importante funcionário mas um funcionário.

Evidentemente complica a situação, ser de todo o interesse, que este funcionário seja independente do poder político. Ser de todo o interesse, que este funcionário esteja em condições de se não vergar a interesses partidários mas igualmente de se não vergar a outros interesses sectoriais. Não seria, por exemplo, bom para o país que o Banco de Portugal e a Associação Portuguesa de Bancos fossem a mesma coisa.

Em resumo, entre os deputados e o Governador tem que haver um clima de respeito mútuo, onde na sua independência, o Governador tem que ser devidamente escrutinado pelos representantes do povo.

Neste sentido, o Governador tem o dever de receber todas as observações que lhe sejam feitas com urbanidade, como foi o caso da interpelação de Galamba. Imagine-se o que aconteceria no Senado Americano se Bernanke mandasse ir estudar um Senador. Bernanke não ficaria no seu lugar muito tempo. Ainda no plano da forma, mas com potenciais e graves implicações políticas, está a questão da relação política do PS com o BP. É certo que Galamba não é um incondicional do líder do partido mas arriscar a relação do BP com o PS – ainda por cima o partido que o nomeou – pareceu-me um movimento a raiar a estupidez.

Resta a questão mais importante da substância. Disse, João Galamba, uma enormidade? O “crowding out” é uma questão tão evidente que se ensine em qualquer carteira universitária?

A pura verdade é que não há qualquer consenso académico sobre a matéria. Quer no plano macro, onde Galamba se poderia facilmente socorrer dos keynesianos. como Krugman ou Stiglitz, mas ainda mais relevante, no plano micro.  De facto, no plano micro, o Governador disse uma enorme asneira. A emissão de dívida pública, no actual quadro do EuroSistema não tem qualquer impacto na liquidez nem faz praticamente qualquer “crowding out”.

Estes títulos são elegíveis para desconto no Banco Central Europeu com uma pequena margem e, portanto, é o EuroSistema, e em última instância o BundesBank, que refinanciam os sistemas nacionais com liquidez praticamente equivalente.  Nem se coloca o impacto nos rácios de capital, pois este é um tema de solvabilidade e não de liquidez. Por sua vez, em termos de solvabilidade o Banco de Portugal – pelo menos até ao último teste de stresse – tem sido extremamente generoso no tratamento da dívida pública.

Mas tem Galamba razão ao argumentar na linha da emissão da dívida pública e implicitamente caucionar a política de Sócrates e Teixeira dos Santos que acabou no pedido de resgate? O meu entendimento é redondamente não. Não só os credores disseram que o plafond do cartão de crédito se tinha esgotado, como sobretudo, porque os caminhos da competitividade não passam por aí.

Carlos Costa tem razão mas, usou os argumentos errados, faltou-lhe na ocasião uma sólida matriz académica.

 

  1. Caro João Rendeiro,

    Antes do mais, alguns pontos sobre o meu currículo de ‘político profissional’:

    1) Sou deputado desde 2009 e militante do ps apenas há 3 meses. Antes de 2009 nunca tinha tido qualquer actividade política formal.

    2) Licenciei-me em Economia, com média de 17 valores na Faculdade de Economia da Universidade Nova. Depois fui para a London School of Economics fazer o Doutoramento em Filosofia Política.

    3) Trabalhei no Banco Santander de Investimento, na Cluster Consulting (mais tarde DiamondCluster International).

    Eu respondi ao Governador neste artigo (http://www.dn.pt/incio/opiniao/interior.aspx?content_id=2169749&seccao=Convidados). Não fiz qualquer defesa de Teixeira dos Santos ou de Sócrates. Liitei-me a dizer que Carlos Costa não tinha razão quando disse que ‘a compra de dívida pública limitava crédito disponível para economia’. Costa disse que eu era ignorante, que estava de má-fé e mandou-me estudar. Não tinha razão. Quem errou foi ele. Eu, como mostro no meu artigo e como o João Rendeiro parece reconhecer, estava correcto. É tudo, parece-me.

    Cumprimentos

    • antonio almeida says:

      Dr Joao Galamba

      Com a maior isençao e o maior respeito, nao so pelas pessoas envolvidas como tambem pelo salutar Blog que frequentamos,nao percebo como foi possivel ao Dr Carlos Costa responder lhe daquela forma sobranceira, desajustada e prepotente, nada de acordo com a postura de tolerancia, de extraordinaria competencia e de isençao que tem mantido e nos habituou a frente do BdP,nao ha duvida de que no melhor pano cai a nodoa.

      Quanto a raiz da questao, e evidente que a compra de divida publica, leia se ma divida soberana(Portugal, Grecia e Irlanda), por parte das instituiçoes financeiras, e tambem dos seus fundos de pensoes,acelerou em grande escala a indisponibilidade da banca portuguesa para apoiar a economia e as familias. Basta olhar para a diferença entre valor nominal e o valor de mercado da dita DS, para chegarmos a numeros inacreditaveis.

      Os factos inerentes ao que atras menciono, sao sentidos na carne de todos os portugueses que se SOCORRIAM da banca e de tal maneira evidentes que aqui o Dr Carlos Costa tem toda a razao.

      Cumprimentos

      Antonio Almeida

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